O cenário global contemporâneo, de alguma forma, alude aos prenúncios das trombetas apocalípticas. Retóricas sombrias e os altos índices de violência são rotineiros, principalmente, no que se refere aos homicídios e suicídios. Há ainda a pobreza e a miséria exacerbada. Ademais, a narrativas silenciadoras e opressoras, a ameaça da paz mundial, as florestas devastadas, bem como as democracias claudicantes, dentre outras ocorrências desesperadoras, complementam o caminho para o armagedom. Apreende-se, então, que o planeta parece respirar por aparelhos. O contexto hodierno sugere que desfibriladores estejam disponíveis caso o panorama mundial seja acometido por palpitações ainda mais irregulares e terminais.
Dada essa contingência plúmbea, é difícil desenhar no horizonte circunstâncias de esperança e de alvissareiras perspectivas de projetos de vida. Mais particularmente, marcada por alarmantes crises financeiras, sociais, econômicas e políticas, além da tragédia da pandemia da COVID-19, que já vitimou quase 7 milhões de vidas, e da guerra da Ucrânia, com baixas de aproximadamente 300 mil pessoas, a hodiernidade está permeada, em boa parte, por sentimentos de tristeza, desesperança e inércia. Consequentemente, a desconfiança e a incredulidade inundam a nossa a maneira de ver o mundo, as pessoas e, em alguns casos, nós mesmos. Destarte, muitas vezes, nos tornamos passivos e lacônicos, confiando apenas no vago e prosaico “tudo vai dar certo”. Indubitavelmente, essa “vibe” ajuda, mas não é suficiente para mudar.
Mas, afinal, o que é ter esperança? Do latim “spes”, o termo significa confiar em algo positivo. Embora seja um fenômeno emocional, a esperança também se relaciona, principalmente, com as nossas ações no mundo, ou seja, com os nossos modos de vida. Nesse sentido, Jorge Luiz Borges (1899-1986), grande escritor e poeta argentino, afirma que “o futuro nunca se anima a ser de todo presente sem antes ensaiar, e esse ensaio é a esperança”. À vista disso, a proposição de Borges ratifica que, por mais que a conjuntura seja lívida, como a que enfrentamos neste começo conturbado do século XXI, é preciso prospectar um porvir mais auspicioso a partir da ação, da experimentação e do risco. Esse é o desafio. Talvez esse seja um dos componentes da essência humana e a resposta para a famigerada pergunta: “por que estamos aqui?”
Espinosa (1632-1677), filósofo holandês, concebe a premissa que todos nós somos moradias de uma potência de agir, inerente à vida humana. A alegria acentua essa energia e, assim, nutre e descortina o amor; já a tristeza, por sua vez, a debilita e torna o nosso viço anêmico. Dessa forma, o amor espinosiano é o da potência, da presença e do mundo real, aquele que nos embriaga com alegria. Portanto, à luz do pensamento de Espinosa, podemos ser surpreendentemente capazes de encontrar alguma alegria, mesmo em situações críticas e ameaçadoras. Para tanto, temos que nos embevecer com mais tempo livre, por exemplo, com mais momentos de descontração, além do contato presencial com amigos e familiares queridos, interação com a natureza e os animais, autonomia, bem como com a busca por um objetivo de vida capaz de manter o encantamento pela vida. Envidar esses episódios que, a rigor, suscitam alegria, é um ato de resistência em prol de um mundo mais promissor.
Nessa toada da importância da atividade humana, Paulo Freire (1921-1997), educador e filósofo brasileiro, nos ensina que “é preciso ter esperança. Mas tem de ser esperança do verbo esperançar. Porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. Esperança do verbo esperar não é esperança, é espera. “Ah, eu espero que melhore, que funcione, que resolva”. Já esperançar é ir atrás, é se juntar, é não desistir. É ser capaz de recusar aquilo que apodrece a nossa capacidade de integridade e a nossa fé ativa nas obras. Esperança é a capacidade de olhar e reagir àquilo que parece não ter saída. Por isso, é muito diferente de esperar; temos mesmo é de esperançar”. Essa capacidade humana de agir oportuniza um novo (re)começo, entremeado pela esperança e a fé.
Hannah Arendt (1906-1975), filósofa política alemã, na obra Condição humana (1958) discorre, por uma perspectiva antropológica, histórica e filosófica, sobre a existência humana na sociedade. Nessa publicação, a pensadora judia propõe o conceito de natalidade que diz respeito à nossa capacidade inata de agir. Grosso modo, trata-se da possibilidade de realizar o improvável e o inesperado. Arendt corrobora essa asserção ao afirmar que “os homens, embora devam morrer, não nascem para morrer, mas sim para começar algo de novo”.
No avesso da desesperança, atividades de fraternidade, afeto, crença, alegria e fidúcia precisam ser fomentadas que modo que sobreponhamos as cenas taciturnas da ambiência dos dias atuais. Desse modo, a nossa potência de agir, movida pelo amor, poderá se posicionar como uma força intencional que legitime o nosso papel e fundamento humano para além da articulação entre o mundo desbotado e os nossos sentidos, às vezes, astutos. Almeja-se, dessa maneira, princípios e justificativas que ter esperança é da nossa natureza. Tales de Mileto (624-558 a.C.), filósofo, matemático e astrônomo grego, nos encoraja a esperançar com a seguinte reflexão: “esperança é o único bem comum a todos os homens; mesmo aqueles que nada mais têm ainda a possuem”.
