Opinião

O Perigo da Tacocracia

"Vida saudável e 'correria' não se harmonizam. O ser humano hodierno está refém não só do tempo cronológico, sua criação, como também de aparelhos eletrônicos, como celulares e similares.

Adelmo Pinho
30/06/22 às 19h33

A palavra “tacocracia” possui origem etimológica no termo grego tákhos, que significa rapidez. Chama a atenção que há poucas décadas o ritmo e o modo de vida do ser humano era muito diferente do atual.

Como questionou o filósofo Mário Sérgio Cortella, no livro “Não nascemos prontos”, ao se referir à tacocracia: a pressa não é mais inimiga da perfeição e devagar não se vai mais ao longe? O fato é que tudo hoje tem que ser resolvido rapidamente, a qualquer custo.

A reflexão é se queremos viver a vida dessa maneira ou não? E, se não, como agir, se as pessoas adotaram a tacocracia, fenômeno que pode ser denominado vulgarmente de “correria” ?

Vida saudável e “correria” não se harmonizam. O ser humano hodierno está refém não só do tempo cronológico, sua criação, como também de aparelhos eletrônicos, como celulares e similares.

A pessoalidade e a interação, que são da essência do ser humano (ser social – Aristóteles), estão sob risco nesse cenário. Jovens optam por jogos eletrônicos e deixam de brincar como antes, já que o ambiente artificial domina o natural.

A opção por alimentação rápida, “fast-food”, foi adotada mundialmente, porque não se tem mais tempo para preparar uma boa refeição. O efeito colateral disso são doenças, como a obesidade originada pela ingestão de alimentos não-naturais e pelo vício de se comer muito rápido, sem a digestão necessária.

Mais grave, ainda, é que a tacocracia faz com que a família tenha pouco tempo para se reunir, porque os compromissos da vida moderna e célere deixam a agenda lotada. A família, assim, ficou relegada a segundo plano.

A preocupação é que, sem a interação familiar, como compartilhar os problemas ou mesmo a alegria? Por tudo isso o ser humano caminha para um isolamento social, refém de ferramentas tecnológicas e de um “mundo acelerado” , enquanto talvez a depressão possa ser a principal doença nas próximas décadas.

Certamente algoritmos ou “mundos artificiais” (metaverso) criados por bilionários da tecnologia não resolverão a solidão humana e suas dores emocionais, mas sim a psiquiatria. A tecnologia traz benefícios, mas também possui efeitos nocivos. Cabe-nos, assim, reagir a esse fenômeno.

Dentro do possível, devemos dizer não à essa “ditadura da velocidade” (expressão usada por Cortella numa entrevista sobre esse fenômeno). Recomendável, enfim, adotar-se um hábito saudável de vida, simples e não acelerado, que não deixe a vida passar, sem ter passado por ela. É a arte de viver a vida (livro de Pierre Weil) no presente.

O poeta Araçatubense Rafa José, na obra “Poesia, a terapia do meu dia” , num de seus belos e inspirados poemas, discorreu com maestria sobre como aproveitar bem o tempo, de forma simples e natural: “Pise na grama. Despreze a rede social o e-mail, o telegrama, esqueça o que tem na TV qualquer que seja o programa e sinta seus pés tocarem a grama ...”.  

Foto: Arquivo

 

 

Adelmo Pinho é promotor de Justiça do Tribunal do Júri em Araçatuba 

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veiculo de comunicação

Gostaria de ter artigos publicados no Hojemais Araçatuba ? Entre em contato pelo e-mail redacao@ata.hojemais.com.br

 RECOMENDADO PARA VOCÊ
 EM DESTAQUE AGORA
VEJA TODOS OS DESTAQUES
 ÚLTIMAS EM OPINIÃO
Franquia:
Araçatuba SP
Franqueado:
Connect Empresa Jornalística e Editora LTDA
32.184.870-0001/54
Editor responsável:
Aline Galcino - MTB: 43087/SP
aline.galcino@ata.hojemais.com.br
Todos os direitos reservados © 1999 - 2022 - Grupo Agitta de Comunicação.