Opinião

Como aproveitar oportunidades para frear o fanatismo?

Quando a vida está sob constante ameaça, o pensamento crítico cede espaço à adesão cega e acrítica.

Francisco Estefogo
16/07/25 às 18h00

Em tempos irremediavelmente marcados por recrudescimentos autoritários, discursos de ódio, polarizações agressivas, obscurantismos civilizatórios, bem como retrocessos democráticos, Bertrand Russell (1972-1970), filósofo e matemático inglês, embora seja do século XX, convida-nos nos dias de hoje a um chamado urgente à lucidez e ao convívio pluralista. Ao afirmar, na irretocável obra A Última Oportunidade do Homem , que a segurança, a prosperidade e a educação liberal são centrais para acabar com o fanatismo, além de apontar as mazelas de sua época - que não são nada diferentes das contemporâneas -, o pensador revela análises profundas de seu tempo. De forma visionária, oferece reflexões vitais para enfrentarmos os dilemas hodiernos que atravessam o campo político, social e educacional. Nesse esteio, a educação crítica liberal desponta como uma oportunidade de reflexões sobre as lógicas da idolatria fanática e de seus desdobramentos usualmente acobertados, tais como a exclusão, a servidão e a precarização da vida.

A insegurança, seja ela material, simbólica ou afetiva, constitui o terreno fértil no qual o fanatismo germina e se propaga exponencialmente. Grupos sociais marcadas pelo medo, além das desigualdades e violências crônicas, tendem a buscar respostas rápidas e redentoras, frequentemente projetadas em ideologias radicais ou líderes autoritários, mascarados de bom-mocismo. Quando a vida está sob constante ameaça, o pensamento crítico cede espaço à adesão cega e acrítica. A promessa de ordem célere, mesmo que construída sobre opressão, torna-se promissora, palatável e extremamente desejável.

Na contemporaneidade, essa lógica se atualiza em regimes que, a pretexto de garantir segurança e dignidade, promovem, no avesso, o militarismo, a vigilância em massa, a criminalização da pobreza e o controle dos corpos. A proteção, então, deixa de ser um direito para tornar-se privilégio de poucos. Como assevera Foucault (1926-1984), filósofo francês, os dispositivos de controle são legitimados quando a sociedade é induzida à apreensão. O fanatismo, assim, não é um desvio ou acidente, mas uma consequência programada, manipulada e cirurgicamente engendrada.

Russell compreende que a miséria é cúmplice do supremacismo normativo e da obsessão ideológica. A prosperidade aqui aludida não se refere, certamente, ao acúmulo individual de bens, mas às condições mínimas de existência digna. A fragilização da vida, intensificada pelo voraz e global neoliberalismo, produz subjetividades ressentidas, que, diante da frustração, buscam os agentes do colapso, e ao mesmo tempo, rápidas e fáceis soluções. A vulnerabilidade é a oportunidade do predador. Logo, é nesse vazio que o discurso fundamentalista se infiltra e se enraíza, ao oferecer identidades e artefatos fáceis e rápidos. Em igual medida, a retórica beligerante do deslumbramento desmedido aponta os inimigos e culpados da tal desilusão, ou seja, normalmente, o imigrante, o negro, o indígena, a mulher, o pobre, o docente, a comunidade LGBTQIAPN+, o espectro ideológico oposto, dentre outros grupos perseguidos que não, a rigor, façam parte do mainstream modus vivendi aceito ou considerados normais.

Além de ferirem a ética, as desigualdades abissais de nosso tempo, que, similarmente naturalizam a fome em meio à abundância, dentre outras consequências avassaladoras, ameaçam a democracia e desmobilizam a participação política. Fanatismos não brotam em contextos fecundos do bem-estar social. Pelo contrário, no que diz respeito à autonomia e livre expressão. De acordo com Espinosa (1632-1677), filósofo holandês de origem judaica-portuguesa, a liberdade é filha da potência de existir. Dessa forma, a escassez da libertação prolongada produz servidão voluntária, enquanto a prosperidade compartilhada potencializa a solidariedade, a escuta e a diferença.

