Opinião

Corações de políticos mortos também querem paz

"Olhar para um órgão embalsamado não faz sentido quando falamos de uma população que não sabe o porquê disso tudo"

Carolina Cerqueira Cruz*
06/09/22 às 20h00
Imagem: Quadro de José Joaquim Rodrigues Primavera de Pedro I no leito de morte

Aqui em Lisboa, já há um bom tempo em que os jornais publicam várias notícias sobre as comemorações do bicentenário da Independência do Brasil. Tivemos várias inciativas por parte do governo português. O portal do Ministério dos Negócios Estrangeiros disponibilizou um compilado organizado de forma cronológica com toda a programação comemorativa da data. Essa, por sua vez, elaborada em conjunto pelos dois Estados. Eventos, palestras e exposições.

Do lado de cá, destaco a criação de um Gabinete Brasileiro de Leitura, aprovada por unanimidade na Câmara de Lisboa, para partilha da literatura brasileira em solo português. Aos que não sabem, no Rio de Janeiro temos o espetacular Real Gabinete Português de Leitura, fundando por imigrantes portugueses em 1837. A instituição possui manuscritos raríssimos e também o maior acervo de literatura portuguesa fora de Portugal. Acredito que sim, o intercâmbio literário deve ser incentivado com a criação do gabinete brasileiro em Lisboa.

Em junho, compareci a um desses eventos, uma Conferência na Fundação Calouste Gulbenkian. Confesso que as falas dos meus representantes não me agradaram. A história exaltada ali pelos brasileiros foi aquela produzida para legitimar um discurso. Talvez eles acreditem que a pintura do Pedro Américo foi uma reprodução da realidade.

Em 2022, já deveríamos saber que as imagens construídas posteriormente deram grandiosidade do feito. A prosa de uma sociedade que gostava e ainda gosta da idolatria pela narrativa heroica. A minha vontade foi de berrar: Vai ler Boris Fausto, depois fale comigo. Não ouvi o nome da imperatriz Leopoldina, que enquanto regente do Brasil, foi quem fez o conselho de Estado deliberar uma ata para oficializar a nossa independência. José Bonifácio de Andrada e Silva, grande articulista do ato de 1822, foi lembrado de longe.

Apesar da indignação, acredito que tudo aquilo que tem a função de ensinar e construir o conhecimento possui o seu valor. Mas juro que ainda tento entender: De que maneira um coração embalsamado pode engrandecer as comemorações da data e trazer esses contributos? Uma morbidez dessa parece um custo sem retorno, isso dentro do orçamento das comemorações e que deveria ser melhor aproveitado. Sim, tivemos o Pedro I, que devido às circunstâncias históricas do momento, auxiliado por políticos próximos, captou a necessidade de proclamar a independência e elaborar uma Constituição para o Brasil. A nossa primeira Carta Magna foi outorgada somente em 1824.

O novo imperador constitucional, estancou os rebeldes e ainda manteve a unidade territorial da ex-colônia em suas mãos. Lembrando que todas outras independências na América não foram feitas pelos seus colonizadores, que perderam os domínios. Pedro I foi um homem de seu tempo que agiu muito bem politicamente. Ainda que certos atos mostrem o contrário, professou o liberalismo político e econômico.

De forma perspicaz, abdicou ao trono em favor de seu filho Pedro II do Brasil e regressou a Portugal para lutar contra seu irmão Dom Miguel em uma guerra pelo trono português. O estadista que manteve Brasil e Portugal. O pedido feito em seu testamento de que após a sua morte, o corpo fosse para o Brasil, mas que o seu coração ficasse no Porto.

A trajetória do político que foi e seus atos, devem ser objetos de estudo, pesquisas, palestras, cursos ou mostras. Uma história crítica levada a conhecimento da população para que essa saiba formar conhecimentos autônomos daquilo que realmente significou 1822.

Olhar para um órgão embalsamado não faz sentido quando falamos de uma população que não sabe o porquê disso tudo. Pior, que muitas vezes não gosta da própria história por não a conhecer bem.  O homem já fez tudo que lhe competia em vida, deixem que ele descanse em paz. Pode parecer que não, mas os corações dos políticos também precisam de paz. E ah: Viva Leopoldina e Viva Pedro I do Brasil.

Arquivo pessoal

*Carolina Cerqueira Cruz é historiadora, advogada inscrita na Ordem dos Advogados do Brasil e na Ordem dos Advogados Portugueses. Mestranda em direito internacional e relações internacionais pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Um coração que dança no mundo. 

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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