Discutir os avanços da tecnologia, talvez, seja redundante, visto que os frutos dessa revolução são sobejamente incontestes para o funcionamento da modernidade. Economizamos tempo, combustível, insumos, idas e vindas, bem como operacionalizações de inúmeras atividades do cotidiano. Frente ao advento dessa otimização, podemos nos conectar igualmente com qualquer pessoa em qualquer recanto do planeta, além de acessar instantaneamente informações por um mero e singelo clique, dentre outras benesses do progresso tecnológico, invólucro de ressonância planetária.
No entanto, ainda que a vida contemporânea hiperconectada seja um enorme passo para a evolução humana e, indubitavelmente, um dos pilares da civilização moderna, decerto, o mais emblemático desde a Revolução Industrial, arroubo de profundas transformações sociais, culturais e econômicas, perdemos a habilidade, a disponibilidade, o costume, e, às vezes, até a vontade de conversar. Certamente, não se trata de uma perspectiva ludita em relação aos saltos tecnológicos, mas o mundo virtual pode ser, ocasionalmente, gélido, impessoal, indiferente e arrefecedor, haja vista a contemporânea polaridade ideológica, a opacidade das informações, a superficialidade e a brevidade das relações, assim como o isolamento social capilarizado aqui e acolá.
Muito provavelmente, dada a correria do dia a dia, as indefectíveis e onipresentes mensagens digitais, além de serem práticas, fáceis e céleres, são muito mais adequadas e convenientes. Entre outros conteúdos, arquivos variados, links, fotos e vídeos são alguns dos elementos suplementares dessa enlouquecida e frenética dinâmica de ininterrupta ligação com outras pessoas que acomete os nossos celulares centenas de vezes num único dia. Para um lacônico cumprimento, ou envio de um documento, ou ainda um recado, um convite, um flerte, uma discussão de trabalho, talvez, essa prática hodierna seja mais oportuna. Contudo, para situações mais delicadas, íntimas e profundas, a boa, velha e saudosa conversa, repleta de nuances comunicativos, seja contingentemente mais condizente com as inexoráveis adversidades e vulnerabilidades de uma relação pessoal. É indispensável dizer que há pessoas que de fato conversam por meio das ferramentas digitais de comunicação. Awesome! Contudo, muitas idiossincrasias da linguagem, tais como, o olhar, o cheiro, o toque, o sorriso, as pausas, a respiração, a entonação, os gestos do corpo, dentre outros expedientes comunicativos tipicamente humanos, são centrais na construção dos sentidos e significados. Numerosas fulcrais peculiaridades que emolduram a compreensão podem se dissipar nos desabitados caminhos virtuais da comunicação. Consequentemente, as interpretações e as percepções transcorrem unilateralmente, pois a origem do entendimento se pauta, à primeira vista, somente na imediata relação com a mensagem. O céu é o limite para a apreensão - muitas vezes, equivocada - do que foi lido, visto ou ouvido. Ressalta-se que o movimento de interpretação ocorre com base em todo o nosso percurso sócio-histórico-cultural.
A hermenêutica, área da filosofia demarcada pela teoria científica da arte de interpretar, debruça-se na construção do entendimento que transcende as meras palavras e a aparência de um texto. Hans-Georg Gadamer (1900–2002), filósofo alemão, um dos estudiosos mais proeminentes da hermenêutica, afirma, na magnânima obra Verdade e Método, que o entendimento não se limita unicamente ao que se presencia, mas, sobretudo, espraia-se pela experiência ímpar de cada momento irrepetível e inédito, principalmente, em relação ao fenômeno da linguagem como vivência humana, desde a nossa mais tenra idade. A considerar que os trilhos virtuais da comunicação, a rigor, não veiculam todas as minúcias da linguagem, fundamentais para a construção mais plena de sentidos, além, claro, do código linguístico, essa seara filosófica nos oportuniza a reflexão acerca da maneira claudicante que, de algum modo, nos comunicamos, especialmente, por intermédio dos meios digitais.
Nietzche (1844-1900), filósofo e filólogo alemão, assevera que ser capaz de conversar por toda a vida oportuniza a aproximação e o conhecimento cada vez maior e mais profundo entre as pessoas. É paradoxal conceber a ideia de que as tecnologias permitem contato com qualquer pessoa no mundo, mas ao mesmo tempo, pode nos distanciar e, normalmente, acarretar relações rasas e breves. Muitas das amizades – vigentes - são aferidas pelo número de seguidores ou amigos virtuais (e os famigerados “likes”), pessoas que nunca encontramos ou vamos sequer ver.
Afora a nostálgica prosa, a tecnologia, de forma semelhante, pode nos apartar da elegância. Ser elegante não está relacionado apenas ao espectro das vestimentas e das indumentárias, mas, singularmente, pela nossa forma de ser e agir com o outro. Embora as mensagens digitais sejam ágeis e muito úteis, como já aludido acima, a depender da contingência, em particular, do grau da relação, da intimidade e da ocasião, a proposta de uma conversa, porventura, mesmo que seja ao telefone, pode ser mais elucidadora, acalorada, significativa, retificadora, e claro, mais elegante. O diálogo síncrono (de preferência presencial), como um rebento de resistência em prol do relacionamento humano, pode nos poupar de mal-entendidos, de conjecturas embaraçosas, de interpretações unilaterais e, por conseguinte, validar e revigorar as inefáveis e indispensáveis relações pessoais. Cícero (106-43 a.C.), filósofo romano, nos ensina que “o prazer dos banquetes não está na abundância dos pratos, mas sim na reunião dos amigos e na conversação”.
