Opinião

Mansidão de Lula e brabeza de Ciro

"Confesso que o achei cordial e simpático"

(*) Antônio Reis
03/03/26 às 15h23
Imagem: IA

Semana passada, Lula contestou Tiago Eltz, repórter da Globo, que tentou distorcer uma fala dele numa entrevista coletiva em Nova Delhi (Índia). "O senhor disse que no encontro com o presidente Trump que o Brasil pode receber criminosos". O "nine”, com tranquilidade e educação, contestou: "Você não ouviu isso aqui".

Na explicação ao repórter, Lula disse que falara a Trump que o Brasil quer punir com cadeia pessoas que cometeram crimes aqui e fugiram pra Disney. "Se eu aceito que você faça a pergunta do jeito que está fazendo, dá a impressão de que eu falei isso. Mas eu não falei isso", continuou o “nine”. O jornalista perdeu o rebolado, tentou corrigir, pagou mico e virou meme nas redes.

O ocorrido me fez retroagir a 1998, quando Ciro Gomes foi candidato a presidente pela primeira vez. Eu era repórter da Folha da Região (Araçatuba-SP), então potência no Interior Paulista. Fui entrevistá-lo em Penápolis. Fui animado, mas com pé atrás, já que o presidenciável era, e continua sendo, famoso por sua destemperança verbal. Quando ministro da Fazenda, em 1994, chamou de otários os consumidores que aceitavam pagar ágio para comprar carros zero km. 

E lá fui eu entrevistar o bocudo. Assim que viu meu crachá, talvez na tentativa de desfazer a imagem de destemperado, saudou-me com um efusivo aperto de mão e a simpatia de um cearense nascido em Pindamonhangaba: "Olá, Toninhu. Tudo bem?". Discorreu sobre a fase de ouro dos jornais regionais, pré-Internet: "Estão entre as empresas que mais crescem no País". Olha a intimidade: “Toninhu”. Confesso que o achei cordial e simpático. 

E fomos à coletiva, pergunta vai, pergunta vem, um jovem repórter, suponho que de alguma emissora de rádio de Penápolis, cutuca a fera com longa introdução antes da pergunta. "O senhor e o ex-presidente Fernando Collor têm muito em comum: nasceram no Sudeste, mas fizeram carreira no Nordeste; tiveram projeção política ainda jovens, foram prefeitos de capitais (Ciro, em Fortaleza; Collor em Maceió), foram governadores (Ciro, do Ceará; Collor, de Alagoas) e ...". 

Impichado em 1992, Collor era a máxima expressão da corrupção no País. A fala do foca (repórter inexperiente na gíria jornalística) deixou a cara do ex-ministro vermelha feito malagueta madura. Parecia que ia soltar fogo pelas ventas e partir pra porrada. E em alto tom interrompeu a fala do foca, que não chegou à pergunta. "Excute aqui, rapaz. Me rexpeite. Não admito ser comparado a ladrão". E falou, discursou, esbravejou. O garoto ficou mudo pelo resto da coletiva.

Gostaria, juro que gostaria, que no lugar do foca de Penápolis estivesse Tiago Eltz. Ou que tente fazer com Ciro o que fez com Lula. O funcionário da vênus platinada ia provar do que é bom pra tosse. Só lamento que no momento em que o País mais precisava, Ciro e sua brabeza foram desfilar em Paris.

Foto: Divulgação

(*) Antônio Reis é jornalista, assessor de imprensa e fotógrafo diletante

**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

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