Opinião

Quem são as pessoas cultas?

Mais que deletar, a proposta da antropofagia era unir culturas, como um caleidoscópio eclético

Francisco Estefogo*
20/06/22 às 20h00

É notório que, em particular no Brasil, educação de qualidade é um privilégio de luxo para pouquíssimos. O acesso a livros, cinema, teatro, artes, museus, viagens, dentre outros catalisadores do conhecimento, é quase exclusivamente direcionado para a elite. Há parcas oportunidades nesse sentido voltadas para a massa populacional.

Dessa forma, é comum associar as pessoas “cultas” aos mais abastados. Dada essa circunstância, aos que estão à margem desse custoso ativo cultural normalmente lhe são atribuídos a contingência dos “que não têm cultura”.

Do ponto de vista antropológico, essa atitude diz respeito ao etnocentrismo que abarca o julgamento preconceituoso de outras experiências humanas.

Ao considerar que a cultura tem profundo impacto nas emoções e na moralidade de um grupo social, o sectarismo pode valorizar o elitismo cultural, potencializar a desigualdade social, aguçar o sentimento de não pertença e, portanto, de baixa autoestima, gerando, talvez, uma fenda intransponível, ou ainda, como diria Nelson Rodrigues (1912-1980), o complexo de vira-lata. Esse sintagma foi elaborado pelo recifense escritor e dramaturgo quando a seleção brasileira de futebol perdeu para o Uruguai na Copa de 50. Mais particularmente, trata-se da sensação de inferioridade frente às outras comunidades.

Resistindo a esse mesmo “feeling” de vira-lata, ao retorquir os conceitos de que somente a cultura europeia era sofisticada e relevante, Oswald de Andrade (1890-1954), escritor e dramaturgo brasileiro, propõe o movimento antropofágico. O foco era trazer à baila como a cultura brasileira, assim como qualquer outra, era também pujante, original e criativa.

A antropofagia foi inspirada pelo quadro O Abaporu, pintado por Tarsila do Amaral, esposa de Andrade. O título da tela, uma das obras brasileiras mais valorizadas no cenário mundial das artes, significa “antropófago” em tupi-guarani, ou seja, “homem que come”. Dessa alusão, a ideia do escritor foi ingerir o de outrem para produzir a originalidade. Em outras palavras, preterir a cultura europeia veementemente pavoneada e promover a arte brasileira.

Vale ressaltar que essa corrente vanguardista, para a época, é advinda da Semana de Arte Moderna de 1922, que celebra seu centenário neste ano. Mário de Andrade, Anita Malfatti, Heitor Villa-Lobos, dentre outros monstros das artes e da literatura, redesenharam um novo horizonte no contexto artístico do Brasil com novas correntes, conceitos, ideias e formas de se pensar e produzir a arte nacional.

Mais que deletar, a proposta da antropofagia era unir culturas, como um caleidoscópio eclético. Essa intenção pode ser vislumbrada no trecho do Manifesto Antropofágico, escrito por Oswald de Andrade, em 1928: “Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz”.

Supõe-se assim que a dinâmica das culturas é como o movimento antropofágico: não se trata da cópia e da valoração de outras formas de vida, de outros jogos de palavras, mas de entendê-las, respeitá-las, assimilá-las, degluti-las.

Alan Moore, escritor britânico contemporâneo conhecido pelas suas estórias em quadrinhos, legitima essa reflexão ao afirmar que “o que chamamos realidade é apenas o senso comum de nossa cultura. Ignorar outras culturas é estar cego para outras realidades”. Nesse campo, Lévi-Strauss (1908-2009), antropólogo e filósofo francês, explica que essa comparação entre culturas ocorre devido ao evolucionismo cultural, ou seja, visão ocidental de que as sociedades, por apresentarem diferentes estágios de evolução, consideram os níveis de desenvolvimento e as mudanças ocorridas. O pensador, em contrapartida, ressalta que o progresso humano é decorrente da diversificação, isto é, uma comunhão entre várias culturas.

Ariano Suassuna, escritor brasileiro, elaborou o neologismo “ilumiara” que, a princípio, se referia às pedras esculpidas pelos “brasileiros” da pré-história. Posteriormente, o termo se expandiu para aludir as obras do próprio Suassuna, bem como qualquer manifestação cultural e artística.

Na verdade, a tônica das “ilumiaras” é retratar os símbolos da potência criativa de uma comunidade, bem como os contextos de celebração cultural, independentemente de ser uma cultura “elitizada ou não”. Resta torcer para que a proposta das “ilumiaras”, como um ato de resistência, transcenda, no contemporâneo mundo narcísico e polarizado, a nefasta ramificação dos grupos sociais, pelas perspectivas cultural, antropológica e ontológica, para que, assim, derrubemos as barreiras do preconceito etnocêntrico e banalizemos o progresso coletivo, democrático e intercultural.

* Francisco Estefogo é pós-doutor em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela PUC-SP. Diretor acadêmico da Cultura Inglesa Taubaté e professor do Programa de Mestrado em Linguística Aplicada da Universidade de Taubaté (Unitau). No momento, é pós-doutorando em filosofia na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e na PUC-SP.

 

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veiculo de comunicação


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