Por sermos seres gregários, e nada autossuficientes, a nossa dependência com o outro é determinante e indispensável para nossa sobrevivência. Vivemos numa cadeia de ininterruptas atividades que permite o nababesco usufruto de tudo ao nosso redor. Indubitavelmente, os avanços da humanidade, em relação à tecnologia e ao desenvolvimento na trajetória do ser humano, não seriam possíveis caso não fosse por esse elo interminável e imprescindível. Talvez seja uma analogia estapafúrdia da cadeia de dependência. Mas, por exemplo, se todos os seringueiros resolvessem fazer uma greve total por um tempo, o néctar, matéria prima da borracha, não seria extraído. Consequentemente, pneus não seriam produzidos.
Dessa forma, o caminhão, que transporta a nossa escova de dente para o supermercado, poderia ter dificuldade para chegar à sua cidade, ou bairro. Por conseguinte, a limpeza dos nossos dentes estaria comprometida. Poderíamos adoecer. De acordo com Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.), somos seres sociais porque, para atingirmos a plenitude e a felicidade, dependemos dos outros membros da mesma espécie. Juntos, sentimo-nos amados, protegidos, reconhecidos. Nessa seara, Lev Vygotsky (1896-1934), psicólogo bielo-russo, entende o aprendizado como um processo sócio-histórico oriundo da compreensão da nossa constituição como
tal por estarmos inseridos numa sociedade. Concernente à linguagem, de acordo com Mikhail Bakhtin (1895-1975), filósofo russo, é a partir da pluralidade das vozes circundantes que a nossa linguagem é construída. A esse movimento, o pesquisador linguista nomeou polifonia, ou seja, do grego poluphonias, “poli” quer dizer “muitos” e “fonia” diz respeito “ao som, à voz”. Em síntese, considerando as 3 correntes supracitadas, ou seja, os arquétipos da felicidade, do aprendizado (e assim, do desenvolvimento) e da nossa linguagem, a vida que vivemos não seria do modo como a concebemos se não fosse pelo inexorável vínculo com o outro. Embora essa idiossincrasia da vida humana seja capital, a interdependência beira um flerte com a colonização e a imposição na maneira de ser e agir do outro.
Por mais que sejamos porosos em relação à ação do outro e, portanto, influenciamos e somos constante e inelutavelmente influenciados, é patente que se traga à baila a essência, a individualidade, a vontade e os desejos de cada um de nós. Somos ímpares. É na pluralidade que nos constituímos de forma singular. Portanto, somos plurais sem deixarmos de ser singulares. Essa singularidade imprime a nossa maneira de ser e agir que deve ser sempre respeitada. A nossa sexualidade, as nossas vontades, a nossa maneira de ser e agir, de se vestir, dentre outras características que estruturam a nossa natureza não determinam o nosso caráter, o nossa índole, a nossa responsabilidade para com a sociedade.
O pronunciamento preconceituoso, proferido por num dos mais altos escalões do governo, ou seja, “menino veste azul e menina veste rosa[1]” dá a tônica do tipo de vida - de servidão - que se apregoa neste país. Para Yuval Noah Harari, filósofo da Universidade de Oxford, aceitar a nossa singular realidade é um ato de sabedoria, mesmo quando há contradição draconiana em relação ao que a maioria acredita, aceita e vive. Para o historiador israelense, tudo que existe, inclusive e principalmente as vontades e os desejos, talvez não tão bem socialmente aceitos, são elementos naturais por definição da natureza. A grande questão é que as determinações de vida não são entendidas como formas naturais decorrentes da maneira como o mundo foi concebido, mas estão normalmente calcadas no modo como alguns querem que nos comportamos, nos vestimos, de quem gostamos, falamos, dentre outras marcas da humanidade contemporânea.
Apesar de ser bem desafiador, principalmente devido a tantos discursos opressores, autoritários, dogmáticos e absolutistas que pairam, sobretudo, nas mídias e, assim, se reverberam atavicamente nos lares e nas escolas, vale a tentativa de lutar, mesmo acossados, para a nossa felicidade. Sem um olhar crítico, essa retórica impositora e arbitrária, às vezes frugal, nos inebriam e nos cegam. Pela ótica de Aristóteles, temos que ser felizes da nossa maneira, desde que haja respeito e consideração pelo outro, pois, como dito acima, somos gregários, mas somos únicos.
Dependemos dos outros para muitas coisas, mas o nosso momento catártico de felicidade é somente nosso. Temos que ir atrás do que nos faz felizes! E sabemos o que é!!! Se não soubermos, faz parte da nossa essência humana descobrir o que nos traz felicidade e lutar por isso. Caso contrário, a vida não faz sentido e estaríamos numa situação de pária como seres humanos.
