Opinião

Imagens da história que faz rimas

"A população sofre as consequências do extremismo em todos âmbitos e também daquilo que ficou de uma guerra. Vinte anos de perdas humanas, econômicas e culturais"

Carolina Cerqueira Cruz*
03/10/21 às 11h30

A partir de meados do mês de agosto nos deparamos com imagens icônicas da retirada das tropas norte-americanas do Afeganistão, cenas que marcam um capítulo derradeiro do conflito armado, considerado o mais longo de toda a existência dos Estados Unidos.

O ato concluído pelo presidente Joe Biden, já havia sido negociado no governo anterior, estabelecendo-se o prazo final para sua conclusão em 11 de setembro de 2021. Data bem representativa, não? Os atentados terroristas ocorridos nos EUA no mesmo dia, em 2001, foram um dos grandes motivadores da guerra em causa. Mais imagens que impactaram o mundo. Muitos historiadores dizem que nessa data entramos em um novo período da História. Vimos a queda de símbolos.

Lá em 2001, o presidente George Bush Filho deixou claro os objetivos da ofensiva em território, que não exercia nenhum tipo de poder político: a derrubada do governo extremista Talibã, com a posterior instauração de uma democracia no país (alô, soberania! Sentiram o embate entre a não interferência assegurada pela Carta das Nações Unidas, questões de violações de direitos, paz e luta contra o terrorismo?). A Al Qaeda, por sua vez veria o seu desmantelamento.

Que as ilusões sejam colocadas de lado, sabemos que a saída dos norte-americanos do território não é o ponto final dos conflitos na região. Inclusive, já observamos a tomada do país pelo Talibã e que condição do acordo para retirada final não foi respeitada. A proibição não impediu nada. Lá estão eles espalhando o horror (digo isso a partir do meu ponto de vista ocidentalizado de ver o mundo).

A população sofre as consequências do extremismo em todos âmbitos e também daquilo que ficou de uma guerra. Vinte anos de perdas humanas, econômicas e culturais.

É assustadora a semelhança entre o conflito que acabo de citar com a Guerra do Vietnã (1959-1975), considerada um dos grandes fracassos militares dos Estados Unidos. As marcas seguem até hoje no imaginário mundial. Eram garotos que amavam Beatles e Rolling Stones, mas foram chamados para lutar no Vietnã. No tocante as imagens das duas guerras, as de 2021 tiradas da retirada em Cabul e aquelas do resgate em Saigon (cidade de Ho Chi Minh) na década de 70, parecem colagens.

Recortes do caos onde pessoas empilham-se em cenas de guerra sem canções de amor. Em Saigon do passado, o desespero era para acessar um helicóptero que resgatava os norte-americanos do Vietnã. No mês anterior, em Cabul, as multidões tomaram o aeroporto tentando fugir do Talibã. Fotografia vem do grego, com significado de gravar com luz. As que cito estão aí, acessíveis a um clique, na internet.

Então a História se repete ou rima? O filósofo Hegel afirmou que a história se repete sempre, pelo menos duas vezes. Em sentido contrário, o escritor Mark Twain acredita que história nunca se repete, mas muitas vezes rima. Trato apenas de uma comparação por imagens, poderia citar tantos outros momentos históricos. Não esqueçam que por trás dos fatos temos pessoas e as ideologias que as movem. Temos disputa por poder.

Observem e façam paralelos com uma visão crítica. Imagens não devem ser interpretadas somente como captura. Elas estão dotadas de um grande poder simbólico devido a tudo aquilo mostram e representam: rimas da história. E as guerras, aos meus olhos, parecem uma repetição. Concordo com Carl von Clausewitz, a continuação da política por outros meios. Penso que seguirão produzindo imagens de tudo aquilo de ruim que ocasionam, sejam semelhantes àquelas ocorridas outrora ou não.

(Foto: Arquivo pessoal)

*Carolina Cerqueira Cruz é historiadora, advogada inscrita na Ordem dos Advogados do Brasil e na Ordem dos Advogados Portugueses. Mestranda em direito internacional e relações internacionais pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Um coração que dança no mundo.

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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