À primeira vista, ao revisitarmos nossas vivências pretéritas recentes, particularmente, do período que se findou, tendemos a prospectar que o descortinar de um novo horizonte pode ser o cenário de travessias substancialmente mais práticas, confortáveis, prazerosas, prósperas e funcionais quando comparadas ao que se passou. Esse sentimento é intensificado, sobretudo, no contexto da virada do ano, quando a retórica do recomeço e da renovação se impõe como narrativa dominante, sugerindo que o simples acúmulo – ou drásticas mudanças - de (mais) recursos, projetos, inovações e promessas podem ser suficientes para produzir mais leveza, bem-estar, prazer e, assim, algum sentido à nossa existência. Do ponto de vista prático, qualificação profissional, relações e laços afetivos, finanças e saúde são os campos da vida que mais acolhem tais resoluções, como simulacros de absoluto controle diante das inexoráveis incertezas constitutivas da trajetória humana. Normalmente, essa onda emocional é inflamada no mundo contemporâneo, majoritariamente marcado por uma profusão de comodidades, dispositivos técnicos e oportunidades continuamente anunciadas que, muitas vezes, são “vendidas” com grande facilidade. Entretanto, essa percepção inicial, embora sedutora, merece ser tensionada, uma vez que podemos confundir praticidade instrumental com qualidade das experiências vivida às voltas do frenesi ritualizado do término do ano, fenômeno que tende a obscurecer as contradições afetivas, éticas e existenciais que atravessam o cotidiano na contemporaneidade, independentemente do tempo socialmente instituído.
No que tange à hipertrofia do conforto ferramental da atualidade, em particular, o que vivemos hoje distingue-se do passado pela expansão significativa do infindável leque de variedades, da velocidade, do acesso e da interconectividade sobejamente capilarizada. Em tempos não tão remotos, por exemplo, os deslocamentos eram lentos, a comunicação dependia da espera, o conhecimento estava restrito a espaços institucionais e os serviços financeiros exigiam morosas mediações burocráticas presenciais. Hoje o transporte encurta distâncias e a tecnologia permite a comunicação instantânea de qualquer canto do planeta, em todo instante. Ademais, a educação ultrapassa fronteiras físicas e o sistema financeiro opera de forma digital, célere e imediata. Essas conveniências tornaram o cotidiano, a rigor, mais operante e, por conseguinte, ampliaram possibilidades de escolha, aprendizagem e mobilidade. Contudo, tal avanço não se limita ao conforto material, pois a nossa relação com o tempo, o espaço e o outro foi amplamente redefinida. O nosso modus vivendi é marcado pela aceleração contínua e pela necessidade constante de refletir criticamente sobre como essas conquistas são incorporadas ao percurso humano. Indubitavelmente, planejar projeta panoramas desejáveis, mas não substitui o trabalho lento e cotidiano de reelaboração do sentido da nossa dimensão existencial, que não deveria ser capturada por cronogramas nem por marcos cronológicos instituídos, tampouco por ritualizações do tempo social. Sobreleva ressaltar que o calendário vigente resulta de arranjos históricos e interesses institucionais, tais como religiosos, econômicos e administrativos, que organizaram o tempo social muito mais por necessidades de controle, poder e ordenação do que por correspondência com os ritmos de ser-no-mundo.
Embora os discursos prospectivos possam suscitar realizações mais abastadas e “plenas”, por vezes, obscurecem as condições históricas, afetivas e sociais que limitam a experiência humana, mesmo em contextos de abundância material. Consequentemente, muitas vezes, podemos sentir a nossa potência em estágio letárgico, ainda que haja tantos recursos e projeções que, a priori , parecem vislumbrar uma vida mais confortável. É nesse hiato entre as expectativas da retórica do ano novo, concernentes às convidativas praticidades de viver e às plausíveis e onipresentes dificuldades de existir que emerge a urgência de refletirmos sobre como lidamos com o vazio, a frustração e a instabilidade que não se resolvem pela simples ampliação dos meios ou pelas efêmeras e rasas promessas de réveillon.
Nesse esteio, Santo Agostinho (354 – 430 d.C.), um dos mais importantes teólogos e filósofos nos primeiros séculos do cristianismo, na magnânima obra Confissões , desloca a potência de agir para o espaço interior de cada um de nós, inaugurando a interioridade como lugar central de encontro conosco mesmos. Ao afirmar que a verdade habita no interior do ser humano (in interiore homine habitat veritas) , para longe dos infinitos e tentadores estímulos externos, como o cenário mundial atualmente se configura, Agostinho propõe que a recomposição da potência de existir pode ocorrer pelo recolhimento reflexivo, pela escuta de si, tal e qual por meio da travessia da própria memória, afetividade e consciência.
