Opinião

O Livro Vermelho de Carl Jung e a importância da imaginação

"(...) com o intuito de aproximar novamente a ciência e arte (subjetividade humana), os experimentos psicológicos com base na imaginação, foram fundamentais para a criação da psicologia analítica, ou psicologia profunda como também é conhecida"

Kleber P Medeiro*
28/04/22 às 19h00

Primordialmente, não se sabe exatamente quando a criatividade/imaginação floresceu na humanidade. No entanto, conjectura-se que tenha surgido há cerca de 60 mil anos, adjacente ao surgimento da linguagem. 

O israelense Yuval Noah Harari, autor do beste-seller “Sapiens – Uma Breve História da Humanidade” sustenta em seu livro que, nesse período, houve o que estudiosos chamam de “Revolução Cognitiva”, o que possibilitou o surgimento da “realidade imaginada” (crenças/mitos compartilhados). A realidade imaginada migrou do mundo subjetivo do homem, para o tecido social, proporcionando cooperação e a criação da civilização humana como a conhecemos hoje.

A arte rupestre, localizado no sítio arqueológico no Parque Nacional Serra da Capivarão, Piauí. Algumas pinturas têm cerca de 30 mil anos. (Foto: Reprodução)

Por conseguinte, pela primeira vez, o homem conseguiu transmitir informações entre si, criando sistemas simbólicos complexos, que possibilitou uma ampla capacidade de resolução de problemas do cotidiano. Um desses feitos extraordinários foi a habilidade de criar cerimônias religiosas e de enterrar os seus entes queridos.  

Outrossim, requerendo uma grande capacidade imaginativa e de generalização simbólica, a arte ganhou seu espaço nesse novo mundo, assim consubstanciando o real e o abstrato. A arte rupestre, por exemplo, são representações mais antigas desse fascinante mundo, que, infelizmente, é tão pouco lembrado. 

Milhares de anos depois, já no início século XIX, surgiu o positivismo, corrente filosófica que reconhece o método da ciência sendo o único valido, devendo ser estendido a todos os campos da atividade humana. Nesse contexto, o imaginário ficou em segundo plano, dando lugar a apenas aquilo que pode ser mensurado, isto é, “medido pelos olhos atentos dos cientistas”.

Carl Jung sentado em frente de sua casa, no lago de Zurique. Foto: (Foto: Reprodução)

Contrariando a corrente positivista, o psiquiatra Carl Gustav Jung (1875 – 1961), começou a explorar sua própria imaginação, de modo a entender melhor a natureza subjetiva do homem. O Livro Vermelho ou Liber Novus (em latim, o " Novo Livro ") foi fruto desse longo trabalho, publicado pela primeira vez em 2009, após 48 anos de sua morte.

O manuscrito Vermelho é considerado uma das grandes revelações da literatura sobre a mente humana nos últimos anos. Jung não só revelou para o mundo o seu método intuitivo, mas também revelou os segredos do seu próprio inconsciente.

Símbolos com representações universais, experimentos psicológicos, estão presentes em toda obra. Do mesmo modo que os antigos, Jung também personificou figuras emblemáticas do mundo dos sonhos, imagens mentais, vozes, que lhe causava espanto e admiração, assim, outorgando, em certo sentido, vida própria para poder estabelecer diálogos em tons questionadores e racionais, no entanto, com respeito e ética.

Foto: Ilustrações presentes no Livro vermelho de Jung (Foto: Reprodução)

Destarte, Jung “confrontou” periodicamente essas figuras e vozes, chegando até estabelecer longas e profundas discussões sobre o sentido da vida. Em entrevista para o analista suíço Aniela Jaffé, em 1957,  Jung esclarece que “o confronto com inconsciente”, foi o período mais revelador de sua vida.

Nessa conjuntura, com o intuito de aproximar novamente a ciência e arte (subjetividade humana), os experimentos psicológicos com base na imaginação, foram fundamentais para a criação da psicologia analítica, ou psicologia profunda como também é conhecida.  

Portanto, O Livro Vermelho de Carl Jung demonstrou a importância do imaginário na era do racionalismo cientifico, resgatando o saber intuitivo e simbólico, inerentes ao homem em sua totalidade. O manuscrito é um convite para soltamos a nossa própria imaginação, tão “enferrujada” nos tempos atuais. Como dizia o grande físico Albert Einstein, “A lógica pode levar de um ponto A ao um ponto B. A imaginação pode levar a qualquer lugar”.

(Foto: Arquivo pessoal)

*Kleber P Medeiro é graduando em psicologia pelo Unisalesiano de Araçatuba e estudioso junguiano

* Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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