É contraditório traçar um paralelo entre o avanço do desenvolvimento científico e tecnológico, principalmente a datar da Revolução Industrial, ocorrida na Inglaterra em meados segunda metade do século XVIII, e o comportamento contemporâneo humano no que diz respeito à violência generalizada.
Misoginia, transfobia, homofobia, desigualdade social e racial, urbanização, políticas armamentistas, crime organizado dentre outras são as principais razões que vicejam atos hediondos. Certamente, a humanidade é violenta desde os primórdios, pois há relatos históricos da antiguidade que legitimam, infelizmente, essa idiossincrasia humana. Para citar apenas alguns, os motivos eram os mais variados: direitos humanos, relações de poder, diferentes ideologias políticas e religiosas, conquistas territoriais. Nada muito diferente do que ocorre no século XXI.
É intrigante, porém, pensar que, a despeito da evolução dos conhecimentos e dos progressos humanos, os índices de violência não arrefecem. Pelo contrário, recrudescem. Essa maldade congênita, que propala as agruras da crueldade humana, nos faz refletir até que ponto a barbárie do homo sapiens pode chegar. Segundo a Small Arms Survey, referência mundial acerca da violência armada, o Brasil alcançou o maior número de mortes violentas do mundo em 2020. Como 12% do total de registros em todo o planeta, foram 70,2 mil casos de morte. Esses indícios superam a violência na Índia, Síria, Nigéria e Venezuela.
Para conceptualizar o fenômeno da violência, Hannah Arendt (1906 - 1975), no livro intitulado Eichmann em Jerusalém, elabora o conceito a “banalidade do mal”. Mais particularmente, centra-se na mediocridade da falta do pensamento, mas não exatamente na vontade, no desejo ou na inerente premeditação humana de fazer o mal, como se poderia ingenuamente se pensar.
Tratados como meros instrumentos de sistemas despóticos, o que nos priva da capacidade de pensar e nos diferencia dos animais, tornamo-nos violentos. Nesse sentido, a maldade humana não é uma característica intrínseca, mas sim fruto das escolhas de situações contingenciais postas no meio social e político. Para Arendt, a resistência é uma alternativa que pode afagar a maldade hodierna.
Nessa mesma linha, Jean-Paul Sartre (1905 – 1980), filósofo existencialista, discute a alienação e a opressão como elementos que privam a liberdade da própria existência. Consequentemente, a violência é uma alternativa legítima, ou uma escolha, como apregoa o pensamento arendtiano, que rompe com a negação de o indivíduo ser visto, considerado e respeitado.
A partir dessas elucubrações filosóficas, o que se desenha num horizonte de paz está na reflexão sobre as forças autoritárias, absolutistas e opressoras que, dentre outros augúrios ditatoriais, restringem a liberdade de expressão e silenciam vozes. É lícito afirmar a importância da transgressão dos discursos totalitários e reguladores que vilipendiam a multidiversidade inerente a qualquer grupo social.
Apesar de ser notório o tom utópico, independentemente da nossa orientação sexual, gênero, etnia, faixa etária, condição social e nacionalidade, dentre outras peculiaridades que nos constituem como seres humanos, agir e resistir para ser considerado(a) com um(a) cidadão(ã) agentivo(a) na sociedade é central. Resistir poderá suscitar uma possibilidade de ser livre e ser visto(a), favorecendo, dessa forma, a dignidade humana sem a dominação que arregimenta padrões de comportamento. Assim, as tentações das amarras da avassaladora florescente maldade poderão ser evitadas. Se essa desgraceira está em vertiginosa ascensão, é patente a reflexão acerca do tipo de cenário que estamos vivendo.
