Opinião

O suicídio como forma de comunicação

Aspectos humanos como empatia, solidariedade, afetividade cada vez mais estão dando lugar a emotions, likes e reposts

Julio Ribeiro*
15/06/19 às 14h52

Com o avanço da tecnologia (smartphones com reconhecimento de retina, comunicação em tempo real por fibra ótica, viagens intercontinentais cada vez mais rápidas) era de esperar que o avanço nas relações humanas acompanhasse o mesmo ritmo em prol de uma sociedade mais coesa e fortemente entrelaçada.

Todavia, aspectos humanos como empatia, solidariedade, afetividade cada vez mais estão dando lugar a emotions , likes , reposts caracterizando em suma uma geração que nasceu e vive conectada a um mundo virtualmente paralelo e extremamente dinâmico - tão dinâmico que muitas vezes não permite o existir do próprio Eu de fato.

Posicionar-se nesse mundo, seja através de um perfil com tantos milhares de seguidores/views ou um personagem que é o que tem mais kills (mortes) num jogo de tiro passou do atrativo para o quase necessário.

Em busca desse Eu virtual, o viver presencial tornou-se secundário e, não obstante, difícil de ser assimilado em suas mais variadas nuances: ouvir, se expressar, lidar com o contraditório, dentre outros. Algo que, não raramente, ocasiona sérios entraves nas inter-relações pessoais.
O não dito que é sentido muitas vezes se manifesta como não gostaríamos.

Através de comportamentos autolesivos (automutilação), drogadição, mudanças de humor e até mesmo no suicídio, temos, em essência, atos comunicativos que não o conseguiram ser feitos de outra maneira - seja por falhas do emissor ou do receptor.

Invariavelmente, estar atento a sinais, mudanças cognitivas, emocionais e comportamentais é uma forma de “ouvirmos” a dor do outro e prontificarmos a dar a ela um sentido, um significado capaz de facilitar o diálogo e, provavelmente, clarificar o não dito possibilitando a compreensão seguida de ajuda.

Encarar o suicídio como fenômeno multifatorial é um desafio da contemporaneidade. Sair do nosso mundinho e ouvir ao redor, contemplando relações presenciais de forma saudável e empática talvez seja (de fato), o grande avanço para as futuras gerações.

(Foto: Arquivo pessoal)

 

*Julio Cesar Santos Ribeiro é psicólogo clínico na Psicovita - Clínica de Psicologia (Penápolis) , docente de psicologia e coordenador do CVV - Penápolis.

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