Opinião

Cuidamos bem de nós mesmos? E dos outros?

A nossa atitude em relação a nós e aos outros funciona como um bumerangue que, como sabido, lançamos e, posteriormente, volta para o lugar de origem.

Francisco Estefogo
16/11/21 às 20h00

É inegável o arroubo da pandemia, de proporções épicas e deletérias, em referência ao estabelecimento da nova ordem mundial. Dentre outras irrevogáveis mudanças, destacam-se os exigentes protocolos de saúde e higiene, os novos padrões de convivência e relacionamentos, sobretudo, nas redes sociais, bem como as plataformas de ensino e, decerto, como uma atividade orgânica, o cuidado conosco e com os outros (que deveríamos ter). Dessa forma, purificar os princípios individualistas, latentes na sociedade moderna narcísica, é condição si ne qua non para resistirmos e vencermos o letal vírus. 

Nessa toada, Michel Foucault (1926 – 1984), filósofo e crítico literário francês, propõe o conceito “cuidado de si”. Trata-se do estabelecimento de regras de existência pautadas na nossa vontade e desejo, fomentado, assim, um estilo de vida que, depois da nossa ação no mundo, retorna para nós mesmos. Dito de outra forma, a nossa atitude em relação a nós e aos outros funciona como um bumerangue que, como sabido, lançamos e, posteriormente, volta para o lugar de origem.

Frente à catástrofe sanitária que vilipendia, particularmente, os indivíduos à margem da sociedade, os escritos foucaultianos são centrais, concernente à refrega contra o mortífero patógeno, porque “ocupar-se consigo não é, pois, uma preparação para a vida; é uma forma de vida”, assevera o referido pensador na irretocável obra “A hermenêutica do sujeito”. Ao cuidar de nós mesmos, tornamo-nos donos da nossa existência, capazes de moderar os nossos afetos e estabelecer um modo de vida alheio à escravidão dos prazeres autocentrados.

Como não somos autossuficientes e por sermos gregários, cuidar de si é certamente se ocupar com a própria conduta e com a atuação dos outros. Logo, o cuidado de si não é uma atividade sem fim, individual ou desvinculada da coletividade. Diz respeito a uma prática diária que busca a transformação individual em relação aos outros e ao mundo.

Uma vez que deveríamos estabelecer normas de existência calcadas na nossa vontade e desejo, conforme sugere Foucault, e, a priori, não queremos adoecer, tampouco morrer, cuidar de nós mesmos e do outro são premissas de resistência e sobrevivência.  No avesso dessa concepção foucaultiana, ao nos pautar numa visão anacrônica em relação à potência da coletividade, caso não cuidemos de nós e, por conseguinte, do próximo, de alguma forma, é patente afirmar que estamos igualmente desdenhando da nossa própria existência, em razão de as atividades humanas estarem infalivelmente interconectadas. Nesse sentido, neste infausto momento sócio-histórico sem precedentes nos últimos 100 anos, quando todos estão frágeis e suscetíveis à sanha do coronavírus, o cuidado de si está inexoravelmente relacionado com o cuidado do outro.

Fundamentada em estudos científicos e empíricos, dentre outras draconianas prerrogativas, a Ordem Mundial da Saúde (OMS) preconiza evitar aglomerações, usar máscaras, higienizar as mãos, e, indiscutivelmente, tomar as vacinas.  São novos modos de vida, em referência aos postulados foucaultianos, concebidos para cuidar de nós mesmos e, consequentemente, dos outros. Mais que isso, trata-se de prescrições, com eficácia cientificamente comprovada, para resistir e nos mantermos vivos, na busca de um possível novo idílio na Terra (já tão judiada).

Portanto, se entrincheirar no júbilo da horda dos que se atentam contra a cultura coletiva, na fleuma do espírito e da atitude egoísta, ao ignorar os avanços científicos sobre as vacinas, por exemplo, pode ser um tiro no pé. Os que cuidam de si tornam-se mais bem preparados para compreender e se relacionar com o outro. Cuidar de nós mesmos e do outro é uma prática cotidiana fertilizadora do solo da nossa subjetividade (de preferência, mais altruísta). Transforma a nossa relação com o próximo e com o planeta. Como um axioma, por mais onírico que seja, o quadro discutido acima oportuniza a reflexão sobre o fato de que sem o outro não existiríamos, tampouco o mundo como o conhecemos. 

*Francisco Estefogo é pós-doutor em linguística aplicada e estudos da linguagem pela PUC-SP, diretor acadêmico da Cultura Inglesa Taubaté e professor do Programa de Mestrado em Linguística Aplicada da Unitau. É pesquisador do programa DIGITMED Hiperconectando Brasil, da PUC-SP, líder do GEPLE (Grupo de Estudos e Pesquisas em Linguagens Emancipatórias), vinculado à Unitau e graduando em filosofia pela Faculdade Dehoniana.  

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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