Opinião

O poder da cegueira e a cegueira do Poder

"Não quero discutir política, pois não acredito ter conhecimento suficiente para isso. Quero falar de atitudes"

Lázaro Jr.*
20/04/20 às 11h43

Uma das coisas que eu mais gostava no meu curso de jornalismo, era a oportunidade de poder conhecer pessoas com conhecimento intelectual. Tentei aproveitar cada momento, pois sabia que o tempo era curto e raro. Procurei participar ao máximo de todas as aulas, pois sei o quanto custou estar ali. Não digo custo financeiro apenas, mas de sacrifício, de tantas coisas que tive que abrir mão para estar ali.

O que mais me fazia feliz, era poder aprender com os professores nos momentos pós-aulas, quando discutíamos assuntos de interesse comum. E uma das pessoas com quem eu mais gostava de debater era a professora Ângela Liberati. Lembro-me dela dizendo que um país não precisa de governo, pois o homem é capaz de fazer por si só. Na atual situação, fica bem claro como na prática isso não é possível, porque o próprio homem não consegue viver se não eleger alguém para lhe guiar. Não digo todos, mas muitos.

Sempre fui muito de discutir comigo mesmo. Lembro-me que ainda na infância/adolescência, eu ficava tentando entender sozinho como funcionava o sistema. E percebi, sem ninguém me ensinar, que a base de uma sociedade é o respeito entre os iguais.

Por que existe polícia? Se cada um respeitasse o que é do outro, não seria preciso haver polícia, pois não haveria furto, não haveria roubo, não haveria conflito.

As regras existem porque sem elas, não existe sociedade. Porém, algumas pessoas só se sentem felizes quando quebram as regras. E por quê? Talvez porque não conseguem ver além do seu próprio interesse, não sabem viver para o outro, portanto, não sabem viver em sociedade.

Não quero discutir política, pois não acredito ter conhecimento suficiente para isso. Quero falar de atitudes.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

O que temos visto hoje é que poucas pessoas, se analisarmos o contexto, estão pensando de forma diferente do resto do mundo com relação à pandemia do novo coronavírus. Infelizmente, temos um líder maior na nação que faz parte dessa minoria. Mais uma vez, não quero discutir pessoas, mas, sim, atitudes.

Enquanto a maioria dos líderes mundiais foi convencida de que a melhor forma de se combater a covid-19 é garantindo, em primeiro lugar, a própria segurança e a segurança da população, temos em nosso País, um líder que estimula o enfrentamento entre as pessoas.

Nesse momento, voltamos ao início desta reflexão, onde cito que muitas pessoas não sabem viver se não eleger alguém para lhes liderar. E hoje quem acredita nesse líder, o segue cegamente, repetindo o que ele faz e, o pior, condenando quem pensa de forma diferente.

Quem em sã consciência se manifestaria pela falta de liberdade? Pois o que temos visto, inclusive em Araçatuba, são pequenos grupos de pessoas pedindo por isso, talvez influenciados por esse líder, mas talvez porque não conseguem conviver com a liberdade.

Pedir uma intervenção militar, a instituição do AI5, é pedir para que lhe arranquem a liberdade de ir e vir, a liberdade da livre expressão de pensamento. É conceder a alguém, todos os direitos e todos os poderes para que essa pessoa possa dominar a sua vida.

E a pessoa a quem esse grupo quer dar todo esse poder tem demonstrado com suas atitudes que não tem capacidade de liderar, no sentido de proteger seu povo na totalidade.

Totalmente egoísta, que só pensa em si, no poder que tem, do qual não quer abrir mão, o que é uma liderança cega. Pessoas assim nunca vão valorizar o fazer em conjunto, pois se sentem sempre ameaçadas. Pensam que as pessoas sempre estarão tentando derrubá-las, que estarão querendo tomar o seu poder e por isso irão combatê-las com todas as forças.

Por isso existiram e existem no mundo ditaduras duradouras, com muito prejuízo para a maioria da população, em favor de uma minoria que não tem a capacidade de viver sem um líder, talvez para não ter que pensar e agir por si própria.

Pessoas desse tipo, na maioria das vezes, não têm capacidade de fazer, mas sempre irão criticar tudo o que o outro faz, no intuito de desmerecê-lo, pois temem que ele possa tomar o seu lugar.

No caso atual, temos visto um presidente brigando com alguns governadores (não é preciso citar nomes) por terem tomado medidas individuais em seus estados, para tentar proteger sua população.

Vamos lá.

O líder maior do país tem o poder da decisão e no caso da pandemia, ele demonstra que não acredita no poder do vírus, o desafia e leva seus seguidores a fazerem o mesmo.

