Opinião

Fome de quê?

Trabalha-se demasiadamente. Descansa-se raramente. A lógica de mercado não permite, nem mesmo, o ócio criativo. Afinal, tempo é dinheiro. O resultado? 171 milhões de crianças até os 9 anos de idade e 2 bilhões de adultos com excesso de peso no mundo

Lívia Bernardes* - Hojemais Araçatuba 
03/09/19 às 08h00

O verbo “comer”, no dicionário, significa: “Ingerir algum alimento, levando à boca e engolindo”. Conceitualmente, o ato de se alimentar se aproxima do lugar ocupado pela alimentação historicamente. Nos primórdios, a comida tinha função de suprir as necessidades energéticas do ser, apenas. Em outras palavras, comer para sobreviver. Tal fato se manteve até o surgimento da agricultura. Com sua implantação e desenvolvimento, a organização social foi se transformando e, com ela, estruturas familiares emergiram.

A partir disso, a oferta de alimentos aumentou, possibilitando às pessoas se ocuparem com diversas atividades tornando, dessa maneira, a sociedade mais complexa. Já no início da década de 90, experimentamos o processo de globalização e, com ele, transformações na sociedade e alimentação que são sentidas até hoje.

A abertura do mercado – globalização – fez com que, entre outras coisas, a oferta de alimentos crescesse substancialmente. Com isso, os industrializados invadiram os supermercados e as propagandas, disseminando – em meio a sociedade – o consumo de alimentos nutricionalmente “condenados”. Rico em calorias, mas com baixo teor de nutrientes, eles carregam as ditas “calorias vazias”. A maioria desses alimentos carrega em sua composição corantes, conservantes, estabilizantes, entre outros. Unindo-se às calorias vazias, eles se tornam um grande desserviço à saúde humana.

Somando-se a isso, o estilo de vida contemporâneo nos coloca, a todo o momento, frente a frente com a estafa. Trabalha-se demasiadamente. Descansa-se raramente. A lógica de mercado não permite, nem mesmo, o ócio criativo. Afinal, tempo é dinheiro. O resultado? 171 milhões de crianças até os 9 anos de idade e 2 bilhões de adultos com excesso de peso no mundo.

Diante desse cenário é preciso refletir e agir. Estamos imersos em uma sociedade doente que potencializa as diferenças e desigualdades que, a longo prazo, falirá. O estilo de vida e a alimentação que diariamente escolhemos não nos fará chegar ao futuro. Estamos abreviando a nossa vida e não temos nos dado conta disso. Comemos por quê? Comemos o quê? Temos fome de quê?

Em 31 de agosto, Dia do Nutricionista, convido meus colegas de profissão para um levante em prol da vida. Que possamos estimular as pessoas do nosso convívio a (re)pensar suas escolhas. Feliz Dia do Nutricionista!

 

*Lívia Bernardes Rodrigues é nutricionista especialista em educação infantil, autora dos livros infantis “Encontro na Feira” e “Ser Semente”.

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