Opinião

O cardiologista e a pandemia da covid-19

"São várias as complicações cardiológicas, como a trombose, devido ao quadro infeccioso dentro das artérias do coração, o qual faz infartar o paciente"

Rafael Otto Schneidewind*
22/05/21 às 18h00

Nesta coluna de estreia, gostaria de relatar os perigos da covid-19 para o sistema cardiovascular, conforme minha vivência em grandes hospitais de São Paulo.

No início da pandemia, quando ouvimos falar da doença na China, muitos de nós, médicos, subestimamos o tamanho do problema, pois surtos de doenças pulmonares nesta região do mundo são relativamente frequentes. Mas dessa vez foi diferente. Em um certo momento, nos meados de 2020, percebemos que chegaria ao Brasil e com força. Era tudo muito novo e as informações de colegas médicos ao redor do mundo eram muito desencontradas, a experiência mais impactante até então, com situações que só víamos na ficção científica. 

Grandes hospitais de referência se prepararam com uma estratégia de guerra. Vivencio esse cenário cotidianamente, trabalhando em um renomado hospital de São Paulo, que foi levado a criar estratégias intensas, e colocar em prática as medidas emergenciais, do plano A ao plano D, como montar barracas para atendimento emergencial.

Na primeira onda, os pacientes começaram a lotar os hospitais diariamente, o que sobrecarregou o sistema. Começamos, então, a entender que o vírus não só causa uma doença pulmonar como sistêmica, ataca outros órgãos do corpo, inclusive o coração, com uma frequência não conhecida antes por infecções virais. Em países como a Alemanha, por exemplo, já chamam a covid-19 de doença sistêmica.  

A segunda onda, no início de 2021, foi ainda mais catastrófica. Quando me questionam sobre a gravidade, preciso perguntar: Quantas pessoas você conhecia que morreu por pneumonia antes da pandemia? Essa pergunta já responde muitos outros questionamentos. 

São várias as complicações cardiológicas, como a trombose (coágulos do sangue), devido ao quadro infeccioso dentro das artérias do coração, o qual faz infartar o paciente. Ouvimos relatos semelhantes todos os dias: “Meu amigo estava super bem e infartou”, uma causa e efeito de complicações dos trombos.

Outra complicação gravíssima é a miocardite, que é literalmente, uma inflamação que danifica as paredes do coração e que pode criar a necessidade do paciente de realizar um transplante cardíaco. Ainda não sabemos se teremos outras consequências graves como essas, apenas a observação desses pacientes ao longo dos anos nos dirá. 

Nossa geração de médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e tantos outros profissionais da saúde, será lembrada na história, como a geração que enfrentou a covid-19, que presenciou como dessa crise humanitária global sairia um mundo muito diferente, em todas as áreas e, em especial, na área da saúde pública, afinal, o impensável que mais parecia coisa de TV sensacionalista, aconteceu. E nós não estávamos preparados! 

Terapias novas, que antes eram muito restritas, se tornaram de conhecimento público como a ECMO (Pulmão Artificial), a qual fomos um dos pioneiros no Brasil. Ainda na pandemia de 2009 pelo vírus H1N1 da influenza (gripe suína), a técnica que aprendia naquela época, aperfeiçoada nos meus anos trabalhando na Alemanha, só agora ganhou a atenção pública. 

Na minha opinião, as restrições causadas pela pandemia no Brasil, nos deixará reféns até o final deste ano. Ela nos pegou de surpresa, despreparados, sem informações concretas, igualmente, dos países mais ricos até os mais pobres. O mundo desenvolvido está começando a esboçar um “retorno à normalidade” e isso se deve à imunização da população e à duração dessa imunidade que a vacina proporciona. Pois, se não formos imunizados tempo suficiente, teremos um grande problema.

*Rafael Otto Schneidewind é médico cardiologista, especialista em circulação artificial, ECMO Therapy e transplante cardíaco. É membro da Sociedade Alemã de Cirurgia Cardíaca e da Roland Hetzer Internation Society for Cardiothoracic Surgery

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