Opinião

Educação que estagna ou que transforma?

"(...) na maioria das vezes, apenas os dominantes têm acesso a esse tipo de educação. Os oprimidos, que normalmente estão à margem da sociedade, pouco usufruem dos avanços que a educação propicia (...)"

Francisco Estefogo*
10/03/21 às 17h45

É indubitável o papel preponderante da educação para a humanização do indivíduo, bem como para os avanços científicos e tecnológicos. A condição humana se moderniza e avança por meio de mais conhecimentos relacionados à saúde, à comunicação, à mobilidade, às condições de vida, às habilidades físico-motoras, à produtividade, dentre outros acontecimentos evolutivos que são centrais para o progresso social e, por conseguinte, o desenvolvimento humano. 

As transformações e os progressos da humanidade se realizam, sobretudo, a partir das práticas educativas. A educação, portanto, é fundamental para a formação e o desenvolvimento cultural, social, político e econômico da sociedade. Para Paulo Freire (1921-1997), como os seres humanos são os verdadeiros agentes construtores da história, os processos educativos deveriam ser viabilizados a toda a coletividade, de modo que os saberes escolares possam ser ferramentas para fomentar a transformação, de forma democrática e igualitária. 

Na perspectiva Freireana, a educação como agente transformativo, inspira mudanças radicais na sociedade, na economia, nas relações humanas e na busca dos direitos, dos sonhos e da liberdade. Sendo assim, sem educação uma sociedade não evolui, tampouco se transforma.

Já na visão de Aristóteles (384 A.C. - 322 A.C.), a felicidade, ou o bem-estar comum, é o cerne da educação, cujo principal papel é preparar o indivíduo para a vida coletiva em sociedade. Infere-se, assim, que a educação aristotélica está alicerçada na equânime condição de felicidade a todos os cidadãos da pólis. Para tanto, urge que se promova a construção de narrativas igualitárias e de uma intensa participação da comunidade,  característica da educação transformadora. 

No entanto, poucos têm acesso ao mundo desenvolvido e tecnológico emoldurado pela educação, pois há ações educativas pautadas numa vertente estagnada e eletiva, que não propiciam transformações para toda a coletividade. Pelo contrário, apenas reproduzem a realidade. No mais, corroboram para a manutenção do status quo e enrobustecem a abissal desigualdade social.

Consequentemente, na maioria das vezes, apenas os dominantes têm acesso a esse tipo de educação. Os oprimidos, que normalmente estão à margem da sociedade, pouco usufruem dos avanços que a educação propicia, pois não despendem de recursos financeiros para custear um tipo de educação que prima para que toda a coletividade possa usufruir dos progressos da humanidade. 

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No Brasil, por exemplo, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), quase 30% dos domicílios não têm acesso à internet. Desses, 25,4% acham que o serviço de acesso à rede seja caro e 24,3% não sabem usar a internet, em pleno século 21. A pandemia, que assola o planeta, escancarou ainda mais esse percalço em território tupiniquim. Ainda de acordo com IBGE, 31,7% dos lares nacionais não têm acesso à rede geral de esgotamento sanitário e ainda 14,5% carecem de distribuição de água como fonte de abastecimento. 

Frente a esses dados, é possível indagar que tipo de educação essa camada da população teve (se é que teve). Na contramão, a educação transformadora e emancipatória, numa vertente freireana e aristotélica, dissemina o bem-estar comum à coletividade, abraçando a diversidade e a coletividade, instigando o pensamento crítico e, assim, questionando o status quo. 

Esta reflexão é apenas uma proposta para iluminar os caminhos para se compreender porque ainda, nos dias de hoje, há ações educativas orientadas para mudanças e a democratização dos progressos, e outras, a propósito, muitas, que meramente reproduzem a realidade e, dessa forma, tolhem para alguns (muitos) os avanços que a humanidade conquistou, sobretudo, graças à força da educação. Contrapondo aos asseios da educação estagnadora, às vezes silenciosa, e para alguns, invisível, é importante que se elaborem formas analíticas de se desenvolver o processo de educação para que se construam pensamentos críticos e ações docentes emancipadoras e transformadoras, com o intuito de sempre se questionar o status quo, e de se prospectar o bem-comum da coletividade. 


(Foto: Arquivo pessoal)

*Francisco Estefogo é pós-doutor em linguística aplicada e estudos da linguagem pela PUC-SP. Diretor acadêmico da Cultura Inglesa Taubaté (SP) e professor do Programa de Mestrado em Linguística Aplicada da Unitau. Pesquisador do programa Digitmed Hiperconectando Brasil, da PUC-SP, líder do Geple (Grupo de Estudos e Pesquisas em Linguagens Emancipatórias), vinculado à Unitau e graduando em filosofia pela Faculdade Dehoniana. 

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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