Opinião

O que o “Morango do amor” pode nos ensinar?

A perecível passagem do “O morango do amor”, para além de uma manifestação nacional utopicamente ingênua, poderia ser uma estratégia de sobrevivência, de resistência e de percepção do alheio.

Francisco Estefogo
18/08/25 às 18h00

O episódio popularmente conhecido como o “morango do amor”, cuja repercussão invariavelmente atravessou as redes sociais, os programas de televisão e as rodas de conversa em todo o país, é um exemplo emblemático de como determinados acontecimentos, ainda que triviais e ingênuos em sua origem, podem se tornar fenômenos de grande alcance quando encontram a potência viral da célere e frívola cultura digital, sempre ela. A cena simples se transforma em símbolo, meme, objeto de afeto coletivo, além, claro, de insumo mercadológico, pois a venda da enigmática e idílica fruta, numa nova reconfiguração açucarada, bombou nas confeitarias, gerando grande impacto econômico. Embora virtual, a potência de reverberação nacional do tal “morango do amor”, afora a combinação de nostalgia, experiência sensorial,  entretenimento e, sem dúvida, sensacionalismo, poderia ser igualmente canalizada para a construção coletiva de valores de resistência e emancipatórios, bases para o amor da reciprocidade, do zelo mútuo e da esperança. E se o “amor” que aparece no título da iguaria fosse, então, semelhantemente um chamado ético-político, a considerar uma perspectiva teórico-filosófica?

Nesse campo, Bell hooks (1952-2021), ativista antirracista estadunidense, em All About Love , discute o amor não como um mero sentimento romântico platônico, mas uma prática deliberada de cuidado, responsabilidade e compromisso com o crescimento mútuo. Segundo a autora, amar é um ato de resistência contra uma cultura marcada pelo individualismo,  pelo racismo estrutural, pelo preconceito, bem como pela mercantilização das relações, veementemente arraigada no horizonte hodierno. Nesse sentido, no avesso da propagação do ódio e do preconceito, tão onipresente na contemporaneidade, imaginar uma sociedade que reagisse ao amor com a mesma intensidade com que se expressa a acontecimentos midiáticos é vislumbrar um país que escolhe, consciente e propositalmente, cultivar relações mais éticas e solidárias, circunscritas na potência de agir.

Se o “morango do amor” mobilizou milhões por meio da estética, da emoção, da curiosidade e do humor e, certamente, da monetização, talvez seja possível prospectar vivências que nos mobilizem pela beleza e seus desdobramentos, por exemplo, da justiça social. Para tanto, é preciso conhecer mais profundamente do que se trata essa democratização do acesso. Nesse sentido, John Rawls (1921–2002), filósofo político norte-americano, na irretocável obra " Teoria da Justiça" , ao criticar tanto o utilitarismo como libertarismo, propõe que a estrutura básica da sociedade deveria oportunizar a justiça distributiva e respeito à dignidade individual. Como possibilidade para tal feito, Conceição Evaristo, linguista e escritora brasileira, ao cunhar o termo escrevivência, mostra que a experiência vivida e narrada por sujeitos historicamente marginalizados tem potencial transformador. Essa narrativa, se amplificada com a força que damos a uma ocorrência viral, como a do  ubíquo “morango do amor”, poderia inscrever no imaginário coletivo o respeito ao diverso e o compromisso com o outro como elementos de pertencimento nacional.

O que aprendemos com o “morango do amor” é, portanto, que o Brasil ainda pode compartilhar narrativas comuns, mesmo num sombrio tempo de polarizações e conflitos decorrentes das contendas, muitas vezes, oriundas de egos inflados. O desafio é deslocar esse potencial para demonstrações culturais que, além de divertir e emocionar, também emancipem e nos legitimem como humanos, no que diz respeito a esse sentimento tão nobre: o amor. Como destaca Lélia Gonzalez, “ não há neutralidade cultural”: ou reforçamos a lógica dominante, ou a subvertemos”. 

Se a paixão por um meme inocente pode se espalhar como fogo, por que não sonhar que o mesmo ocorra com o respeito, a empatia e a solidariedade, nos moldes da escrevivência, como apregoado por Evaristo? Indubitavelmente, não se trata de substituir o riso pela solenidade, tampouco o lúdico e a leveza pelos inerentes infortúnios da vida, mas de reconhecer que o humor e a suavidade podem semelhantemente serem veículos de conscientização em prol do bem comum. Ademais, o “morango do amor”  oportuniza uma lição sobre o próprio amor: ele se espalha quando encontra terreno fértil de afeto coletivo. Afora as ostentações, o fundamentalismo, o ódio, a mentira, dentre outras mazelas que assolam o nosso modus operandi hodierno, a intensidade de disseminação da ágil cultura digital poderia ser uma terra arada e fértil, onde o respeito pelo diferente e o altruísmo germinem com a mesma rapidez e entusiasmo com que, quase diariamente, compartilhamos os indefectíveis e, por vezes, cansativos, repetitivos e desnecessários vídeos e mensagens.

A perecível passagem do “O morango do amor”, para além de uma manifestação nacional utopicamente ingênua, poderia ser uma estratégia de sobrevivência, de resistência e de percepção do alheio. Como afirma Byung-Chul Han, filósofo contemporâneo sul coreano, “a alteridade não é uma diferença consumível. O capitalismo vai eliminando por toda parte a alteridade a fim de submeter tudo ao consumo” . Logo, mais que um simples meme viral, o “morango do amor” simboliza a possibilidade de uma ética e lógica digital que se fundamenta na alteridade e na comunhão, de modo a desenhar dimensões para o fomento de um novo modus vivendi onde a conexão entre nós não seja apenas técnica ou pragmática, ou ainda tenha meramente propósitos mercantis, mas que seja genuinamente permeada pelo amor humano que, não obstante ausente da nossa realidade material, pode transcender os efêmeros modismos e as rasas aparências virtuais. 

Francisco Estefogo é professor da Universidade de Taubaté (UNITAU) e membro titular da Academia Taubateana de Letras (ATL)

Francisco Estefogo
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