Opinião

Jung e a política contemporânea: uma reflexão

"Para o famoso psicanalista, a humanidade está ameaçada por mecanismos que ela mesma criou"

Kleber P Medeiro*
15/03/22 às 20h00

A política é um fenômeno social, carrega símbolos e conceitos que podem ser positivos e destrutivos para a humanidade. Podemos citar o nazismo, como exemplo de pensamento simbólico destrutivo. Mais recentemente, temos a guerra da Rússia contra a Ucrânia, que chocou o mundo com suas atrocidades em nome do “bem unilateral”. Todos esses acontecimentos recentes nos fazem pensar: “Por que ainda não aprendemos com o passado? Por que ainda cometemos os mesmos erros de sempre?”  

Para tentar responder essa pergunta, recorremos ao psiquiatra e psicoterapeuta suíço, Carl Gustav Jung (1875 – 1961), criador da psicologia analítica e considerado por Sigmundo Freud seu príncipe herdeiro, antes de romperem por divergência teórica.   

Em seu livro “O Homem e os seus Símbolos”, Jung discute o que ele chama de “homem civilizado”. Segundo ele, a civilização e seu pragmatismo foram afastando o homem de si mesmo, o inconsciente. Isto é, a cultura moderna contribui para o alto grau de dissociação e confusão psicológica. 

Todavia, esse mecanismo inconsciente não desapareceu, ele apenas foi sublimado, como diria Freud, gerando assim os mais diversos sintomas físicos e psíquicos. Nesse sentido, o homem tenta a todo custo se proteger de si mesmo, por meio do comportamento estereotipado, fragmentado, desconexo do mundo interior.  

Para o famoso psicanalista, a humanidade está ameaçada por mecanismos que ela mesma criou. Por certo, a bomba atômica demonstrou de forma definitiva a soberba e a incapacidade de reflexões mais profundas sobre os processos inconscientes motivadores do homem.  

Nesse ponto, fica claro que todos os lados, até aqueles que dizem “agir em nome do bem”, têm traços neuróticos. Muitos países mentem de forma até compulsória, criando justificativas chulas, para atingir seus objetivos, não importando que suas ações vão afetar milhares de pessoas e colocar o mundo todo em risco.

Assim sendo, justamente devido à cisão psicológica, que simbolicamente remete à luta entre o bem e o mal, o distanciamento do verdadeiro "eu", é crescente. Por conseguinte, ficamos presos na armadilha infantil, de um mundo assombrado por demônios, que precisa ser aniquilado a todo custo.  

Portanto, continuaremos elegendo líderes de postura duvidosa, se intitulando o salvador da pátria, prometendo aniquilar o inimigo imaginário em nome da paz, pois, é mais fácil reconhecer a sombra do outro, do que sua própria sombra, e, como disse Jung: “Se pudéssemos ver a nossa sombra (o lado obscuro e tenebroso de nossa natureza), ficaríamos imunizados contra qualquer infecção moral e intelectual”. 

 

(Foto: Arquivo pessoal)

*Kleber Padoam Medeiro é psicólogo pelo Unisalesiano Araçatuba e estudioso junguiano

* Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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