Opinião

Literatura e as representações do Natal

"No caso das celebrações do mês de dezembro elevam-se o Natal, como data do cristianismo, e o Ano-Novo, uma data mais pagã, com menor intensidade religiosa, mas com muito sentimento do encontro, do abraço e da comemoração"

Rubens A. Correa*
16/12/21 às 17h15

Dizia o mestre Antônio Cândido que a literatura é tão vital aos homens como a casa para morar, a alimentação, os meios de subsistência, o respeito à dignidade os são e, portanto, em assim sendo, a literatura, em seu sentido mais amplo, se inscreve como um direito humano. Dessa forma, a literatura se constitui no meio mais antigo de expressão humana, expressão de sentimentos, de horror e admiração, de arrependimentos e insubordinações. 

As celebrações datadas, como aniversários de eventos históricos, dia da mulher, da consciência negra, dentre outras, não ficam fora desse alcance da literatura, pois que humanas, ainda que muitas vezes nem sempre compreendidas por intolerâncias, de diferentes naturezas. No caso das celebrações do mês de dezembro elevam-se o Natal, como data do cristianismo, e o Ano-Novo, uma data mais pagã, com menor intensidade religiosa, mas com muito sentimento do encontro, do abraço e da comemoração. 

Reza a lenda que o Natal foi inventado muito antes dos cristãos. Os romanos, no mesmo dia 25 de dezembro, celebravam a data em “o nascimento do sol invencível” (“Natalis Solis Invicti”). O cristianismo, enfim, uma religião que se apropriou muito mais dos símbolos da cultura romana (e, portanto, ocidental) e muito menos de sua origem judaica (e, portanto, oriental), estabeleceu uma referência histórica (ocidental) que é o nascimento de Jesus. 

Na literatura, o Natal foi celebrado das formas mais diversas.  Como em “Um Conto de Natal” de Dickens, talvez o pioneiro, escrito em 1843, no qual o escritor inglês conta a história de Ebenezer para convidar o leitor à uma reflexão sobre a generosidade. Já o grande escritor russo Dostoiévski em um conto maravilhoso intitulado “A árvore de Natal casa de Cristo” nos chama atenção, enquanto leitores, para a ausência de todos os símbolos que a vida moderna e ocidental associou ao Natal: mesa farta, presentes, festa... a história narra a morte de uma criança e sua mãe em uma noite de extremo frio, na Rússia do século 19, no mesmo dia 25 de dezembro. 

Na língua portuguesa e brasileira, inculta e bela, Machado de Assis celebra a data natalina no soneto “Noite de Natal”, relembrando a passagem da vida – “viva” e “lépida” – clamando por inspiração para concluir com uma indagação tipicamente machadiana: “mudaria o Natal ou mudei eu”?”. Raul Pompeia, autor de “O Ateneu”, recorreu ao conto para construir uma história de noite natal na qual três amigos (imaginários) levam presentes para o pequeno Carlito, atormentado, naquela noite, pela doença da mãe. 

Mas é na poesia, essa arte instigante e profunda, que o Natal, em língua portuguesa e brasileira é mais bem celebrado. Manuel Bandeira, afetivo, religioso, com sua poesia de fundo católico, dizendo “o humano destino”; Drummond, se perguntando do que foi feito do Natal sem neve, sem gelo e sem noite de presépio; Vinícius de Moraes, resignado, nos relembra as dores vividas e que não podemos esquecer, pois que estamos sempre prontos a cavar a cova .... a mesma terra de onde tiramos a força para renascer e onde somos enterrados e onde enterramos. 

Claro que o Natal não ficou à parte do maior poeta da língua, Fernando Pessoa, que prefere, na noite desse dia tão cristão, rememorar “os sentimentos passados” e relembrar a solidão, envolta em saudades, lembranças e sentimentos profundos. 

(Foto: Arquivo pessoal)

*Rubens A. Correa é historiador, doutor pela Unesp e professor do IFSP (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo), campus Birigui

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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