Opinião

Por que (não) aprendemos?

Apreende-se desta reflexão que as práticas educativas, por exemplo, deveriam fomentar situações exponenciadoras de catarses.

Francisco Estefogo
23/07/21 às 18h00

Por termos as nossas idiossincrasias como seres humanos, o processo de aprendizagem também se desenvolve numa seara marcada pelas nossas diferenças, nossas ideologias, nossas vontades e desejos. Considerando a nossa singularidade, ninguém aprende da mesma forma. Portanto, situações de aprendizagem que relegam essa premissa emocional, inexoravelmente humana, simplesmente flertam com discussões estéreis e letárgicas. Indubitavelmente, há diversas maneiras e óticas de se explicar e refletir sobre o porquê aprendemos (ou não).

Contudo, à custa do advento das incensadas ferramentas tecnológicas da informação e comunicação, bem como das reincidentes ofertas para cursos miraculosos que se propagam de forma congênita, é premente a ponderação sobre essas propostas convidativas. Dentre elas, pululam aulas on-line, sobretudo devido à pandemia, além de aplicativos e plataformas vanguardistas e materiais didáticos diversos, professores e escolas altamente qualificados, para citar apenas alguns dos recursos alvissareiros disponíveis, em especial, na internet. Além dos expedientes ultramodernos para o desenvolvimento do processo de aprendizagem, é fundamental entender essa dinâmica pelo prisma da emoção.

Concernente aos aspectos que subjazem a centralidade das irremissíveis montas emocionais para se aprender algo, Vygotsky (1896-1934), advogado e psicólogo russo, enfatizou a relação entre as emoções e a cognição. Inebriado pelas proposições filosóficas de Aristóteles (384-322 a.C.), o pesquisador, proponente da psicologia sociocultural histórica, destaca a reação estética emergida da percepção sensorial, a partir do sentimento, da inventividade e da imaginação subjetiva, como um movimento de catarse.

Em outras palavras, não são as reações químicas, pantomímicas e secretórias do nosso organismo que expressam as nossas emoções, mas a fantasia e a criatividade, inerente a todo ser humano, decorrentes dos objetos e das ações suscetíveis ao mundo sensível. O que vemos, sentimos, cheiramos, tocamos, ouvimos, dentre outros possíveis sentidos, reverbera no nosso corpo e, claro, na nossa mente. Dessa forma, os aspectos emocionais se fundam na imaginação por meio de representações, ações, imagens e enunciados, com características, a título de exemplo, surreais, chamativas, divergentes e provocativas, advindas das vivências concretas, na nossa relação com o mundo.

É nessa relação dialética com o meio, na perspectiva vygotskiana, que as funções psicológicas superiores se estruturam e se relacionam com o processo de aprendizagem. Em suma, o pensamento vygotskiano entende o aprendizado como uma explosão de lampejos fantasiosos, criativos e imaginativos, depurados e ressoados numa atividade catártica.  Em “Purificação das almas”, Aristóteles retratou o conceito de catarse na sua magnânima obra “Arte Poética”. Diz respeito à grande descarga de sentimentos e de emoções oriundas de um enfretamento com um momento dramático. De acordo com o filósofo grego, os envolvidos se sentem, quando tocados, parte do drama exposto.

O movimento catártico libera a tensão emocional, proporcionando sentimentos de alívio, renovação, leveza, depuração e purificação. Essa concepção aristotélica, em relação à catarse, legitima a razão pela qual normalmente nos lembramos bem de episódios emblemáticos, tais como, o primeiro beijo, a estreia numa viagem de avião, os inaugurais dias no âmbito escolar, no meio de tantas outras experiências incríveis e únicas (contando as negativas, certamente) ocorridas na nossa ímpar jornada de vida.

Apreende-se desta reflexão que as práticas educativas, por exemplo, deveriam fomentar situações exponenciadoras de catarses. Aulas (ou videoaulas), nas quais os conteúdos são meramente despejados na cabeça dos alunos, o que o filósofo e educador brasileiro Paulo Freire (1921-1997) denominaria como educação bancária, seguramente se distanciam de deleites catárticos. É possível afirmar que se trata de reles, cansativos e infindáveis sermões que, nos impondo circunstâncias enfadonhas, não estimulam a nossa fantasia, tampouco a nossa criatividade. Na verdade, minam a nossa imaginação.

À sombra desse tipo de aulas, a liturgia prevê apenas arremedos, sem alçar voos mais altos na direção da extraordinária capacidade humana de aprender, combustão imprescindível para se desfrutar de uma vida aventureira, repleta de novas descobertas e transformações.

Pós-doutor em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela PUC-SP. Diretor acadêmico da Cultura Inglesa Taubaté e professor do Programa de Mestrado em Linguística Aplicada da UNITAU. Pesquisador do programa DIGITMED Hiperconectando Brasil, da PUC-SP, líder do GEPLE (Grupo de Estudos e Pesquisas em Linguagens Emancipatórias), vinculado à UNITAU e graduando em Filosofia pela Faculdade Dehoniana.  ulado à UNITAU e graduando em Filosofia pela Faculdade Dehoniana. 

Esse texto é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

Francisco Estefogo
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