Opinião

Dos negacionismos e revisionismos

"Para não ficar somente nos negacionistas, temos, ainda, como fenômeno próprio do mundo pós-moderno, os revisionistas que se notabilizam por criar uma realidade paralela"

Rubens Arantes Correa*
23/02/21 às 08h00

Um dos fenômenos mais presentes nos chamados tempos pós-modernos em que vivemos, é o do negacionismo e do revisionismo. O aparato tecnológico digital deu protagonismo aos que são movimentos conhecidos pelo genérico “anti”: antivacina, antidireitos humanos, anticiência e por aí vai.  Do ponto de vista filosófico poderíamos dizer que vivemos um tempo de crise da razão, a mesma razão que o Iluminismo, lá no século 18, havia elegido como fonte e norteamento do pensamento e da ação humana. 

O recrudescimento de ideias,  que para muitos haviam sido superadas, deixadas mesmo para trás, causa (felizmente) estranhamento e surpresa para muitos. Ao que parece o significativo desenvolvimento técnico e tecnológico das sociedades humanas, verificado nos últimos séculos, aproximando as pessoas por meio de transportes e comunicações cada vez mais perfeitos, foram acompanhados, num sentido inverso, pela disseminação de radicalismos políticos, fundamentalismos religiosos, enorme desigualdade social em escala grandiosíssima gerando bolsões de miseráveis enxotados por uma minoria cada vez menor e mais rica.  

Todos esses processos, ainda que contraditórios, estão na base dos chamados negacionismos. 

A combinação (infeliz) entre fundamentalismo religioso (leia-se: cristianismo evangélico) e enorme desigualdade social deu margem às atitudes cada vez mais presente no cotidiano de ações discriminatórias, recusa em aceitar a diversidade homoafetiva, ódio aos pobres e todos os demais grupos sociais economicamente fragilizados, negação à direitos de igualdade reivindicados por mulheres e negros.  A (in)felicidade dos negacionistas é que os grupos sociais que tanto os incomodam e, por isso, combatem, tenham saído da invisibilidade a que estavam condenados há muito. 

Para não ficar somente nos negacionistas, temos, ainda, como fenômeno próprio do mundo pós-moderno, os revisionistas que se notabilizam por criar uma realidade paralela ao revisar fatos históricos já exaustivamente estudados por pesquisadores por meio de métodos científicos, levantamentos de dados, aferimento minucioso de vestígios e fontes.  

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Nada disso interessa aos revisionistas, pois para tal grupo todo o trabalho científico está contaminado pelo que chamam de “ideologia esquerdista”, fenômeno na perspectiva dos tais revisionistas capaz de criar fatos históricos como o genocídio de judeus na Europa no contexto da Segunda Guerra Mundial, a escravização de africanos na América colonial e, no caso particular do Brasil, a ditadura militar. Nada disso teria de fato ocorrido, segundo os revisionistas, pois que não passam de uma invenção doentia e fanática de historiadores.

Eis o cenário em que nos movemos marcado pelos negacionismos e revisionismos sem nenhum fundamento científico (até porque são contra a ciência) e coerência intelectual (dada a limitação de pensamento e abstração). Em tempos pós-modernos, sobrepõe-se a “opinião” sobre quaisquer outras formas de manifestação.  Ainda que essa opinião não tenha âncora para se sustentar e quase sempre não passa de premissas falsas que em tempos de redes sociais, internet etc, é facilmente propagada, disseminada e, pior, consumida e assimilada. 

Um grande escritor brasileiro, Nelson Rodrigues (1912-1980), reacionário e conservador como ele próprio gostava de admitir, escreveu dentre tantas coisas geniais uma frase que cabe muito adequadamente para esses tempos de negacionismos e revisionismos: “Os idiotas vão tomar conta do mundo, não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos”. 

Arquivo pessoal

*Rubens Arantes Correa é historiador, doutor pela Unesp e professor do IFSP (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo), campus Birigui.

 

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.


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