Nessa tensão introspectiva, podemos reencontrar a possibilidade de resistir à dispersão do tempo e à fragmentação imposta pelas forças que o excedem. Trata-se, na verdade, de uma viagem ao nosso interior infinito, mais profundo do que a sedutora e superficial exterioridade, onde a alma percorre um movimento duplo de primeiro descer a si para, depois, ascender ao renovado sentido do existir. Longe de ser uma covardia e fuga, essa interioridade é território ético, onde se confrontam enganos, afetos desordenados, avanços, faltas e responsabilidades.
Mais particularmente, em Agostinho, o espaço interior é um templo epistemológico e espiritual. Nele se encontra a memória, com a vastidão de imagens, sentimentos, desejos, bem como os rastros dos atos com, em tese, resultados adversos. A verdade não se busca fora, mas na purificação desse espaço. A interioridade é, destarte, o cenário de um drama: de um lado, está a vontade dividida; de outro, a possibilidade de um retorno. No que diz respeito ao aspecto temporal, Agostinho afirma que o tempo não está fora, mas dentro de nós. O passado existe como memória, o futuro como expectativa e o presente como atenção, ou seja, uma tríplice dimensão psicológica. Nesse compasso, a vida de fato não acontece em uma linha contínua e linear, como o tempo cronológico que mede os anos, com início e fim a cada 365 dias. Mais que isso, trata-se de um hercúleo contínuo esforço de lembrar, refletir, conscientizar-se e ponderar, para, então, fazer novas escolhas.
Em paralelo aos pressupostos agostinianos, atinente à interioridade, Conceição Evaristo, linguista e escritora brasileira, concebe o conceito escrevivência como um gesto igualmente radical de retorno ao interior. Ainda que seja mediada pela história do povo negro, pela escravidão, pobreza, exclusão, violência, ausência de Estado e as cicatrizes da diáspora, a viagem à interioridade de Evaristo, de forma escrita, diz respeito ao vivido e aos agravos sofridos como marcas do corpo negro na sociedade brasileira.
Em Evaristo, o interior não é espaço privado como o agostiniano, mas arquivo vivo da prática social coletiva, onde o “eu” é sempre imbuído pelo “nós”. A escrevivência é a escritura do que se viveu, sobretudo do que foi vivido, por exemplo “pela minha mãe, por minha avó, pelas minhas mais velhas”, como assevera a autora. O interior torna-se um território-memória, onde as sequelas são também fontes de linguagem e potências de transformação.
Se Agostinho busca depurar a alma por meio da reflexão interior, Evaristo reivindica inscrever a alma negra, ao resgatar o que foi historicamente silenciado. Dessa forma, a escrevivência opera com um tempo semelhante, já que não é linear, mas entrelaçado. Ao narrar a vida, Evaristo convoca o passado ancestral, o presente violento e o futuro desejado. É uma temporalidade insurgente, como uma ruptura com o tempo colonial, que tentou inscrever o corpo negro apenas como passado de servidão. A escrita torna-se uma forma de torcer o tempo, de revisitar sofrimentos sem se aprisionar a eles, além de projetar potencialidades onde antes havia fatalidade.
O espaço interior agostiniano e a escrevivência evaristiana, apesar de distantes em contexto e configurações, convergem em um ponto decisivo quando o ser humano potencializa seu modo de existir ao voltar para si, reelaborar seu trajeto pela reflexão e/ou a reconfigurar por intermédio da linguagem. Desse jeito, ambos revelam que a interioridade não é um mero depósito de lembranças, mas um campo de lutas, conflitos, conquistas, ponderações, reconfigurações e reinvenções. Portanto, ambos reconhecem a interioridade como palco onde a vida pode ser (re)elaborada, ao conceberem a memória como estrutura do viver. Logo, a narrativa de si é, ao mesmo tempo, cura, busca, reconhecimento e mudança.
No mais, a temporalidade interior agostiniana e a temporalidade da escrevivência convergem na ideia de que o tempo é uma elaboração consciente, e que refletir sobre ou contar a própria história é, também, criar um outro tempo possível, para longe das convenções temporais sociais, como as datas comemorativas, geralmente engendradas com finalidades estritamente mercadológicas. Ambos os pensadores buscam, porém, uma reconciliação no tocante ao movimento como o vivido, mesmo permeado por sombras e mazelas, não destrua a potência do viver.
Sob essa lógica, para além da multiplicidade das funcionalidades modernas e das ilusões das cisões temporais, não raro, materializadas como reles falácias, apreende-se que o interior é o lugar onde o sentido da existência pode ser reencontrado. Às vezes, pode já não haver muito tempo, mas nunca é tarde demais para, aí sim, reinventar uma nova maneira de estar no mundo, à revelia do calendário.