Acredito que um líder tem como função principal, proteger os seus seguidores, pois se não houver seguidores, ele não terá quem liderar.

Pois bem, como esse líder maior não tomou as providências necessárias para defender sua população diante da pandemia, alguns governadores, seguidos por alguns prefeitos, tomaram essas medidas, seguindo as recomendações dos órgãos de saúde.

Quando não se tem conhecimento específico sobre algo, é preciso ouvir quem é especialista. As autoridades de saúde nesse momento recomendam o isolamento, o distanciamento, como medidas mais prudentes para que haja tempo de conseguir mais informações sobre o novo coronavírus e, assim, poder enfrentá-lo de frente.

Porém, quando esses governadores tomaram tal atitude, diante da inércia do líder maior, esse líder se sentiu ameaçado e, em vez de se unir a eles e buscar um caminho comum, ele busca o enfrentamento, tentando convencer os seus seguidores de que esses governadores querem, na verdade, tomar o seu poder.

Um líder de verdade, luta pelo seu povo, defende o seu povo, e dá a vida pelo seu povo. Ele nunca deve fazer com que os seus liderados se sacrifiquem por ele.

Nosso presidente, que diz não temer o coronavírus, sai às ruas de Brasília (DF) provocando aglomerações e cumprimentando as pessoas, infringindo tudo aquilo que é recomendado pelas autoridades de saúde.

Agindo assim, com essa cegueira causada pelo poder, ele leva seus seguidores ao mesmo caminho, provocando a instabilidade e a discórdia, num momento em que o principal deveria ser a união de todos no objetivo comum, que é combater o coronavírus, para que todos possam retomar suas vidas o mais breve possível.

Um líder de verdade, estaria buscando soluções para enfrentar o problema e não causar um problema ainda maior, que é o conflito entre os liderados que o seguem cegamente contra aqueles de opinião contrária.

Se nosso presidente não teme o coronavírus, ele deveria viajar aos estados do Amazonas, do Ceará, onde também está parte do povo liderado por ele e que começa a sentir na pele os problemas causados pela covid-19, por falta de vagas de hospitais e até por falta de local para colocar os mortos.

Tudo indica, pela experiência mundial, que estamos apenas no início de um processo que ainda será duradouro e doloroso para muitas famílias que perderão entes queridos.

Muitas dessas mortes podem ser evitadas se nosso líder maior tomar atitudes no sentido de proteger seus liderados, como alguns governadores e muitos prefeitos tentam fazer.

Não é desafiando o inimigo sem critério que se vence uma batalha, mas, sim, estudando-o, para atacá-lo na hora certa, sem correr riscos, se protegendo.

Não estou dizendo que sou a favor de que todos permaneçam o tempo todo em suas casas, que deixem de trabalhar e nem é isso o que as autoridades de saúde dizem. Essa é uma medida extrema, que teve ser tomada nos locais onde não houve o devido cuidado quando ele deveria ter sido tomado, se prevenindo.

Por conhecer essa realidade é que alguns governadores e prefeitos tomam tais atitudes, pois sabem que se não cumprirem o papel de defender o seu povo, para o qual foram eleitos, não têm porquê estarem ali.

Essa é a atitude que se espera de um líder em uma sociedade, a liderança pelo bem comum e não apenas pelo bem próprio, no interesse próprio, a liderança que cega.

Quem ama o seu povo, cuida do seu povo, sem distinção, sem fazer diferença, tentando uni-lo e não jogando seus liderados uns contra os outros, promovendo a discórdia.

Acredito muito na minha liberdade, sempre procurei usá-la da melhor forma possível, sem precisar interferir na liberdade de ninguém. Como jornalista, me sinto na obrigação de fazer o que tiver ao meu alcance para defender essa liberdade, não só a minha, mas a de todos. Eu quero um líder e não um dono!

(Foto: Arquivo pessoal)

 


*Lázaro Jr. é jornalista e brasileiro.

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

Gostaria de ter artigos publicados no Hojemais Araçatuba?  Entre em contato pelo e-mail  redacao@ata.hojemais.com.br .

 RECOMENDADO PARA VOCÊ
 EM DESTAQUE AGORA
VEJA TODOS OS DESTAQUES
 ÚLTIMAS EM OPINIÃO
Franquia:
Araçatuba SP
Franqueado:
Connect Jornalismo Digital LTDA
48.486.487/0001-90
Editor responsável:
Lazaro Silva Júnior MTB 48158
lazaro.junior@ata.hojemais.com.br
Todos os direitos reservados © 1999 - 2026 - Grupo Agitta de Comunicação.