Opinião

O príncipe dos ladrões

"Daí não raro os caminhos das florestas estarem cercados de outlaws (os fora da lei) – não o bandido vulgar, mas aquele que precisa burlar a lei para sobreviver, pois a lei é o senhor castelão (e este não é mais um saxão, é um tirano normando)."

Carlos Eduardo Brefore Pinheiro* - Hojemais Araçatuba 
23/09/19 às 09h55

Um gorro com pena de garça, um gibão verde, um calção, um par de borzeguins e uma aljava com flechas – estamos falando de Robin Hood. A publicação de As Aventuras de Robin Hood , de Alexandre Dumas, pela editora Zahar (edição que traz as duas partes da história do personagem – O Príncipe dos Ladrões e O Proscrito ), preenche uma lacuna existente há cerca de sessenta anos em nosso mercado editorial, quando surgiu pela última vez uma edição com o texto integral de Dumas.

Porém não foi o romancista francês quem trouxe para a grande literatura a vida e as façanhas de Robin – o escritor inglês Walter Scott já havia se apropriado dessa figura em seu romance Ivanhoé .

A vida de Robin Hood corresponde a um período de cerca de sessenta anos, de 1160 a 1220. É um momento de tensões constantes entre os saxões (ingleses) e os normandos (franceses); e o fato de os governantes da época estarem ligados, pelo sangue, ao estrangeiro invasor traz uma série de privações, sobretudo para a população mais humilde, que vive à sombra dos senhores feudais.

Daí não raro os caminhos das florestas estarem cercados de outlaws (os fora da lei) – não o bandido vulgar, mas aquele que precisa burlar a lei para sobreviver, pois a lei é o senhor castelão (e este não é mais um saxão, é um tirano normando).

O que vemos desfilar diante de nossos olhos, nas páginas de Dumas, é um cortejo de figuras que abarca todas as classes de uma sociedade medieval, cuja engrenagem econômica é o modelo feudal, porém em um sistema que não funciona mais, pois a corrupção emperra a máquina do desenvolvimento, gerando uma desigualdade caótica.

Na base dessa pirâmide, encontramos a plebe (camponeses e servos), que padece uma vida miserável sem qualquer tipo de amparo ou garantia de direitos. Acima dessa classe temos a nobreza, que, a partir de um modelo de justiça pessoal, assume os papéis de legislador, promotor e juiz tirânico.

Por fim, no topo da pirâmide, encontramos o clero, tão corrupto quanto a nobreza, favorecendo-se da boa-fé do povo e prostituindo-se com o poder, deixando de lado os princípios básicos da caridade.

*Carlos Eduardo Brefore Pinheiro é pós-doutor e doutor em teoria literária e literatura comparada pela USP e mestre em teoria da literatura pela Unesp.

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