Opinião

Por que  (não) evoluímos?

Em razão da sua formação, o Universo está em franca expansão desde os primórdios.

Francisco Estefogo
29/04/21 às 08h00

Em razão da sua formação, o Universo está em franca expansão desde os primórdios. Os planetas e suas geografias, bem como os seres vivos estão também numa constante evolução regida pelas leis da natureza. No entanto, para que o pensamento humano evolua é imperativo que intervenções conscientes ocorram uma vez que somos racionais.

À conta da multiculturalidade e multidiversidade do mundo contemporâneo, permeado pelo onipresente discurso do ódio, especialmente nas redes sociais, pela repressão e pelo exacerbado binarismo, urge que se discutam novas possibilidades de pensar, ser e agir com o intento de robustecer a nossa forma de viver para evoluirmos. Para Espinosa (1632-1677), filósofo holandês, a luta para resistir na árdua odisseia humana, sobretudo nos dias de hoje, constitui o nosso conatus; a resistência desponta da potência e da essência humana.

Os pressupostos filosóficos espinosianos focam, dentre outros aspectos, na perseverança da existência que resiste ao fim, ao padecimento, ao silenciamento, à colonização, à destruição, à servidão, à opressão, à asfixia, ao medo, à tristeza e ao aniquilamento. Para esse filósofo, existir é resistir; se não há resistência, desidratamos e perecemos. A vida é eminentemente um direito inalienável.

É nessa potência afetiva que esta provocação filosófica se esmera como ferramenta transgressora de discursos opressores que asfixiam a evolução do pensamento. Em particular, em meio à era da polarização do temperamento explosivo e verborrágico, atravessada por manifestações retóricas opressivas, ampliar as múltiplas maneiras de ser e agir no mundo, para anabolizar o nosso conatus e, assim, evoluirmos, é central. No campo das vigentes narrativas enviesadas e arbitrárias, a linguagem, inerente a todos os seres humanos que vivem numa sociedade, é um dos artefatos culturais, senão o mais importante, potencializador do nosso conatus.

Nessa mesma linha, para Michel Foucault (1926-1984), um dos filósofos mais proeminentes do século XX, que se engajou na luta contra a opressão penitenciária na França, a linguagem é um tema essencial para se entender a relação do ser humano com o mundo. Em síntese, Foucault afirma que linguagem é poder.  Guarnecido pelas idiossincrasias da linguagem (a tempo, que questiona, que contesta, que problematiza, mas não a que meramente reproduz, copia, ou transmite), o ser humano desenvolve o pensamento crítico e, por conseguinte, possibilita a construção de novos saberes e, naturalmente, da evolução. Portanto, nestes tempos obscuros e intranquilos em que vivemos, sob o resistente escudo da linguagem, inocular o caminho do desenvolvimento e da evolução é fulcral para re-existir e combater a autofagia social.

A materialização dessa força de resistência é oportunizada singularmente por uma das facetas da linguagem, ou seja, a argumentação. Mais particularmente, o desenvolvimento da capacidade de argumentar provê forças de resistência e revolucionárias no que diz respeito aos arquétipos da transformação e da ressignificação da história, da realidade e, dessa forma, da evolução. É sabido que os grupos minoritários e vulneráveis, maculados e reprimidos pelo preconceito, pela desigualdade social e pela reclusão, pouco dispõem desse recurso linguístico para fomentarem novas possibilidades de ações no mundo, portanto, ser partícipes do processo evolucionário.

Desprovido desse expediente linguístico, dentre outros arroubos que nos permite viver, o ser humano é um mero reprodutor ou conhecedor dos fatos. Não evolui. Não evoluímos se apenas reproduzimos o que já existe, mantendo o status quo. Evoluímos se, a partir de posicionamentos críticos, principalmente decorrentes da argumentação que diverge dos posicionamentos alheios, possibilitamos novas formas de pensar e, consequentemente, a construção de novos saberes. A gênese da evolução está na diferença de opiniões. Prisioneiro da inércia típica de um ventríloquo, o pensamento não evoluído repele contestações e se exime dos questionamentos. Apenas imita.

Por outro lado, o evoluído, em refutação às conveniências pragmáticas, não se encapsula na epiderme dos que proferem discursos manipuladores, alienantes e tão somente transmissores de “verdades absolutas”. Argumenta e, destarte, desenha no horizonte um alvorecer de novos saberes evolutivos.

Pós-doutor em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela PUC-SP. Diretor acadêmico da Cultura Inglesa Taubaté e professor do Programa de Mestrado em Linguística Aplicada da UNITAU. Pesquisador do programa DIGITMED Hiperconectando Brasil, da PUC-SP, líder do GEPLE (Grupo de Estudos e Pesquisas em Linguagens Emancipatórias), vinculado à UNITAU e graduando em Filosofia pela Faculdade Dehoniana. 

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