Opinião

No dia em que fui mais feliz

"Como ser feliz num mundo desigual econômica e socialmente estabelecido dessa forma? O que significa ser feliz, já que a esfera do político foi subtraída?"

ubens Arantes Correa*
17/12/19 às 08h00

Em 3 de março de 1794, auge da Revolução Francesa, Louis León de Saint-Just (1767-1794) subiu à tribuna da convenção e declarou em alto e bom som: “A felicidade é uma ideia nova”.

Tomado pela euforia revolucionária, Saint-Just, provavelmente, nem imaginava que sua declaração fosse inaugurar, quase poeticamente, a modernidade, os tempos politicamente modernos dos quais somos herdeiros. E mais: sua declaração dava curso a um princípio, já previsto pela constituição jacobina de 1793, na qual se lê que a finalidade da vida coletiva é a felicidade, cabendo às instituições o dever de garanti-la.

O fato é que decorrido mais de dois séculos da profecia (vaticínio) de Saint-Just, a felicidade não veio. A felicidade faltou ao encontro tão desejado pelos homens modernos. Guerras numa escala extraordinariamente destruidora, pobreza e fome de milhões de humanos na mesma proporção, concentração de riqueza tanto no nível entre classes sociais como, também, entre países, promovendo uma enorme desigualdade.

Todos esses acontecimentos sob a complacência dos governos, exatamente aquela instância institucional, que deveria garantir a felicidade coletiva.

Como ser feliz num mundo desigual econômica e socialmente estabelecido dessa forma? O que significa ser feliz, já que a esfera do político foi subtraída? Resta o “cinismo” como estratégia de vida coletiva, apelando para efeitos do imediatismo, como os eventos da tecnologia, do mundo digital, dos encontros virtuais, as teologias da prosperidade, do consumismo celebrado pelos shopping centers...

A felicidade não veio, e mais, ficou envelhecida pelos valores daquilo que se acomodou chamar “pós-moderno”. Um mundo irreal, mas real; fluido, mas destruidor; líquido, mas sólido.

Descontrolado, o indivíduo não se identifica com nenhuma de suas referências: é isso hoje, mas amanhã, outra coisa. Incoerente, ignorante, avesso ao conhecimento, leitor de rótulos de embalagens, enfim....

Na velocidade da vida contemporânea, ser feliz tornou-se uma obsessão a ponto de se ouvir aos quatro cantos: “Vai ser feliz!”. A felicidade como uma imposição de valores extrínsecos, aquilo que não está em nós. Essa obsessão em ser feliz, quem sabe, explique os índices de depressão, a tal doença do século 21, que não escolhe idade, profissão, sexo, gênero.

No percurso da “ideia de felicidade” anunciada por Saint-Just, há muito mais estranhezas, equívocos, indelicadezas, embustes. A filosofia, só para andar na via contrária, associa o estado de felicidade à condição de desejo e vontade.

A despeito das reflexões filosóficas, o que se verifica é que, no chão da história, a felicidade se transformou numa angústia. Uma busca desesperada que se expressa, muito particularmente, no consumo, que promete uma vida inteira em um único dia. Com certeza o dia mais feliz.

*Rubens Arantes Correa é historiador, doutor pela Unesp e professor do IFSP (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo), campus Birigui.

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