Opinião

E se soubéssemos  o que o destino nos reserva?

"Impacto da ação humana no planeta Terra é retratado na emblemática exposição intitulada Antropoceno, no Museu do Amanhã, Rio de Janeiro"

Francisco Estefogo*
12/05/22 às 18h00

“... o destino, como todos os dramaturgos, não anuncia as peripécias nem o desfecho. Eles chegam a seu tempo, até que o pano cai, apagam-se as luzes, e os espectadores vão dormir”, já preconizava Machado de Assis (1839-1908), na magnânima obra “Dom Casmurro”, publicada em 1899. Talvez, se o escritor carioca fosse contemporâneo, com um olhar atento entre a relação humana e a natureza, a sina e os desdobramentos da atividade da humanidade teriam prenúncios bem mais concretos, sombrios e apocalípticos.

O impacto da ação humana no planeta Terra é retratado na emblemática exposição intitulada Antropoceno, no Museu do Amanhã, Rio de Janeiro. Elaborado por Paul Crutzen, químico holandês vencedor do Nobel em 1995, antropoceno evoca a “época dos humanos”. Em outras palavras, diz respeito ao colapso ecológico, a julgar pelo efeito estufa sobre o clima e a biodiversidade, bem como pelo descomedido consumo dos recursos naturais.

Os temporais que atingiram o sul da Bahia e boa parte de Minas Gerais, no começo deste ano, além da tragédia de Petrópolis, são algumas das amostras do Antropoceno. Os incêndios florestais de magnitude avassaladora, tais como os ocorridos recentemente na California, Estados Unidos, e no Pantanal, Mato Grosso, são outros eventos naturais que corroboram a grandeza da reflexão que a exibição no município carioca proporciona. Aristóteles (384-322 a.C), filósofo grego, ratifica esse raciocínio ao proferir “a natureza não faz nada em vão”.

Ao considerar a máxima de Mary Daly (1928-2010), filósofa e teóloga americana, ou seja, “vamos olhar para a Terra e seus planetas irmãos como coexistindo com a gente, em vez de feito para nós”, ante o vasto apoderamento humano dos recursos naturais, é possível prospectar que o intermitente murmúrio do mar e o sublime farfalhar das árvores estão comprometidos. É notório que os efeitos do proveito predatório e deletério dos terráqueos alcançaram dimensões continentais e catastróficas em todo o globo terrestre.

Afora as políticas públicas ambientais, particularmente como o controle da poluição industrial e de transporte, a gestão do uso dos recursos naturais e o planejamento de ocupação territorial, a degradação e a destruição continuada do meio ambiente incutem elementos que permitem afirmar o quanto a ação humana também deve ser repensada, ressignificada e, certamente, rearticulada no mundo atual. Como assevera Gasset (1883-1955), filósofo espanhol, “eu sou o que me cerca. Se eu não preservar o que cerca, eu não me preservo”.

De acordo com o filósofo holandês Espinosa (1632-1677), o nosso corpo é a ponte de conexão entre o mundo e as variações afetivas experimentadas. Às vezes são alegres, outras, tristes. Segundo o pensador, esses encontros são as circunstâncias que nos fazem humanos. Os que causam alegria aumentam a nossa potência de viver. Na contramão, a nossa energia de vida experimenta baixas intensidades em contextos de tristeza. Essa ligação sinaliza como nos sentimos em relação ao que e quem nos cerca. Portanto, é lícito supor o emergir de novas formas de subjetivação concernente à relação humana com o meio ambiente.

Dessa forma, para manter e fortalecer a potência de viver, é preciso que nós humanos não nos distanciemos da natureza, tampouco de seus mais singelos fenômenos. Da mesma forma, que não sejamos passivos ou indiferentes à depauperação ambiental sob a égide dos avanços tecnológicos.

Enaltecer as alegrias decorrentes da inconfundível beleza do trilar de uma arara-azul ou da inebriante venustidade da onça-pintada, por exemplo, além do rosnar carinhoso de um gatinho indefeso e da terapêutica força das cachoeiras, é central para anabolizar a nossa vontade de viver. A caminhada ao ar livre, que oxigena os pulmões e libera serotonina, o hormônio da felicidade, bem como a contemplação da imensidão e da exuberância dos oceanos, além do afago das sombras das árvores e da uberdade das imensas e imprescindíveis florestas, dentre outros espetáculos da natureza, igualmente fomentam, de alguma forma, encontros esfuziantes.

Desse modo, estaremos mais pujantes para resistir e, então, enfrentar às inexoráveis mazelas e artimanhas que o destino, como aludido acima por Machado de Assis, nos reserva. Ao nos deitarmos todas as noites, poderemos apagar as luzes e dormir, claro, vivos e, a priori, (mais) felizes – certos de que haverá o amanhã. 

* Francisco Estefogo é pós-doutor em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela PUC-SP. Diretor acadêmico da Cultura Inglesa Taubaté e professor do Programa de Mestrado em Linguística Aplicada da Universidade de Taubaté (Unitau). No momento, é pós-doutorando em filosofia na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e na PUC-SP.

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veiculo de comunicação

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