Opinião

O que a nossa singularidade pode nos ensinar? 

A promessa didática-vanguardista, a princípio, fomenta uma revolução sem precedentes na educação. Antes fosse. O Brasil amarga uma crise no setor educacional há décadas.

Francisco Estefogo
16/10/23 às 18h00

“Tenha um corpo escultural”; “Invista 2 mil reais e ganhe o triplo”; “Aprenda inglês em 8 semanas”; “Eduque seus filhos para a felicidade”; “Fique milionário sem sair de casa”; “Seja protagonista do mundo com nossas metodologias de vanguarda” . Essas são algumas das promessas miraculosas que permeiam o nosso cotidiano, particularmente, nas redes sociais e nas publicações de autoajuda. A tônica dessas fórmulas milagrosas e idealistas suscita a compreensão de que somos, de algum modo, todos iguais, como se fossemos máquinas: nossos corpos, nossa concepção de vida, nosso processo cognitivo, nossas emoções, nosso momento sócio-histórico, nosso espaço, enfim, nossa vivência. Certamente, conceber as atividades sociais que nos cercam como referências do nosso dia a dia é central, até porque, querendo ou não, fazem parte do nosso entorno. Por sermos seres gregários e, destarte, dependentes das relações sociais, precisamos conviver com outras pessoas. Portanto, muitas vezes, podemos acreditar que o que funcionou para um também trará os mesmíssimos efeitos para nós. Só que não. 

Na atordoante torrente de notícias, anúncios e mensagens, a fadiga informativa pode nos levar à paralisia analítica. Dessa forma, é preciso ter um olhar crítico sobre essas onipresentes prescrições sedutoras, sobretudo, na internet. Somos singulares e únicos, pois refratamos as nossas experiências sociais vividas de forma absolutamente diferente. Em outras palavras, os nossos processos de vivência, internos e externos, constroem os pilares da nossa constituição como indivíduos distintos. Assim, a nossa singularidade nos ensina a ficar à espreita dos modismos hodiernos e mágicos que prometem o santo graal da felicidade, da riqueza, da educação a níveis sul-coreanos e da perfeição corporal, como se a humanidade fosse uma mera usina mecânica constituída de seres homogêneos, autômatos e uniformes. Ledo engano. Nesse sentido, Kierkegaard (1813-1855), filósofo e teólogo dinamarquês, que se debruçou sobre a realidade humana concreta ao invés do pensamento abstrato, com destaque para as nossas emoções e sentimentos frente ao mundo real, sugere que devemos “encontrar uma verdade que seja verdade para nós” , mas não a dos outros.

Na esfera da educação, por exemplo, é muito comum hoje em dia a excessiva adjetivação pleonástica de práticas pedagógicas. Quase tudo em relação à escola virou “ativo, positivo, invertido, inverso, protagonista, polivalente, empoderado” , como se fosse o prenúncio de uma nova Era Iluminista no tão desprezado segmento educacional. À parte do exagero retórico, o alarido lembra propagandas de sabão em pó com “propriedades altamente ativas” . A promessa didática-vanguardista, a princípio, fomenta uma revolução sem precedentes na educação. Antes fosse. O Brasil amarga uma crise no setor educacional há décadas. O pleonasmo da pseudo inovação escolar se instaura na medida que há séculos já se discutem os impactos da relação humana com mundo e com os outros. Espinosa (1632-1677), por exemplo, filósofo holandês, lá na longínqua Idade Média, já discutia como os nossos corpos são afetados por outros corpos. A depender dessa afecção, a nossa potência de viver (conatus) pode aumentar ou diminuir. Diante disso, apreende-se que há uma relação constante e direta agindo no nosso corpo e mente, searas inseparáveis, frente à nossa relação com a dinâmica ininterrupta do tecido social. Por conseguinte, constantemente despontam novos sentidos, paixões e emoções.

Mais adiante na linha cronológica, no começo do século XX, Lev Vygotsky (1896-1934), psicólogo russo que bebeu das proposições espinosistas e marxistas, apontava que o desenvolvimento humano ocorre, grosso modo, a partir da nossa interação social e das circunstâncias histórico-culturais, por intermédio da linguagem. Ou seja, como quase sempre interagimos com livros, jornais, internet, televisão, rádio, familiares, amigos, vizinhos, dentre outros interlocutores, estamos, de alguma forma, regularmente ressignificando a nossa experiência existencial, uma vez que cada momento reflete uma situação sócio-histórica-cultural-material diversa.

Afora esses pensadores, em tempos mais modernos, Paulo Freire (1921-1997), educador e filósofo brasileiro, concebia a educação como um ato político, coletivo e solidário. Dito de outra forma, todos somos agentes na construção de conhecimentos, independentemente de posição social, idade, profissão, gênero, etnia e cultura. Uma das suas máximas, quer dizer, “a escola não é lugar de ensinar, mas de aprender” , traz à baila a possível horizontalização da construção de conhecimentos. Por essa visão de ensino-aprendizagem, nem estudantes, tampouco professores ensinam algo. Juntos, todos aprendemos, visto que todos somos agentivos devido à nossa rica, instrutiva e ímpar jornada existencial.

