Opinião

De onde vem o sopro das mudanças?

Ao nos inclinarmos para o abstrato, podemos acreditar que as mudanças da nossa vida estão numa esfera distante, que beira o inatingível.

Francisco Estefogo
24/02/26 às 18h00

Uma das armadilhas mais recorrentes das discussões sobre mudanças e transformações é a tendência de recorrermos a categorias grandiosas do nosso viver, tais como: humanidade, sociedade, igualdade, diversidade, civilização, dentre outras generalizações. Essas abstrações são usualmente concebidas como agentes reais, dotados de vontade própria no tocante aos movimentos da nossa vida. Embora sedutora, essa operação propende a dissolver a nossa responsabilidade prática particular, pois pode deslocar a nossa ação para um plano fora de alcance, no qual tudo parece demasiado distante para ser tocado – que dirá mudado. Ao nos inclinarmos para o abstrato, podemos acreditar que as mudanças da nossa vida estão numa esfera distante, que beira o inatingível. Desse modo, acabamos suscetíveis a episódios letárgicos que, por vezes,  convertem-se em pura inércia e, por conseguinte, o sopro germinal de possíveis mudanças pode se dissipar.

Ademais, principalmente na contemporaneidade, o indefectível ativismo digital, igualmente abstrato, ainda que possa ser o início de propostas transformadoras, oferece um exemplo contundente dessa seara generalizante com postagens sobre “mudar o mundo” com base na adesão a hashtags , discursos moralizantes, sentimentos de indignação momentânea, em meio a tantas outras manifestações virtuais. Criam, usualmente, uma atmosfera de “participação” sem que quase nada mude no plano concreto, principalmente, na camada do foro íntimo de cada um de nós. A hipermobilidade digital pode até “atuar” sobre abstrações, mas sem o enfrentamento corpóreo com o resoluto trabalho cotidiano de reorganizar práticas, vínculos e decisões, as  propagadas mudanças podem ser pífias.

 Além do mais, ao conceber  esses quadros conceituais amplos, muitas vezes, supomos que nossos singelos atos não incidem na vida coletiva, ou que, no avesso, a renovação do nosso interior dependa de impulsos que  contundentemente emanam da esfera global, como se o nosso íntimo apenas respondesse ao macro. Na contramão, é precisamente no manejo mínimo, ou seja,  na forma como falamos, escutamos, cuidamos, interferimos e nos posicionamos no cotidiano imediato,  que a transformação pode encontrar seu verdadeiro laboratório de concretização. A partir desse fenômeno, podemos reconhecer que nenhuma mudança estrutural se sustenta sem que antes possamos  movimentar o pequeno mundo que nos constitui e nos cerca, especialmente, no que diz respeito às nossas nuances peculiares de dilemas, temores, angústias, sofrimentos e desafios pessoais.

Nesse sentido, Maurice Merleau-Ponty (1908-1961), filósofo francês, afirma que o sentido do mundo se realiza na proximidade corporal, naquilo que tocamos, vemos, manipulamos e vivenciamos como presença fenomenológica, pois o “mundo” não é uma totalidade abstrata, mas a trama de relações imediatas em que nosso corpo está inserido. Assim, querer transformar “a humanidade” antes de reorganizar o campo imediato das relações é como tentar mover uma montanha sem antes mexer a própria mão. O gesto só existe quando enraíza-se na experiência concreta. Nessa esteira, bell hooks (1952-2021), ativista antirracista estadunidense, aprofunda essa discussão no que se refere ao fato de que qualquer mudança social precisa emergir de transformações afetivas e relacionais, sobretudo, na intimidade do dia a dia. A sociedade “macro” é apenas a sedimentação ampliada de micros procedimentos. Por isso, discursos abstratos sobre igualdade, democracia ou justiça social soam vazios quando não atravessam, por exemplo, como falamos com familiares; como lidamos com os nossos preconceitos no cotidiano; como cuidamos (ou negligenciamos) nossos vínculos ou como nos responsabilizamos pelas pequenas violências diárias. Não obstante ser muito desafiador e, por vezes, etéreo, o movimento para mudanças deve começar onde a dor é intensa, onde o medo é patente, onde há um fosso que parece não ter fim, onde nos envergonhamos, bem como onde encontramos o limite concreto da própria vida.

Em consonância com esse raciocínio, Marx (1818-1883), filósofo alemão, tanto nos Manuscritos Econômico-Filosóficos quanto em A Ideologia Alemã , denuncia os impulsos recorrentes das teorias idealistas de operar com abstrações vazias, tais como ‘sociedade’, ‘espírito’ ou ‘progresso’, sem o escrutínio das condições materiais concretas da vida-que-se-vive que produzem essas formas de pensamentos. Segundo o pensador, transformar o mundo significa ressignificar modos de produção de vida, as relações empíricas entre as pessoas, assim como os rituais materiais. Dito de outro modo, é a e na vida pontual, circunscrita no âmbito do vivido, que produzimos o geral, mas não o contrário. Nessa direção, de acordo com Arendt (1906-1975), filósofa alemã, para além de meras abstrações totalizantes sobre ‘a humanidade’ ou ‘o mundo’, toda ação autêntica nasce de um início singular, ou seja, da  inerente expressão humana concernente à natalidade. A transformação do espaço público (ou no mundo comum , como Arendt denomina) ocorre quando alguém, situado entre outros, inicia algo novo por meio da palavra e da concretização do fazer. 

Ainda que as inexoráveis abstrações sejam efeitos da vida concreta, a transformação começa no nível mínimo do nosso fazer diário no tocante às nossas condutas, às nossas relações, ao cuidado com o outro e com o nosso corpo, em adição à palavra situada. À primeira vista, mover “a humanidade” flerta com o imaginário! Já reelaborar um comportamento, um hábito ou uma relação é concretamente factível. E é justamente esse deslocamento microscópico que, ampliado, reiterado e, particularmente, coletivo, transforma o mundo. A vida contemporânea, na verve da estridência digital, acostumou-nos a pensar em horizontes muito altos. A transformação real acontece onde o pé toca o chão, isto é, por intermédio de decisões concretas, hábitos reorganizados, afetos realinhados, relações reconfiguradas e palavras que se tornam ações. O mundo, ou a nossa realidade privada, tem mais chances de se redimensionar quando as partes mínimas que o compõem mudam.

Mesmo sob esse panorama, é preciso reconhecer que esse trabalho do nosso ínfimo exige a coragem de admitir que somos, ao mesmo tempo, causa e efeito daquilo que desejamos transformar. Por isso, antes de qualquer revolução exterior, há sempre uma pequena insurgência interior que precisa ser inaugurada. Pode ser uma mera sutileza do agir, quase invisível, que desestabiliza o automatismo do cotidiano e reabre as possibilidades de outras formas de estar, pensar e ser no mundo. Em última instância, são esses movimentos diminutos, silenciosos e insistentes que reorientam as estruturas mais amplas. Afinal, o sopro para as mudanças da nossa vida pode se originar da delicada variação de posturas que ousam romper o que parecia dado, em especial, por equivocada suposição, decorrente das dimensões abstratas do nosso viver. É nesse ponto mínimo singular de cada um de nós, onde o íntimo se move, notadamente a partir dos nossos conflitos e dramas, que o mundo pode começar a se deslocar.

Francisco Estefogo é professor da Universidade de Taubaté (UNITAU) e membro titular da Academia Taubateana de Letras (ATL)

**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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