Opinião

Desafios da crise energética e o ESG

"A excessiva dependência brasileira da matriz hídrica para a geração de energia elétrica faz com que a maioria das ações contra crises de abastecimento seja pontual"

Por Luiz Marcatti e Herbert Steinberg*
24/12/21 às 17h49

Os intensos debates sobre o desenvolvimento sustentável têm impulsionado as sociedades, as empresas, as organizações e os governos a pensarem em ações realmente efetivas para se alcançar esse objetivo. Os desafios têm escala global, e, como tal, envolvem tentativas de acordos e alinhamentos das economias quanto ao uso de recursos naturais, com as esperadas resistências de algumas partes.

De qualquer maneira, a agenda tem avançado, com uma visível mudança de comportamento das empresas, que a cada dia mais adotam diretrizes ESG, para responder às exigências de investidores e consumidores. Ocorre que as transformações de fato significativas dependem de uma mudança estrutural, que inclui a substituição gradativa dos combustíveis fósseis por energia obtida de fontes limpas.

É nesse contexto internacional de descarbonização, que o Brasil agora se vê, pela terceira vez neste século, inseguro para garantir o pleno abastecimento de energia para a população e para as empresas. Não falta competência técnica dos operadores do sistema elétrico nacional — herança do aprimoramento de novas tecnologias desenvolvidas nas últimas décadas —, e o País também conta com avanços no monitoramento das redes, melhor gerenciamento remoto e um eficiente sistema de supervisão e controle.

Apesar disso, o tratamento dado às crises de fornecimento de energia ficou concentrado em questões conjunturais, como ajustes de demanda, controles tarifários e administração de reservatórios, em vez de se focar em aspectos estruturais.

A excessiva dependência brasileira da matriz hídrica para a geração de energia elétrica faz com que a maioria das ações contra crises de abastecimento seja pontual. Não por acaso, é comum que as preocupações girem em torno das previsões climáticas.

A despeito dos avanços na geração e na distribuição de energia, sabe-se que dar atenção apenas a problemas sazonais não é uma boa estratégia no enfrentamento de situações como uma crise aguda de curto prazo de temas de mais amplo alcance, como mudanças climáticas, transição energética e descarbonização.

Essa conjunção de riscos conjunturais e estruturais escancarada na atual crise hídrica e energética é alvo constante das análises do professor Eduardo José Bernini, conselheiro independente e profissional com larga experiência em planejamento energético e empresarial, convidado da edição de novembro do MESA AO VIVO, espaço de debates do canal do Youtube da Mesa Corporate Governance .

Algumas preocupações destacadas por Bernini devem entrar no radar dos conselhos de administração e das instâncias corporativas encarregadas do direcionamento estratégico das empresas. Na avaliação dele, torna-se cada vez mais importante antecipar prováveis demandas que surgirão no âmbito da transição energética para novas fontes.

Os desdobramentos de acordos como o da COP 26, recentemente encerrada, e as tensões entre os estados nacionais são uma demonstração de que os problemas são multifacetados, o que exige respostas. Esse é um dos motivos pelos quais as empresas devem estar preparadas em termos de governança. É bastante provável que, nessa nova dinâmica global, seja necessário cumprir regras estabelecidas por organismos multilaterais e em meio a um cenário de tensões geopolíticas.

A dimensão social do ESG tem uma inevitável correlação com o desenvolvimento sustentável. Diante da velocidade vertiginosa das transformações em curso no mundo, as empresas têm o desafio da requalificação e recolocação de capital humano, que impacta também na empregabilidade, renda e saúde — no “S” , portanto.

No Brasil, se não é possível ignorar os problemas e incertezas das próximas décadas, tampouco se deve desconsiderar o que pode ser feito agora. O agronegócio, por exemplo, é um setor que deve ser demandado de maneira crescente quanto às questões ambientais, para aliar produção e preservação. Paralelamente, estará mais exposto às externalidades decorrentes das cada vez mais intensas e presentes mudanças climáticas.

Do ponto de vista do fornecimento de energia elétrica, o Brasil deve adotar variadas fontes e soluções durante a transição — como o biocombustível — e se aproveitar do crescimento exponencial das novas tecnologias, que abrem espaço para hidrogênio verde e produção de energia eólica e solar.

A diversificação significa uma geração distribuída de menor porte e descentralizada. Essa estratégia não resolve todos os problemas, mas reforça o portfólio, incentiva a inovação e a ruptura tecnológica necessárias à formação de alternativas descarbonificadas.

Esse amplo movimento em direção à transição energética exigirá esforços, terá custos e, como ressalta Bernini, enfrentará obstáculos como a falta de direcionamento estratégico dos países. As nações precisarão agir de forma estrutural, com efeitos possíveis inclusive sobre o atual modo de produção.

De qualquer forma, diante da ameaça de mais curto prazo, representada pela emergência climática, é crucial que as empresas encontrem o equilíbrio dos aspectos ESG e estejam atentas a externalidades. Assim podem transformar essas preocupações em ações para mitigação de riscos e ganho de performance e resultados.

Herbert Steinberg (Foto: Murilo Constantino)

 

 

Por Luiz Marcatti e Herbert Steinberg: Respectivamente, sócio e presidente e sócio, fundador e presidente do conselho da MESA Corporate Governance

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