Essa posição corrobora o fato de que a anacrônica moda pedagógica contemporânea, visceralmente pautada no sedutor marketing educacional, então, não passa de propostas que há tempos já entremeiam o cenário pedagógico. Não há nada de novo ou diferente, além dos adjetivos marketeiros. Mais que prometer o nirvana na educação com expectativas que, de algum jeito, parecem entender que todos aprendem da mesma forma, bem como que todos os contextos são iguais, homogeneizando tudo e todos como se fossemos ingredientes de uma descomplicada receita de bolo, é preciso desenvolver práticas pedagógicas críticas, além de, também, promover a formação crítica reflexiva dos docentes por meio, igualmente, de linguagens críticas, decoloniais e emancipadoras, construtoras de novas epistemes e questionadoras do status quo . Ressalta-se que a criticidade aqui referida diz respeito à problematização de um fenômeno de modo a compreender suas estruturas, concepção, historicidade e organização para poder, assim, pensar além do conceito em questão e desnudar possíveis contradições, preceitos e sentidos relacionados a princípios éticos.

Mais que aventar resultados “positivos” como se a dinâmica educativa fosse uma equação objetiva matemática, geradora de um produto auspicioso e garantido, é imperativo trazer para a escola o debate crítico acerca do acolhimento, das emoções, da empatia, do erigir da confiança, do encantamento e da singularidade de cada estudante, professor e escola, elementos contemplados pelas proposições espinosistas, vygotskianas e freireanas há tempos, como discutido anteriormente. Afora essas questões, as injustiças sociais, o currículo encapsulado, as plurilinguagens que costuram a sociedade, o momento sócio-histórico-cultural, a interculturalidade, tal qual a decolonialidade como mananciais epistemológicos e, certamente, o valor inestimável da coletividade para o engajamento de todos no processo educativo, outrossim, deveriam fundamentar as ações educacionais. A considerar o trabalho colaborativo nesse processo, o famigerado e popular protagonismo que, “a priori”, pressupõe antagonistas e coadjuvantes, bem como o tal do “empoderado” caem por terra, uma vez que todos nós somos agentivos na produção de saberes, como afirma Paulo Freire. A rigor, ninguém tem poder sobre o outro, já que somos todos mananciais epistemológicos.

No terreno da saúde, a astuciosa alquimia insurgente se repete. São dietas ultramodernas, exercícios físicos que prometem trincar o abdômen em semanas, vitaminas e outros fármacos revolucionários que vão derreter a gordura do nosso corpo em 1 mês, assim como a eterna libido e as indesejadas rugas que somem em 7 dias, dentre outras juras de transformações a um passe de mágica. Alguns desses produtos de propriedades “inexplicáveis” até, absurdamente, apregoam a cura de moléstias crônicas, como o câncer e o Alzheimer. Certamente, atividades físicas regulares, uma dieta balanceada e um modo de viver mais leve são movimentos imprescindíveis para se ter uma vida mais saudável e longeva, como os estudos científicos preconizam. Ademais, é irrefutável a evolução científica concernente a elaboração de recursos medicinais para infinitas enfermidades, como as vacinas. No entanto, ressalta-se que o nosso corpo é consonantemente singular. Por mais que sigamos religiosamente a liturgia da cartilha da musculação, bem como dos medicamentos e cosméticos de última geração, a nossa singularidade ilumina que o nosso corpo vai reagir diferentemente em relação ao outro. No entanto, a nossa fragilidade humana cotejada com o fetiche de se ter do corpo ideal, alvitrado pelo marketing, sempre ele, relativo à beleza, à perpétua juventude e às infinitas noites tórridas de amor, muitas vezes, eclipsam a racionalidade. Consequentemente, a nossa pulsão dionísica nos convida a ceder aos sequiosos encantos do mundo das fadas onde todos são “belos, saudáveis, vigorosos e viris”.

No esteio financeiro, o blábláblá fetichizado se repete. Ouve-se que fulano começou a ser empreendedor, vendendo coxinhas em casa (modinha nova: seja um empreendedor!), ao iniciar o seu próprio negócio com apenas mil reais. À custa da situação financeira claudicante da grande maioria dos brasileiros, indubitavelmente, a alvissareira notícia, mais uma vez, seduz-nos, dado que “é possível se tornar milionário” trabalhando de casa. Novamente, as boas-novas se assentam numa perspectiva utilitarista como se todos os fenômenos que orbitam a nossa existência fossem exatamente os mesmos. É patente refletir criticamente sobre as inúmeras circunstâncias que fazem o “negócio milionário da coxinha ... ops ... da China” deslanchar a níveis estratosféricos, de fazer inveja à fortuna de Elon Musk e Jeff Bezos, dois dos empresários mais ricos do mundo.

Em razão ao exposto, a nossa singularidade joga luz às peculiaridades de que cada um de nós tem no que tange a um valor intrínseco, constituído pelas nossas experiências existenciais, talentos, atitudes, assim como características biológicas, emocionais e psicológicas únicas, dentre outras nuances inexoravelmente humanas. No mais, as engrenagens do tempo e do espaço, por serem irremediavelmente sempre mutáveis, também conferem singularidade ao campo sócio-histórico-cultural. Logo, a constante vigilância atinente aos discursos totalitários, ao idealismo, aos paradigmas tradicionais, à ciência positivista e às ilusionistas soluções e métodos para enfrentar os inevitáveis vilipêndios da vida é terminantemente central. Nesse sentido, para peitar as mazelas da vida por meio do nosso jeito sui generis, Clarice Lispector (1920-1977), escritora e jornalista brasileira nascida na Ucrânia, deixa a dica: “ depois que aprendi a pensar por mim mesma, nunca mais pensei igual aos outros”.

“ Membro titular da Academia Taubateana de Letras, Francisco Estefogo é pós-doutor em Linguística Aplicada pela PUC-SP e professor do programada de Linguística Aplicada da UNITAU. Ademais, é pós-doutorando em Filosofia da Linguagem pela PUC-SP e pela UNIFESP”

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

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