Como historiadora, sei que se o meu objetivo é compreender acontecimentos do presente, deveria ter o passado como foco principal o meu pensamento. Ou seja, discorrer algo sobre a temida peste negra ou falar sobre a gripe espanhola, focando naquilo que elas deixaram de lição para os nossos dias e como reagimos de forma semelhante aos que vieram antes de nós.
Então, escolho a ficção “Amor nos Tempos de Cólera”, de Gabriel García Márquez; aquele romance que superou a barreira do tempo e de todas as outras circunstâncias, tendo como pano de fundo uma América Latina que sofria com a epidemia de cólera.
Em determinado ponto da prosa o autor escreve que nunca ninguém pode saber o número de vítimas, pelo fato de termos pudor com as próprias tragédias. E é aí que deixo o romance e volto para a realidade imediata: 28 de abril de 2020. Quantas vidas? Quanto vale a vida? Ficar em casa ou não ficar? De um lado há o privilégio de estar protegido, já do outro há o desespero de não estar, de não saber o que será.
Os jornais falam sobre as mortes, a fome e o desemprego. Uma pandemia escancara a desigualdade social, machuca. O isolamento faz lidar com o nosso caos, com aquilo que somos. Também temos pudor das próprias tragédias? Pensamos no outro? Somos inteiramente sinceros com nós mesmos? Buscaremos que tipos de anestésicos para não olharmos para dentro? “Ser um livro para todos e para ninguém”? - aqui faço sim uma alusão a um dos meus favoritos do Nietzsche. Ou ser o enredo que nos encanta, aquele que construímos e é nosso?
Eu, por exemplo, percebi que o livro que construo todos os dias estava meio perdido e sem foco. Consegui deixar de ter raiva de uma Carolina que fui no passado. Vi que o excesso de tempo no celular não me faz bem. Lembrei que gosto da minha companhia e que a liberdade ainda é uma das minhas maiores bandeiras. Busquei amparo em quem mais me entende.
Ninguém gosta de estar longe do convívio social por imposição, mas já que é algo tão necessário no momento, nós que temos o privilégio de estarmos em segurança, podemos usar esse tempo para refletirmos sobre nós mesmos, com quem queremos estar quando tudo isso passar, aquilo que genuinamente gostamos e também nos lapidarmos como pessoas.
Um tempo de organização interna e por que não de também pensarmos no futuro? Por pior que seja a situação precisamos de sonhos e esperanças.
Entre uma arrumação e outra, encontrei um caderno com algumas anotações de uma aula inesquecível da Angela Liberatti. A lição pode ser resumida em poucas palavras: Devemos construir a nossa vida como uma obra de arte, para depois podermos olhar para trás com orgulho. Acredito que seja exatamente isso. E que o caos que você carrega aí dentro também de luz a uma estrela cintilante.
*Carolina Cerqueira Cruz, um coração que dança no mundo, historiadora, advogada e uma das fundadoras do clube do livro “Entre nós; extremos”, de Araçatuba.