Opinião

Quinhentas mil mortes, quinhentas mil histórias de...

"(...) não estamos perdendo apenas para o vírus, devido a uma série de fatores. Estamos perdendo o senso de humanidade, de empatia e outros bons sentimentos"

Manu Zambon*
23/06/21 às 18h00

...mães, avós, tios, amigos, pais, primos, colegas de trabalho, artistas, profissionais da saúde que perderam suas vidas para a covid-19. Dentro de uma urna não se vela um número, uma estatística ou porcentagem. Dizer isso é tão óbvio quanto triste, mas no final de semana que chegamos a 500 mil mortes apenas no Brasil por covid-19, há quem ainda segue banalizando esse cenário.

Pior do que os mais de 500 mil mortos computados até hoje, é a previsão de 750 mil vítimas que podemos chegar até o final de agosto, segundo reportagem de Suzana Correa, do jornal O Globo, baseada no Instituto de Métricas de Saúde e Avaliação da Universidade de Washington, utilizado pela Casa Branca e pela Organização Pan-Americana de Saúde (Opas). 

Portanto, peço licença para usar este espaço para compartilhar minhas palavras com vocês, talvez um desabafo, mesmo sabendo que todos estão cansados de falar sobre ou desgastados com o volume de notícias ruins que nós, da imprensa, lamentavelmente temos que publicar.

Justamente nesse último final de semana, perdemos um jornalista que atuava em Araçatuba. Mas antes de ser um profissional, era marido, pai, genro. No domingo, o pai de uma amiga e parceira de trabalho também não resistiu às complicações do vírus, após mais de 40 dias internado. Poderia ainda ficar aqui listando nomes de conhecidos que já não estão mais entre nós por conta do novo coronavírus.

Mas o ponto de reflexão que proponho é que não estamos perdendo apenas para o vírus, devido a uma série de fatores. Estamos perdendo o senso de humanidade, de empatia e outros bons sentimentos. No dicionário, a palavra humanidade é designada para explicar o sentimento de compaixão, bondade, empatia em relação ao outro.

A empatia ou humanidade é a dosagem das nossas ações e a noção do que podemos causar no outro. É pensar que, se eu parar o carro na vaga destinada a uma pessoa com deficiência ou idoso, poderei prejudicar alguém. E atualizando: é usar máscara, mesmo vacinado (por enquanto). É se vacinar, porque precisamos atingir o número de imunizados para colocar fim nesse pesadelo. Não aglomerar e respeitar o distanciamento.

E quando digo que estamos chegando a esse nível de desumanidade, não é por pura crítica. Não sou da “lacração” ou das hashtags no Twitter, sou da imprensa e convivo com notícias ruins quase que 24 horas por dia.

Quando falo em desumanidade, me refiro a toda essa situação. Estamos caminhando para o segundo ano de pandemia e nada parece ter mudado. Juro que não entendo o que se passa com as pessoas que, além de aglomerar, fazem questão de postar em rede social. 

O mais "incrível" disso tudo é que, ao desrespeitar as regras recomendadas pelas autoridades, a pessoa não prejudica apenas os outros, mas ela mesma. Ao se recusar usar máscara ou se vacinar, ela perde o respeito com o coletivo e com ela mesma. 

E olhem só que paradoxo. Se por um lado as pessoas adoram postar que estão se divertindo em aglomerações, há o grupo que tem criticado aqueles que divulgam fotos tomando vacina. Postam memes perguntando se a vacina terá menos eficácia se a pessoa vacinada não postar a foto dela sendo imunizada ou mostrando a carteirinha de vacinação. 

Não há o que justifique atitudes como as que estamos vendo. Um perfil no Instagram à la Brasil Fede Covid em Araçatuba e região não seria má ideia. Aqui tem muito material. Não estamos sepultando pessoas, estamos sepultando a nossa capacidade de sermos melhores. Usando as redes sociais como pá para jogar terra sobre o senso de humanidade.

Umberto Eco afirmou: “As redes sociais deram voz a uma legião de imbecis”. Teria ele razão?

(Foto: Arquivo pessoal)

*Manu Zambon é jornalista do Hojemais Araçatuba e a favor de todas as medidas de combate ao coronavírus 

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