“Ele é só diferente, filhinho. Não precisa ter medo”, sussurra laconicamente a mãe, adornada com reluzentes joias, ostentando um tailleur de grife, ao pé dos ouvidos do garotinho de em média 3 anos. Inerte e protegido no imaculado uniforme de uma escola de elite da maior metrópole do país, o menino apenas arregala os olhos curiosos. Mesmo com as palavras, a rigor, confortantes da progenitora, o indefeso e ingênuo rebento, ainda descortinando as idiossincrasias do mundo, continua impávido e entolhado, ao ver um senhor negro e obeso se aproximando, em surradas e puídas vestes.
Já dentro de um ultramoderno SUV elétrico de em média 300 mil reais, ouve-se do rádio uma voz grave e assertiva proferir que “não bastassem os macumbeiros e o monte de imagens horrendas, aquela cambada que participou dessa tal Parada (no epicentro financeiro de São Paulo) não é normal. É uma aberração, obra do príncipe das trevas”. Na mesma toada, ao chegar em casa, um “cafofo” triplex, o cônjuge da consorte supracitada, pós-graduado em uma renomada universidade, desvencilhando-se de um terno de corte italiano, vocifera: “este mundo está mesmo perdido! Você acredita, benhê, que uma circular do departamento pessoal rolou hoje no escritório, alertando que pessoas alternativas deverão ser contratadas? Segundo o documento, temos que abraçar a diversidade! Aonde vamos parar?”
O que é ser diferente, (a)normal, alternativo? Talvez, se fosse perguntado ao mesmo hipotético negro acima referido, ou a alguém da comunidade LGBTQIAP+, ou da umbanda, whoever, o que acham da exposta família “padrão”, diriam algo bem semelhante: “são diferentes”. Dadas as distintas perspectivas, quem, então, é diferente? N-I-N-G-U-É-M! Pensar ou proferir que alguém seja anômalo, do ponto de vista da evolução humana, em particular, na seara da sexualidade (claro, respeitando seus inúmeros desdobramentos!) e da constituição biológica, dentre outras inexoráveis características do existir humano (evidenciadas pela classificação taxonômica), é no mínimo negar a própria natureza da espécie.
Essa visão preconceituosa de mundo, em relação à diversidade intrínseca da contingência “homo sapiens”, alude às estapafúrdias concepções homogeneizadoras nazistas, quando propuseram a purificação da sociedade alemã, sob a luz da elaboração da raça “pura” branca. Grosso modo, a gênese de tal selvageria foi baseada no antigo povo ariano, que significa “nobre”. Como alertou Maquiavel (1469-1527), filósofo, historiador e poeta florentino, manter-se no poder exige esforços hercúleos, além de inúmeras armações do grupo dominante.
Resultado da fanática soberba ideológica hitlerista: considerados como vermes parasitas, por volta de 6 milhões de judeus foram dizimados, sem citar os ciganos, negros, homossexuais, deficientes físicos e Testemunhas de Jeová. Eram culpados por todas as atrocidades da sociedade alemã, uma vez que prospectavam, para os nazistas, a dominação do mundo.
O preconceito é uma das discussões mais relevantes do estudo da Ética, seara da filosofia, que se debruça, dentre outros fenômenos, sobre o comportamento humano. Na perspectiva de Norberto Bobbio (1909 – 2004), filósofo político italiano, os discernimentos preconceituosos se pautam em posições ideológicas equivocadas, acordadas deliberadamente, desprovidas da crítica e do relaxamento da racionalidade. Ressalta-se que as construções sociais acríticas tendem igualmente a dicotomizar a ação humana, sedimentando visões estereotipadas, antessalas da discriminação, da intolerância, do ódio, da violência e da repressão.
Lima Barreto (1881 – 1922), um dos monstros da literatura moderna brasileira, comumente retratava em suas magnânimas obras o preconceito étnico e racial. O desvalido contexto dos trabalhadores suburbanos do Rio de Janeiro, os paupérrimos e descendentes de africanos, o ambiente humilde, os casebres carcomidos, bem como as ruazinhas simples são elementos corriqueiros nas narrativas desse consagrado jornalista e escritor carioca negro. “Mas como ainda estamos longe de ser livres! Como ainda nos enleamos nas teias dos preceitos, das regras e das leis!”, publica Barreto em maio de 1911.
Mais de um século depois, ainda presenciamos cenas, como a supostamente aludida acima, que vicejam convicções doutrinadoras, silenciadoras, colonizadoras, homogeneizadoras e preconceituosas. A homogeneização na contemporaneidade hiperconectada, multidiversa e intercultural, escancarada pelos meios digitais, é no mínimo paradoxal. Nesse esteio, contrapõe-se que a cultura democrática deveria ser forjada na e pela diversidade atinente ao mundo.
É temoroso pensar que um pimpolho de meros 3 anos, personagem fictício desta reflexão, possa porventura crescer com o entendimento fossilizado que o dito “normal” é estudar numa escola particular, ser branco, heterossexual e ser filho de pais abastados. Que os orixás da umbanda e do candomblé, os santos beatificados, Oxalá, Deus, o Senhor, Jesus, os deuses do hinduísmo, Jeová, Maomé, Abraão e Buda, para apontar apenas algumas divindades, não permitam!
Que esses amparos do além (e os da Terra também!) nos deem forças para resistir, caso o imberbe, ainda que imaginário (mas que suscita reflexão), já crescido, cultive um bigodinho emblemático e tatue a suástica no seu corpo, esculpido nas mais badalas academias e nutrido por custosos iogurtes com princípios ativos. É desnecessário mencionar que tais lactáceos – dando continuidade à presumida estória que abre esta coluna – “foram adquiridos nas gôndolas dos empórios dos Jardins”, como se fosse uma das atividades mais corriqueiras de todos os terráqueos.