Nesse sentido, a educação, para Russell, deve cultivar a dúvida, a criatividade, a imaginação e o pensamento crítico. Ou seja, deve ser liberal no sentido iluminista e libertador, que constitui sujeitos autônomos e críticos, mas não insignificantes reprodutores de dogmas, tampouco do status quo. No entanto, em tempos de guerra cultural e de desmonte das políticas públicas de vivências educacionais emancipadoras, o que se presencia é a tentativa de substituição da educação crítica liberal por treinamentos técnicos, despolitizados, obedientes, homogeneizadores e altamente controladores. Em outras palavras, voltados para o famigerado empreendedorismo ou, pior, o tal empoderamento.

Os projetos ultraconservadores, que combatem o pensamento crítico, promovem a pedagogia do receio, do conformismo, do silenciamento e do controle social. Assim, rechaçam propostas emancipadoras de liberdade, segundo Paulo Freire (1921-1997), educador e filósofo brasileiro. Pela ótica freireana, a educação libertadora crítica é um campo estratégico na luta contra o fanatismo. O que está em jogo nessa raia é a disputa por narrativas e subjetividades. Enquanto a educação bancária, como igualmente problematizada pelo viés freireano, forma para o conformismo, a educação libertadora viceja transformações. Educar, nesse contexto, além de ser um ato político, é insurgir. Ou seja, construir, como propõe Freire, sujeitos que leiam o mundo, que compreendam os sistemas de opressão e que possam sonhar coletivamente com outras formas de viver. A educação crítica liberal, nesse sentido, é política na veia, pois prepara para a convivência na diferença, para a deliberação democrática e para a coragem de errar, idiossincrasia humana.

Apreende-se, assim, que a proposta de Russell não é apenas diagnóstica, mas propositiva. Mitigar o fanatismo implica compreender suas causas estruturais, que não residem apenas nos sujeitos, mas em sistemas que produzem pânico, penúria e ignorância. A tarefa filosófica, nesse cenário, configura-se no desafio de desvelar os mecanismos que alimentam a intolerância e cultivar práticas que reconstruam o bem comum. Indubitavelmente, a segurança, a prosperidade e a educação crítica liberal não são dádivas prontas. De modo oposto, são longas lutas hercúleas de conquistas. Mais que isso, são projetos de mundo que exigem disputa ética e política. A superação do fanatismo não acontecerá com mais repressão, mas com mais dignidade, mais partilha e mais liberdade para pensar.

Russell, com sua sensatez humanista, convoca-nos a reconstruir as bases da convivência democrática. Frente as consequências modernas do fanatismo, ou seja, o negacionismo e o retrocesso em políticas climáticas, as desigualdades sociais agravadas, a censura e o controle curricular, o autoritarismo legitimado, a polarização e fragmentação comunitária, dentre outras mazelas, talvez a nossa última oportunidade dependa de como escolheremos cuidar, resistir e educar. 

Sobreleva ressaltar que toda engenharia social limitadora da infinitude e da potência humana, seja ela qual for, revela um princípio profundo que, inevitavelmente, conduz à desumanização, apagando, desse modo, a latência ontológica que constitui nossa existência ímpar, criativa e plural. Portanto, é preciso frear essa “sombria superstição que induz as almas fracas a imputarem crimes a qualquer um que não pense como elas” , como já apregoava Voltaire (1694-1778), filósofo francês. O fanatismo representa um carcinoma à liberdade, ao diálogo e à construção de um futuro coletivo assentado no respeito da inerente multidiversidade humana e na justiça epistêmico-social, uma outra grande batalha que precisamos enfrentar.

Membro da Academia Taubateana de Letras, Francisco Estefogo é docente da Universidade de Taubaté e da FATEC-Taubaté. Também é pós-doutorando em Filosofia da Linguagem pela UNIFESP e PUCSP.

* *Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

Francisco Estefogo
 RECOMENDADO PARA VOCÊ
 EM DESTAQUE AGORA
VEJA TODOS OS DESTAQUES
 ÚLTIMAS EM OPINIÃO
Franquia:
Araçatuba SP
Franqueado:
Connect Jornalismo Digital LTDA
48.486.487/0001-90
Editor responsável:
Lazaro Silva Júnior MTB 48158
lazaro.junior@ata.hojemais.com.br
Todos os direitos reservados © 1999 - 2026 - Grupo Agitta de Comunicação.