Opinião

Que violência é essa que entretém? 

"Desenhar um horizonte menos violento é bem desafiador, a contar como os meios de comunicação e a mídia que, de forma geral, exageradamente banalizam a violência em contextos de humor, de impunidade, de intolerância à diversidade e à liberdade"

Francisco Estefogo*
18/04/22 às 20h00

Na paisagem da contemporaneidade, a violência, infelizmente, ocupa um lugar de destaque. Dificilmente os roteiros das séries de TV, tão cultuadas em tempos de streaming, não abordam assassinatos, suicídios, estupros, roubos, abusos sexuais, drogas, uso de armas e traição. A leitura que se pode fazer com base nessa sombria temática constituinte de boa parte do entretenimento da atualidade está relacionada à banalização da violência.

Essa seara também se faz presente em novelas e em outros programas dos canais abertos, principalmente os que são, em tese, dirigidos à população menos abastada, bem como ao público infantil e adolescentes. A retumbante frequência da violência nos noticiários e, principalmente, nos jogos de videogames, com recordes cada vez maiores de usuários, beira um pleonasmo.

Seria muito ingênuo afirmar que a barbárie é um produto da contemporaneidade. Há registros arqueológicos sobre as sociedades pré-históricas em conflitos perpétuos. Decapitação, canibalismo e sacrifício humano eram práticas comuns. A indagação que se faz diz respeito aos 10.000 anos, em média, que se passaram. Nesse período, é incomensurável o desenvolvimento da humanidade no que tange aos avanços tecnológicos e científicos. No entanto, pouco se escuta acerca do arrefecimento dos atos de crueldade. Pelo contrário, tornaram-se matéria-prima altamente consumível por meio dos instrumentos de entretenimento, tão democráticos em tempos dos indefectíveis celulares. Desnecessário apontar que a violência da vida cotidiana igualmente se agravou. Consequentemente, a mídia se alimenta fervorosamente da desgraceira humana.

O filósofo existencialista Jean-Paul Sartre (1905-1980) entende a violência como expressão de destruição oriunda da opressão e da exploração de classes, uma vez que o grupo vitorioso determina o que é legítimo. Nas palavras de Sartre, a violência “não é apenas uma força, mas uma liberdade e aquilo que ela opera pela força deve poder ser considerado também como expressão da liberdade”. Em outras palavras, os feitos brutais podem suscitar a resistência, mas perpetua a derrota, a fraqueza e o desespero, como alude Dalai Lama. Thomas Hobbes (1588-1679), filósofo inglês, assevera que a violência é decorrente da natureza inclemente e desconfiada do ser humano, pois, com vistas ao lucro, à segurança e à notoriedade, não hesita em competir para buscar a glória e o sucesso.

Mais particularmente, em relação ao desequilíbrio das forças opressoras e à luta exacerbada pela ansiada reputação frente à paralisia da anêmica massa populacional, os dados apresentados a seguir corroboram as proposições filosóficas citadas acima: a Porsche, montadora de carros de luxo, bateu recordes de vendas no Brasil em 2020 e 2021; a espera para a compra de um helicóptero pode chegar a 20 meses, devido à altíssima demanda. 5A incongruência desses números está escandalosamente marcada nos vergonhosos 116 milhões de brasileiros que vivem com algum grau de insegurança alimentar, além dos mais 19 milhões que estão passando fome, conjuntura vilipendiada pela pandemia e pela crise nacional econômica e política. Essa situação é decorrente da exploração e opressão dos que estão à margem, já que, como previamente apontado por Sartre, os dominadores legitimam o “mainstream” modo de viver.

Desenhar um horizonte menos violento é bem desafiador, a contar como os meios de comunicação e a mídia que, de forma geral, exageradamente banalizam a violência em contextos de humor, de impunidade, de intolerância à diversidade e à liberdade. Indiscutivelmente, a censura não seria o caminho, mas é preciso valorizar as relações de paz e solidariedade. No mais, além de esforços hercúleos na tentativa de fomentar o equilíbrio entre as forças de poder, em particular, a partir de políticas públicas relacionadas ao acesso à educação e saúde de qualidade, talvez mais jardins floridos, mais romances, mais encontros familiares (como no estupendo “Ritmo do Coração”, vencedor do Oscar 2022 de melhor filme!), mais conquistas, mais pôr do sol, dentre outros bálsamos de tranquilidade e armistício, pudessem ser pautas da indústria do entretenimento.

Deixando o polianismo de lado, essa ótica mais positiva da vida poderia ser inspiração de muitos roteiros à guisa de mais amor e harmonia, e menos tenebrosidade (entretenimento para alguns e, talvez, estímulo para outros).

Ariano Suassuna (1927-2014), dramaturgo, poeta e advogado de João Pessoa, seria um genial roteirista para se propagar o entretenimento mais remansado. Num lampejo de resistência, o paraibano alumbra a dureza e a agressividade, ao visionar: “tudo passa e o tempo duro tudo esfarela: o sangue há de morrer! Mas quando a luz me diz que esse ouro puro se acaba por finar e corromper, meu sangue ferve contra a vã razão e há de pulsar o amor na escuridão”. 

*Francisco Estefogo é pós-doutor em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela PUC-SP. Diretor acadêmico da Cultura Inglesa Taubaté e professor do Programa de Mestrado em Linguística Aplicada da Universidade de Taubaté (Unitau). No momento, é pós-doutorando em filosofia na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e na PUC-SP.

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veiculo de comunicação

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