Imperativa, a frase "vamos aos fatos" é uma tentativa de o interlocutor encurtar a discussão manipulando a informação, para confirmar a sua opinião. O interessante é que, em geral, quem assim o faz nega a intenção recorrendo à afirmação de que o factual é verdade absoluta. Pois não é! Dados crus têm pouca ou nenhuma serventia. Fato necessita ser entendido e interpretado, como argumenta justamente quem não admite isso.
O ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, por exemplo, criticou a imprensa pela divulgação do fracasso na primeira tentativa de compra de seringas e agulhas, por conta da sua pasta, dizendo que "não queremos tendência ideológica ou de bandeiras, eu quero assistir TV e ver a notícia do fato (...) Não queremos a interpretação dos fatos dos senhores". Se esquece o general e qualquer alta patente que corrobore este pensamento que interpretar é o mesmo que explicar. Trata-se do ato de perceber ou atribuir o sentido a algo.
Há de se compreender a razão de o questionado, pressionado e acuado ex-ministro não desejar a interpretação do resultado da licitação. Os resultados da gestão da pandemia no Brasil deixam isto claro. Fato?
No caso dos atuais embates ideológicos e partidários, por regra, o debatedor se atém a informações numéricas, manchetes, títulos ou textos quase sempre descritivos e superficiais que chancelam o seu posicionamento. Mas é o conjunto dos dados dispostos nas entrelinhas, as informações adjacentes, secundárias, anteriores, posteriores, confrontadas com outras fontes, analisadas, portanto, que ajudam a compor o panorama da situação considerada.
Pergunte a qualquer executivo de empresa de pesquisa de que adiantam as quantidades de dados tabulados, índices e gráficos se não forem detalhados, elucidados e explicados mediante interpretação.
O básico é que ao menos os fatos sejam críveis, tendo origem em fonte confiável. Método jornalístico, a apuração dos acontecimentos permite certificar se o dado veio de portador seguro e, então, avaliar se a informação é verdadeira ou falsa, se é sustentável ou não. No fim das contas, os elementos que subsidiam a história devem ter origem procedente, fundamentada e verificada.
Respostas a questionamentos simples também ajudam a clarear o cenário, como o que foi dito (assim como o que não foi dito), quem disse, como disse, em que ocasião disse, por que disse?
Fatos servem para embasar o início, o desenvolvimento da argumentação e a conclusão de um raciocínio. Eles ajudam na dialética, a estabelecer comunicação, a construir narrativa, mas, para isso, precisam ser analisados, compreendidos e utilizados de forma justa e intelectualmente honesta.
