*Manu Zambon é jornalista do Hojemais Araçatuba , cobre a área cultural em Araçatuba e região e não tem vergonha de chorar em filmes.
Já pararam para pensar o que faz um filme ter impacto na vida de alguém? Assim como todas as expressões artísticas, a sétima arte pode trazer, além daqueles minutos de entretenimento e muita oxigenação cerebral, mensagens poderosas e emocionar.
Quando combinamos essas características a nossas experiências pessoais e momentos, temos aí um filme que “conversa” com a gente. E o turco “Milagre na Cela 7”, um dos atuais destaques e lançamentos da Netflix, não só “conversa”, como nos pega pelas mãos e nos leva a percorrer sentimentos tão necessários hoje, em época de distanciamento social, e sempre.
Vale destacar que o filme é um remake do longa-metragem homônimo, produzido originalmente na Coreia do Sul, em 2013. A versão turca é assinada pelo diretor Mehmet Ada Oztekin, que nunca tinha ouvido falar, confesso.
Cheguei até a obra acidentalmente, num dia de insônia, depois de ter visto comentários de quem assistiu, dizendo que fazia chorar, ou “desidratar”, reforçando o cunho sentimental da história. Tudo bem que não é uma tarefa muito complexa fazer alguém chorar em filmes, basta incluir ingredientes que são verdadeiros gatilhos, e pronto.
Aqui, aproveito para dizer que sou uma curiosa da arte e embora a função de jornalista que cobre cultura me permite ter uma proximidade com a área, não sou uma especialista. Portanto, não entrarei nos méritos críticos ou problematizarei o fato da obra ter um ator sem deficiência interpretando uma pessoa com problemas neurológicos.
Então, por que falar desse filme? Pela necessidade de destacar as reflexões que podem fazer a gente ser melhor a cada dia. Quais questões? Relacionamentos, principalmente o familiar, a empatia, o amor, a fé, a humildade, a amizade e, sobretudo, a justiça.
No filme, a trama gira em torno da injustiça que recai sobre Memo (Aras Bulut Iynemli), que possui problemas mentais e é pai da Ova (Nisa Sofiya Aksongur). Logo de imediato você se encanta com a força dessa dupla, a forma simples e ingênua como essa relação é conduzida. Memo vai parar na prisão, onde acaba convivendo com diferentes tipos de condenados.
As lições vêm de todas as partes e são válidas até diante dos elementos clichês, apontados pela crítica especializada aos montes. No entanto, quando esses mesmos elementos são transportados para nossa vida, podemos ficar diante das nossas falhas, aquelas que escondemos debaixo do tapete.
Portanto, não utilizo essa reflexão para pensarmos nos outros, em quantas injustiças reais vemos nos noticiários diariamente, por exemplo. Convido o leitor que teve paciência de ler até aqui, olhar para dentro, se perguntar como tem amado o próximo, se suas atitudes são justas, se está valorizando suas relações sem interesses.
Como fã de dramas chorosos, já adianto que por 40 minutos, mais precisamente os últimos do filme, não dava para controlar as lágrimas. Na hora, não pensei sobre o motivo da emoção (minha e dos outros que tinham assistido), se era pela história ou algo a mais. Mas admito que ver o drama da criança, prestes a perder o pai, me trouxe lembranças como a perda da minha mãe.
Assim, vejo que é impossível responder a pergunta do título, porque a arte tem o poder de entrar sorrateiramente pelos nossos sentidos, colocar as dores em um barquinho e fazê-lo deslizar pelos olhos, para que assim se consiga ver o invisível e os invisíveis. Assista e encontre a sua resposta.