Opinião

Redes Sociais: Púlpitos da liberdade de expressão ou tribunais a inquisição?

Certamente, o mundo digital oportuniza ferramentas que possibilitam largos passos na evolução humana.

Francisco Estefogo
16/10/21 às 18h00

Indubitavelmente, a mundo digital revolucionou a atividade humana e, consequentemente, a maneira de ser, pensar e agir. As finanças, as ciências, os padrões de consumo e de ensino, a atividade econômica, bem como os novos relacionamentos e o comportamento da humanidade são alguns dos desdobramentos decorrentes do mundo digital que redefiniram a concepção da essência e da evolução do ser humano.No mais, o açodamento da velocidade com que a circulação das informações ocorre no contexto digital é tão magnânimo que as redes sociais, por exemplo, possibilitaram novas formas de interação e propagação de ideias e opiniões, ou seja, a priori, genuínos púlpitos da liberdade de expressão. No entanto, as fronteiras entre o mito e a verdade tornaram-se mais voláteis e tênues, comprometendo o processo de argumentação para a sustentação da verdade, da razão e da lógica.

Segundo o filósofo francês Jean Baudrillard (1929 – 2007), estudioso da hiper-realidade, a produção ininterrupta de imagens e informações, sobretudo pelos meios digitais, caldeia o limiar entre o concreto e o devaneio. Baudrillard entende que as imagens desenhadas pela mídia são mais soberanas que a própria existência, uma vez que a verdade, na arena do mundo virtual, é enigmática e porosa, pois possibilita a manifestação de toadas das múltiplas opiniões (doxa), o que dá asas para a imaginação, irrefreável, quase inapelável, da liberdade de expressão. Contudo, esses postulados podem ser (e normalmente são) pautados na algaravia do senso comum, longe da verdade dos fatos (alétheia). À vista disso, a veracidade distorcida se embrenha na retórica dos seus asseclas.

Certamente, o mundo digital oportuniza ferramentas que possibilitam largos passos na evolução humana. Rechaçar os avanços da civilização auferidos pela internet seria estupidez. Entretanto, um discurso lógico-argumentativo, marcado por signos e sentidos que sustentem teórica, científica, racional e filosoficamente as convicções e os posicionamentos também se fazem necessário na seara virtual. Soterrados de informação, a fadiga explicativa nos dispersa e nos inebria com uma paralisia analítica acéfala.

Dentre outras ações do ambiente virtual que normalmente flertam com o litígio, em particular nas redes sociais, são as incontáveis fotos, além das onipresentes selfies (de preferência em locais moderninhos e famosos) e das manifestações exacerbadas por paixões políticas extremadas. Há também o sectarismo acalorado análogo aos implacáveis tribunais do tempo da inquisição e ao totalitarismo, dentre outras formas narcísicas de materialização da linguagem, que inundam, especialmente, os indefectíveis celulares. Muitas vezes, tratam-se apenas de debates rasos permeados por egos inflados, tomados por decisões mercuriais, atrás de “likes” ou na busca frenética por seguidores e visualizações (para fins puramente comerciais, valendo, uma singela postagem, milhões de reais!!), que os moderninhos e descolados supõem que os fazem felizes, às vezes na covardia do anonimato, bem como na fronteira entre o real e o imaginário.

As redes sociais não deveriam se caracterizar como púlpitos de liberdade de expressão à revelia de qualquer ideia ou conspiração estapafúrdia. Tampouco serem aviltadas pelos pungentes e impiedosos tribunais como acontecia na época da inquisição, na Idade Média.  A julgar pela  justa medida aristotélica, que prevê o equilíbrio entre os vícios e as virtudes (o tão desejado santo graal para um vida refletida e ponderada!), é preciso desenvolver uma postura crítica, pautada na razão, nos conhecimentos científicos e no empirismo, dentre outros fundamentos consistentes, para se produzir uma contranarrativa no que tange aos deslizes disfuncionais das inescrupulosas vertentes de uma infinidade de opiniões descabidas expressas nas redes sociais.

Essa rastaquera esfera das redes sociais, normalmente carente de argumentos consistentes, pode nutrir forças de servidão ao poder, à opressão e ao pragmatismo, além de minar a racionalidade, a resistência e o estoicismo (a vida governada pela razão).

*Francisco Estefogo é pós-doutor em linguística aplicada e estudos da linguagem pela PUC-SP, diretor acadêmico da Cultura Inglesa Taubaté e professor do Programa de Mestrado em Linguística Aplicada da Unitau. É pesquisador do programa DIGITMED Hiperconectando Brasil, da PUC-SP, líder do GEPLE (Grupo de Estudos e Pesquisas em Linguagens Emancipatórias), vinculado à Unitau e graduando em filosofia pela Faculdade Dehoniana.  

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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