Opinião

Morar na casa dos outros

"Morar é ter um domicílio, ter CEP, o primeiro sinal de cidadania"

Hélio Consolaro*
11/09/22 às 18h00
Divulgação

Antigamente, nos primórdios da humanidade, as pessoas moravam nas florestas e abrigavam-se nas cavernas. Na ausência destas, construíam as cabanas (as ocas dos índios, por exemplo).  Nossas casas, às vezes, paupérrimas, outras, luxuosas, verdadeira mansões, são as antigas cavernas e cabanas. Tais moradias rústicas foram se agrupando, formando as tabas, hoje temos as metrópoles. 

"Morar na casa dos outros" é uma expressão com sentido bem amplo, seria o mesmo que morar na casa da sogra. Muita gente teve tal experiência. Não se trata de uma  boa coisa porque diz o ditado que "quem casa quer casa", nem que a hospitalidade seja da mãe de um dos cônjuges. O único aspecto positivo é a solidariedade familiar: aquele apoio para o casal que está começando a vida. 

Morar é ter um domicílio, ter CEP, o primeiro sinal de cidadania. Quem mora na rua ou se hospeda aqui e ali, sem endereço certo, se tiver celular, tem como referência certa o número do telefone, e-mail e zap. Outro dia, me surpreendi numa loja de conserto de celulares com um mendigo querendo arrumar o seu, pois não podia ficar sem comunicação.  

De um casal de velhos, morrendo um, o sobrevivente tem resistência em morar com algum filho, pois perde a liberdade, não quer morar na casa dos outros. Nas grandes cidades, há a residência coletiva de idosos e também os condomínios para essa faixa etária. Em tempos de aposentadorias, tais opções se tornam mais viáveis.  

Alugar uma casa é também morar na casa dos outros por meio de contrato, vive se mudando. Ser parecido com o caramujo ou o jabuti que vive com a casa nas costas. Disso surgiu o sonho da casa própria, sem ficar mudando de endereço a toda hora. Meus pais foram assim, como reação, moro na mesma casa há 40 anos.

A população circense radicaliza tal conceito, pois se muda de casa, mas também acompanha o local de trabalho que não se fixa em lugar nenhum, nômade. Oferecer residência fixa para um artista de circo é falta de educação. É como oferecer carona a um andarilho à beira da rodovia.

Nestes dias, estive morando por uma semana numa casa alugada por aplicativo Airbnb. É como invadir a intimidade da família. 

O morador deixou a casa montada, onde ele mora, foi visitar um parente, e me entregou as chaves por tantos dias para hospedar minha família-locatária (com filhos e netos). Uma casa objetiva. Havia um cômodo fechado, onde a família-locadora guardou a parte mais íntima. É morar mesmo na casa dos outros.  

Eu inscrevi minha casa no aplicativo Airbnb, mas fiz isso com a certeza de que ninguém se interessaria de alugar minha casa por alguns dias, ela não fica à beira do rio Tietê. Não teria coragem, meu rancho tem todas as marcas da minha família. É subjetiva. 

*Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Membro das Academias de Letras de Araçatuba (SP), Andradina e Itaperuna (RJ).

**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

Gostaria de ter artigos publicados no Hojemais Araçatuba ? Entre em contato pelo e-mail redacao@ata.hojemais.com.br

 RECOMENDADO PARA VOCÊ
 EM DESTAQUE AGORA
  27/05/26 às 18h36
VEJA TODOS OS DESTAQUES
 ÚLTIMAS EM OPINIÃO
Franquia:
Araçatuba SP
Franqueado:
Connect Jornalismo Digital LTDA
48.486.487/0001-90
Editor responsável:
Lazaro Silva Júnior MTB 48158
lazaro.junior@ata.hojemais.com.br
Todos os direitos reservados © 1999 - 2026 - Grupo Agitta de Comunicação.