Opinião

Não foram abortadas pela mãe, mas são renegadas pela sociedade

"A criança nasce, não se aborta, mas depois não a deixa viver"

Hélio Consolaro*
12/10/23 às 07h07
Carolina Rampi - menina refugiada - 2022 – (Foto: Estadão)

Não curto o mito da infância feliz, como a melhor parte de nossa vida, porque não tenho boas coisas para recordar. Se eu não tivesse dado uma boa infância para meus filhos e netos, talvez teria saudades da minha, não teria elementos de comparação.

Não estou me queixando de ninguém, nem procurando um culpado. Se há um responsável é o tal do pecado social, aquele que cometemos em conjunto. A situação não era boa, meus pais fizeram o melhor e os filhos têm um lugar social de fala. Resumindo: exercemos a cidadania.

No 12 de outubro é Dia da Criança em meio a duas guerras. A cada ano, as crianças não são as mesmas, morreram de fome, foram assassinadas nas guerras ou pelas balas perdidas, mas há muitas que avançaram na sua trajetória, foram vencendo a vida, ou melhor, venceram na vida.

Muitos adultos, geralmente os velhos, criticam, "o mundo está perdido" , mas se esquecem de fazer a autocrítica: quem construiu esse mundo cruel foram eles.

Netos criança recebem presentes de seus avós; todas as crianças receberão presentes, nem que seja um doce, um brinquedo de plástico. Melhor do que não receber nada. Mas muitas crianças não são reconhecidas como filhos por pais; às vezes, abandonadas pelas mães. O último reduto de amor é a avó.

Não quero estragar o aspecto festivo do Dia da Criança de ninguém, mas precisamos nos lembrar delas quando fechamos a folha de pagamento, ao sonegar impostos, ao traficar.

Suas mães honraram a vida, não cuspiram fora o feto, mas a sociedade diz que bandido bom é bandido morto, quem é criminoso não merece viver, exigem pena de morte, fatalidade de uma bala perdida. A criança nasce, não se aborta, mas depois não a deixa viver.  

Não acolhe seu filho sem pai, fruto de um encontro clandestino, porque o machismo diz que "segurem suas cabritas porque meus bodes estão soltos" . Mulher pobre não tem o direito de escolher seu homem, precisa se submeter ao estupro.

Estenda a mão e dê um mimo para uma criança de rua, mas o melhor presente é praticar a justiça social, propiciar trabalho para que cada um ganhe dignamente o seu sustento.

Matar a fome é eliminar o egoísmo; infância digna é o fim da mentalidade machista. Não pegue uma mulher na marra. Viva bem, caro leitor, mas deixe o outro a viver também. Viva a paz, basta de guerra. 

Foto: Reprodução


*Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Membro das academias de letras de Araçatuba-SP, Andradina-SP, Penápolis, Itaperuna-RJ


** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

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