“Nossa, com mais de 40 anos e ainda mora com os pais?” , alfineta a tia futriqueira. “Agora, depois dos 60, você resolver fazer faculdade? Perdeu a noção?”, indaga o marido controlador machista. “Ainda virgem aos 20 anos?” , cutuca a colega mais popular da sala. “Sei não ... são casados há mais de 10 anos e nada de filhos”, fuxica um dos padrinhos do casamento. “Com mais de 30 e ainda não se casou? Vai ficar para titia!”, profetiza a prima bisbilhoteira. “... eu acho esses seus comentários muito inadequados ... para a sua idade” , julga a ( pseudo ) amiga como se fosse a deusa da adequação e da razão.
Essas são algumas das narrativas do nosso dia a dia que, de alguma forma, circunscrevem os nossos passos na vida à ditadura colonizadora do tempo, absolutamente cara à humanidade, pois, muitas vezes, tornamo-nos reféns da clausura imposta pelos marcos temporais. À luz dos comentários supracitados, que são, no mínimo, deselegantes e desnecessários, apreende-se, então, que há, a rigor, uma idade adequada para morar sozinho, fazer faculdade, ter talento, transar, ter filhos, fazer observações e por aí vai. Se dermos atenção para essas insinuações indelicadas, ou mesmo compreendê-las como uma demanda pessoal, estamos, na verdade, atribuindo o comando do nosso fazer cotidiano às intempéries do tempo. É preciso refletir criticamente que o tempo, como o conhecemos, foi definido para, de uma certa forma, apenas organizar as atividades humanas, mas não nossas vivências, emoções e feitos.
Sobreleva destacar que, há milhões de anos, nas eras Paleolítica e Neolítica, ao observar os períodos de migração dos animais, das chuvas e da fertilidade da vegetação, os caçadores perceberam que esses fenômenos se repetiam com uma determinada frequência. Aos movimentos dos corpos celestes, principalmente a lua e o sol, foi conferido a ocorrência desses acontecimentos, sobretudo, relacionados à abundância de alimentos. Com base nessa dinâmica de controlar e contar o tempo, e com o passar dos séculos, os Sumérios, povos residentes da Mesopotâmia e inventores da primeira forma escrita da humanidade, bem como os Babilônios elaboraram os calendários nos moldes da contemporaneidade.
Avesso ao tempo como um episódio linear e quantificável, do ponto de vista da experiência humana, Henri Bergson (1859-1941), filósofo francês, ganhador do Nobel de literatura em 1927, preconiza, nessa seara, o processo contínuo de mudanças e da criação subjetiva, que não pode ser medido, mas apenas vivido. O tempo da vida prática não corresponde à genuína manifestação da temporalidade como a vivemos, nem à sua verdadeira essência como conjunturas da subjetividade. Na mesma toada, Kant (1724-1804), filósofo alemão e um dos principais pensadores do Iluminismo, entende o tempo como uma intuição que usamos para descrever o mundo, ou seja, a representação da realidade como experiência sensível. Dessa forma, é preciso desconstruir o conceito do tempo cronológico e focar o nosso trajeto existencial, assim como imprimir às nossas atividades valores emotivos e sentimentais, além dos avanços da memória, do intelecto e do nosso percurso singular como seres humanos. Afora esses exercícios, como aludido acima por Kant, também deveríamos usar a materialidade do mundo para expressar o nosso cerne como seres humanos, em particular, no que tange à nossa potência de criação e transformação, por meio da práxis libertadora da servidão temporal, dentre outras amarras impelidas pelo tecido social.
Não bastassem já outros ditames colonizadores e desumanizadores da sociedade hodierna, concernentes à orientação sexual, vestimenta, alimentos, religião, conhecimentos etnocêntricos, dentre outras ações doutrinárias e opressoras, precisamos nos distanciar do cárcere da linearidade cronológica para que possamos viver a nossa vida assentados nos nossos ímpares e legítimos desejos e vontades. Ademais, urge que nos desvencilhemos das normatizações apregoadas pelas julgadoras línguas ferinas, normalmente, maculadas por rancor, ódio, preconceito, despeito, opressão e inveja, de modo que estabeleçamos os nossos sonhos como diretrizes para o trilhar da nossa experiência existencial. Indubitavelmente, planejamento, equilíbrio, sabedoria, responsabilidade e racionalidade são elementos preponderantes nessa trajetória e aventura atemporais e únicas.
Mario Quintana (1906-1994), poeta, tradutor e jornalista brasileiro, ensina-nos a driblar os possíveis espectros míticos e domesticadores do tempo, principalmente, quando nos sentimos acorrentados. Diz o escritor: “amigos, não consultem os relógios quando um dia eu me for de vossas vidas porque o tempo é uma invenção da morte: não conhece a vida – a verdadeira - em que basta um momento de poesia para nos dar a eternidade inteira”.
