Opinião

O poder libertador do não

"Ser prestativo é algo positivo, mas recusar determinada demanda também é uma virtude. A prioridade de alguém são as suas próprias demandas, sem o sacrifício por tarefas de terceiros"

Marcelo Teixeira*
21/07/21 às 20h30

Para muita gente é difícil dizer não sem que isso cause perturbação. Há quem sofra em negar uma solicitação. E existem ainda pessoas que definitivamente não conseguem recusar um pedido. O medo de decepcionar o outro, de não se sentir prestigiado, de impactar a amizade ou perder o cliente as faz aceitar agir em favor de algo que elas não querem fazer.

O neurocientista Pedro Calabrez explica que esse comportamento inseguro consome o foco e o tempo, comprometendo a produtividade do concordante com algo que deveria ser realmente importante, ou seja, aquilo para o qual ele verdadeiramente deveria dizer sim. Além disso, muito provavelmente, não ocorrerá satisfação plena mesmo com um resultado eficaz ao não que foi executado.

No meio desse processo, surgem as desculpas, os compromissos inventados, os esclarecimentos excessivos, a procrastinação. Tolerar reiteradamente algo que incomoda ou faz sofrer insere o dono do "sim" em um círculo vicioso, que, se não for quebrado, vira uma bola de neve interminável, que causa prejuízo psicológico a quem só concorda.

Ser prestativo é algo positivo, mas recusar determinada demanda também é uma virtude. A prioridade de alguém são as suas próprias demandas, sem o sacrifício por tarefas de terceiros. Ocorre que afetivos, emocionais, passionais, impulsivos – e inseguros – que somos, brasileiros e latinos, tendemos a mascarar as relações de conflito, por menores que elas sejam, para ficarmos “de bem com todo mundo”. Assim, não conseguimos atingir a objetividade racional e simplesmente dizer não.

Nesta situação, psicologia e comunicação andam de mãos dadas, uma área colaborando com a outra, pois dizer não se trata de uma questão de autoconfiança, assim como é uma forma objetiva e eficiente de se comunicar. Verbalizar o não de forma assertiva e sem culpa é o último passo de um processo de maturidade emocional e a retroalimenta a ponto de a pessoa sentir-se cada vez mais à vontade para dizer o necessário não. 

Isso deve ser feito de forma simples, firme e educada, quando algo vai contra as suas crenças, valores e princípios. Isso vale para todo círculo, seja familiar, social ou de trabalho. É necessário dizer não para familiares inconvenientes, amizades tóxicas, relacionamentos abusivos, para a chefia que comete assédio. 

Esteja pronto para dizer simplesmente “não, obrigado”, “não quero”, “não me interessa”, sem explicar o motivo. Saiba que isso vai desagradar, assim como vai te fazer bem, pois estabelecerá limites que vão resguardar a sua saúde emocional e tornar a sua comunicação muito mais eficaz.

 

(Foto: Divulgação)

*Marcelo Teixeira é jornalista e empresário do segmento de comunicação corporativa

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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