No último domingo, as redes sociais ficaram em polvorosa por conta de um boletim de ocorrência, registrado em São Paulo, contra o jogador da seleção brasileira de futebol masculino Neymar.
No mesmo dia é noticiada a morte de Tales Volpi Fernandes, mais conhecido como MC Reaça por ter composto músicas em apoio ao então candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro; músicas estas cuja letra diz sem nenhum constrangimento frases do tipo “prasfeministas, ração na tigela”. O jovem, 25 anos, cometeu suicídio depois de agredir gravemente sua namorada, com quem mantinha uma relação extraconjugal, pois o agressor, que se definia como cristão, era casado.
Extremismo político, machismo, tentativa de feminicídio. Eis a combinação mental de um jovem transtornado que deu fim à própria vida. Inclusive, registre-se, com direito à nota de pesar e autoexaltação por parte do Presidente da República e seus filhos.
A esse respeito, Bolsonaro escreveu em seu Twitter “Tales Volpi, conhecido como MC Reaça, nos deixou no
dia de ontem. Tinha o sonho de mudar o país e apostou em meu nome por meio de seu grande talento. Será lembrado pelo dom, pela humildade e por seu amor pelo Brasil. Que Deus o conforte juntamente com seus familiares e amigos. Seu filho Carlos escreveu: “Obrigado sempre pela força! Descanse em paz!” Já Eduardo Bolsonaro publicou: “Fica a imagem de um homem alegre, trabalhador, gente fina e criativo. A sua força deu resultado! Vai com Deus Tales Volpi”.
Acusado de estupro, Neymar, que não está sendo julgado aqui, até porque esse papel cabe à justiça, é um cara talentoso. Ele, visto na mídia nos últimos tempos muito mais pelos seus relacionamentos e lesões do que pela genialidade futebolística, divulgou imagens das conversas íntimas com a outra parte sob a alegação de estar se defendendo da acusação que lhe fora feita.
Se alguns achavam que até a denúncia não havia crime algum, depois da cena do jogador, agora há. Ele expôs a mulher. E o craque da seleção, denunciado por crime sexual, revelando pura veleidade, revida com divulgação de fotos íntimas de uma mulher.
Delito previsto no artigo 218-C do Código Penal. O vídeo foi retirado do ar pelo Instagram e o pai do atleta se pronunciou dizendo que prefere “um crime de internet a um de estupro”. Lamentavelmente, em tempos de redes sociais, ganha quem tiver maior controle emocional, que certamente não é o caso do "menino" Ney.
No vídeo, é possível ver as nádegas da mulher marcadas, o que nem de longe é um problema, desde que haja
consentimento. Ela pode ter se dado conta disso depois de ter saído da situação de dependência e vulnerabilidade em que estava e ao chegar ao seu país criou coragem para denunciá-lo; ou ela pode estar mentindo e deverá responder por isso também, mas não nos cabe julgar a vítima ou condenar sua palavra com base em todo um machismo estrutural que a coloca sob suspeita e descredibiliza sua história e sua denúncia.
Não é porque ele é jogador ou porque pretensamente a relação começou de forma consentida que ele tem esse poder. O poder sobre o corpo do outro é uma forma de violência de gênero. É machismo. É estrutural.
É mais que violência simbólica, é moral.
Durante toda essa semana o caso do jogador ganhou novos desdobramentos. Na terça-feira, dia 4 de junho, o Jornal Nacional publicou uma carta aberta à imprensa divulgada pelos ex-advogados da mulher que acusa Neymar de estupro. Há indícios de que tenha havido uma tentativa de negociação sem que o caso precisasse chegar aos tribunais ou à mídia, visto que os representantes de ambas as partes teriam se encontrado a convite do pai do jogador.
Neymar pai afirmou que Mauro Naves foi o responsável por fornecer os contatos da família, possibilitando o encontro das partes envolvidas. O repórter foi afastado da cobertura de esportes da Globo até que os fatos sejam devidamente esclarecidos.
Neymar Júnior, que seguia treinando normalmente com a seleção masculina de futebol, entrou em campo no primeiro tempo do amistoso realizado na noite de quarta, 5 de junho, em Brasília, mas saiu ainda no início do segundo tempo. Uma lesão no tornozelo tirou o atleta da Copa América. Nesse caso, Tite poderá convocar outro jogador para substituí-lo.
No mesmo dia, o presidente Jair Bolsonaro declarou: "Espero dar um abraço no Neymar antes do jogo. É um garoto. Está num momento difícil, mas eu acredito nele". Posteriormente, o presidente visitou o atacante no hospital.
Especialistas em direito penal e constitucional viram a fala do presidente Jair Bolsonaro em manifestação de apoio a Neymar hoje como uma declaração que “fere os direitos das mulheres, a ética do cargo e infeliz”. Cabe ressaltar aqui que o jogador tem 27 anos.
O machismo é um discurso pronto que vem sendo desmontado, e tratar homens como “meninos” nos alerta à pensar em um público que deve ser infantilizado e desresponsabilizado de suas atitudes. Os mesmos que agem assim, muitas vezes, defendem a redução da maioridade penal. Não existe opressão fora da linguagem.
Assim, os sistemas se especializam em operações de linguagem. Dos discursos prontos que transitam no cotidiano às grandes corporações donas dos meios de comunicação – que são meios de produção da mentalidade geral por meio da linguagem – é sempre a mesma operação que está em jogo. Isso também
nos remete a pensar que toda mulher que repete o discurso machista está, infelizmente, inserida nesse processo de produção de discursos de opressão. Ela se torna vítima e algoz de si mesma.
Textos acusatórios foram escritos para dizer que casos assim enfraquecem a voz de quem precisa ou que esse enfraquecimento é por causa de mulheres assim, numa atitude já condenatória. Como se já estivesse provado que ela está tentando se aproveitar de alguma coisa. Muitas mulheres, inclusive algumas que se dizem feministas, saíram em defesa do jogador. Ora, se tomamos para nós a competência da polícia para investigar e da justiça para julgar, tomando um ponto de partida e de chegada que protege o homem: isso é machismo.
Aceitar a soberania das imagens ou das conversas como se fossem o todo da realidade também o revela. Nossa sociedade é machista e patriarcal. Enxergar para além disso demanda um esforço muitas vezes doloroso que requer estudo e desconstrução.
Não é por causa de mulheres assim que outras são estupradas ou tem sua versão questionada. É por causa dos estupradores e toda uma cultura de assédio, cultura do estupro. O estupro é um crime subnotificado exatamente por isso. Homens estupram uma mulher a cada 11 minutos no Brasil. 99% dos casos de estupro ficam impunes no Brasil.
Violências sexuais praticadas por cônjuge ou companheiro representam 13,15% dos crimes de estupro praticados no Brasil, segundo o Atlas da Violência de 2018. De acordo com especialistas, o número de registros não reflete a quantidade dos casos, pois, como já dissemos, o estupro é um crime subnotificado, uma cifra oculta, como denominada pela Sociologia e Criminologia moderna. Especialmente em caso de relação estável.
Algumas campanhas e movimentos de mulheres tentam conscientizar sobre a cultura do assédio e estupro esclarecendo sobre consentimento com campanhas como “Não é Não”.
Estar numa relação ou ser casado não dá direito a ninguém sobre o corpo do outro. O motivo de não acreditar nas mulheres parte do mesmo ponto que as levou a serem violentadas: o fato de serem mulheres. Assim como em todos os outros dias, domingo não é um bom dia para ser mulher no Brasil.