No contexto revolucionário francês de 1789 os deputados girondinos, moderados e conciliadores, sentavam-se à direita da Assembleia Nacional e os deputados jacobinos, radicais e exaltados, acomodavam-se à esquerda. Ambos os lados tinham por objetivo tomar o poder do Estado para, assim, fazer valer seus programas políticos. De lá para os dias que correm direita e esquerda tornaram-se termos comuns do vocabulário para a compreensão da arena política.
Decorridos mais de dois séculos os termos direita/esquerda adquiriram novos significados deslocando os sentidos originais que possuíam. No século 19, por exemplo, os termos ganharam a conotação de classe social, ou seja, a direita associada à burguesia, a classe dominante, que por ser dominante deseja conservar-se no poder e por isso reage a quaisquer movimentos de contestação; à esquerda, associou-se aos operários, a classe dominada, que por ser dominada intenta tomar o poder e por isso adota uma postura ativa na defesa de seus interesses. De onde derivam subtermos adotados quase sempre em sentido de polarização como conservador/progressista, reacionário/revolucionário.
No século 20, o século dos extremos como afirmou certa feita o historiador Eric J. Hobsbawm, a polarização direita/esquerda logrou novos contornos associando-se, indistintamente, a ideologias extremistas como o fascismo/nazismo e o stalinismo/comunismo que deixaram, enquanto experiência histórica, um rastro de ódio, destruição, mortes, guerras, genocídios, intolerâncias, alcançando uma escala absurda de horrores.
Muito recentemente o critério do respeito à democracia, ao Estado de Direito, aos direitos humanos e ao atendimento às necessidades básicas da população em matéria de educação, saúde, alimentação, cultura, saneamento por parte do Estado passou a ser uma espécie de consenso por parte dos governantes e organismos internacionais, independentes de serem governantes de direita/conservador ou esquerda/progressista.
Parecíamos estar vivendo uma nova onda de democracia, embora nem todos os problemas sociais tivessem sido solucionados, mas o ambiente de consenso e respeito às instituições, trazia esperança de solução mais próxima possível aos conflitos.
No entanto e surpreendentemente a emergência, nas primeiras décadas do século 21, de uma nova direita radical trouxe, novamente, às mentes as lembranças dos horrores do passado nem tão distante assim. Em algum momento alguém já escreveu que quando o presente insiste em repetir o passado, repete-o como tragédia ou como farsa.
A nova direita presente hoje no Brasil, mas presente, também, nos Estados Unidos, na França, na Alemanha e em outras tantos países retroalimenta-se da violência (verbal e física), do desrespeito aos direitos humanos dos pobres, negros, mulheres, imigrantes e das comunidades homoafetivas; desprezam as instituições democráticas e dos mecanismos institucionais do Estado de Direito, construídos duramente pelas sociedades.
A nova direita é intolerante, sustentando-se em fundamentalismos religiosos e bebendo no cristianismo mais retrógrado para sustentar suas pautas de fundo (falso) moralista, opondo-se de forma autoritária às conquistas humanistas alcançadas a duras penas pela sociedade. Estão alinhados aos anti: anti-ciência, anti-vacinas, anti-meio ambiente. Realmente, tempos sombrios, esses que vivemos.
