Opinião

De que verdade estamos falando?

Ao objetivar ludibriar a sociedade por intermédio de um tom alarmista e apelo emocional, os propagadores das fake news criam desconfianças em relação ao que se propala.

Francisco Estefogo
16/03/22 às 12h00

Clima persecutório, polarização, relações sociais rompidas, cancelamento, retórica política exaustiva e unilateral. Essas são algumas das liturgias, principalmente nas redes sociais, sempre elas, que normalmente vicejam a dinâmica da narrativa da vida moderna. Na maioria das vezes, o impasse é oriundo da imposição de, digamos, verdades. Um ponto de vista, por exemplo, não bem digerido é motivo para fissuras e rompantes, alguns ad aeternum. Em outras palavras, o fracasso ou o sucesso da subjetiva lente dos julgamentos será o fator determinante para a continuidade – ou não – de uma relação. Quase sempre, esse crivo é derivado automático de ideologias, normas e dogmas, isentos de qualquer leitura crítica, ímpeto de racionalidade, ou ainda, laivo de sensatez.

Nas democracias, o expediente de se expressar livremente nos moldes dos preceitos legais é, em tese, garantido por lei. Para tanto, o respeito, valor em extinção no debate público acerca de concepções relacionadas à evolução humana, é central para respaldar a ímproba arte da convivência coletiva. Dessa forma, seria possível divergir acerca de questões sociais e ainda assim viver juntos, sem renunciar posições.  Na contramão, ao perseguir e sustentar um posicionamento de forma equivocada, unilateral e sectária, a intolerância, a violência, a incivilidade, a hostilidade, dentre outras nuances da cartilha do autoritarismo, que distorcem sistematicamente a verdade, ficam à espreita.

Nesse sentido, John Stuart Mill (1806-1873), filósofo e economista britânico, afirma que “a verdade que não é permanentemente posta à prova torna-se apenas um dogma”.

No mundo extremamente conectado e tecnológico, no qual absolutamente quase todos são autores e leitores, as fake news, por exemplo, podem multiplicar inverdades em velocidade parecida com a explosiva proliferação da cepa ômicron do coronavírus. Ao objetivar ludibriar a sociedade por intermédio de um tom alarmista e apelo emocional, os propagadores das fake news criam desconfianças em relação ao que se propala. Já que a emoção se tornou o sentimento mais relevante para opinião pública em comparação aos fatos objetivos, as balelas, então, imprimem uma pseudo-realidade e asfixiam o debate construtivo argumentativo.  Uma das razões de as fake news serem manipuladoras e persuasivas, no que tange à verdade dos acontecimentos, é a dificuldade de a maioria desenvolver (ou ter) o espírito crítico. Nesse mesmo esteio, Francis Bacon (1561-1626), Renê Descartes (1596-1650) e Isaac Newton (1643-1727), filósofos e pesquisadores fundadores da Revolução Científica, mudaram o conceito da ciência ao propor que a busca da verdade deveria partir da observação e da experimentação, ou seja, de feitos empíricos, mas não por meio do raciocínio intuitivo emocional, ou da fé, vigorosamente apregoada pela doutrina cristã da época.

Nessa toada, Hegel (1770-1831), filósofo alemão, defende a ideia de que, como fazemos parte de um movimento sociocultural histórico, o desenvolvimento do pensamento humano se organiza a partir do confronto de ideias. Trata-se do movimento dialético que, em linhas gerais, propõe um contra-argumento (antítese) ante a uma proposição (tese), originando uma nova perspectiva (síntese). De acordo com o pensador germânico, a evolução humana fica comprometida sempre que privada dessa dinâmica e interpelação das divergências das “verdades”. Naturalmente, a verdade, que queremos e precisamos, decorre do respeito pelas opiniões alheias, indispensável nesse transcurso de construir uma nova realidade a partir das concepções inerentes à multiplicidade das vozes, considerando, é claro, a garantia do pluralismo democrático.

A perpetuação dessa equivocada e tacanha batalha de egos, moléstia da contemporaneidade, externalizada pelas premissas infundadas, sobretudo pelo vale-tudo da arena digital, pode ser debelada, talvez, com o fármaco “tolerância”. Nise da Silveira (1905-1999), médica psiquiatra brasileira, também nos ajuda a refletir (e talvez combater) sobre essa contenda adoentada de imposições ao entoar a seguinte elocução: “será preciso constância, paciência e um ambiente livre de qualquer coação, para que relações de amizade e compreensão possam ser criadas. Sem a ponte desse relacionamento, a cura será quase impossível”.

Permeado pela amizade, paciência, compreensão e, sobretudo, pelo imprescindível respeito, o debate, aquele, cujo objetivo é a construção de verdades com base em discordantes pontos de vista, é um ato de resistência e, pela ótica hegeliana, fomento para o desenvolvimento humano.

Francisco Estefogo é pós-doutor em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela PUC-SP. Diretor acadêmico da Cultura Inglesa Taubaté e professor do Programa de Mestrado em Linguística Aplicada da Universidade de Taubaté (UNITAU). Líder do Grupo de Estudos e Pesquisas em Linguagens Emancipatórias (GEPLE- UNITAU). Um dos líderes do Grupo de Estudos Agentes Pesquisadores e Promotores de Reflexão da Cultura Inglesa sobre Ensino-Aprendizagem (A.PR.E.CI.E – FACULDADE CULTURA INGLESA). Pesquisador do programa DIGITMED Hiperconectando Brasil, da PUC-SP. No momento, é pós-doutorando em filosofia na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP).

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veiculo de comunicação

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