Opinião

São muitos futuros ou estamos muito ansiosos?

O futuro passa a ser colonizado por propósitos de produtividade, carreiras idealizadas, rankings e performatividades.


17/03/26 às 18h00

É curioso imaginar que somos os únicos seres que projetam – excessivamente - o futuro com minúcia normativa, por meio de calendários, viagens planejadas, metas, planos quinquenais, semanários, roteiros de produtividade, editais, contratos, promessas e mesmo as comezinhas tarefas do nosso dia a dia. No entanto, ao mesmo tempo, não podemos cravar se de fato viveremos aquilo que projetamos. A obsessão por normatizar o porvir revela tanto nossa potência imaginativa quanto nossa fragilidade ontológica, particularmente, no que se refere aos descompassos e excessos da contemporaneidade concernente à promessa de controle da vida e à realidade radicalmente contingente da existência, tensão estrutural que, muitas vezes, pode explicar nossos patamares críticos de ansiedade. 

No cenário hodierno, essa tendência parece intensificar-se diante de um mundo saturado de possibilidades e ofertas de futuros promissores relacionados a carreiras ideais, experiências extraordinárias e trajetórias de sucesso que são cuidadosamente narradas pelas engrenagens da cultura da performance, como diria Byung-Chul Han, filósofo e ensaísta sul-coreano, e pelas vitrines digitais mercadológicas da vida alheia, materializadas nas famigeradas – sempre elas - redes sociais. Paradoxalmente, quanto mais horizontes parecem abrir-se diante de nós, maior parece ser a ansiedade que nos acompanha, como se a multiplicação de caminhos possíveis exigisse de cada um de nós a tarefa quase impossível de escolher — e garantir, como se fosse possível garantir algo na vida — o mais acertado. Assim, organizamos o amanhã como se ele já estivesse sob nossa jurisdição, como se pudéssemos antecipar e administrar a própria existência. Contudo, não raro, concebido como propriedade marcadamente assegurada e controlada, o excesso de futuro permanece sendo apenas uma ínfima possibilidade, sempre atravessado pela contingência e pelas incertezas e tropeços inerentes da própria condição humana.

Essa tensão entre projeção e finitude percorre a filosofia desde a Antiguidade. Em Aristóteles (384-322 a.C.), filósofo grego, a noção de phronesis (sabedora prática e prudência) sugere que o agir ético, para além de um mero desdobramento de normas abstratas a um futuro idealizado, diz respeito à deliberação situada no aqui-agora, diante do contingente terreno da existência. Em outras palavras, não podemos controlar os resultados. O que podemos fazer é, no máximo, orientar prudentemente suas disposições. 

Nessa toada, para Martin Heidegger (1889-1976), filósofo alemão, o ser humano é descrito como ser-para-a-morte , já que a idiossincrática finitude é a estrutura constitutiva da existência. Destarte, a normatização excessiva do porvir pode ser, com frequência, uma estratégia para silenciar a angústia diante do nada que nos espreita. Entretanto, uma vez convertido em fetiche de realização pessoal, esse enquadramento temporal pode se tornar instrumento de alienação e octanagem para índices estratosféricos de ansiedade.

Sob esse prisma transitório, Karl Marx (1818-1883), filósofo alemão, já advertia que o capitalismo tende a transformar o tempo em mercadoria. O futuro passa a ser colonizado por propósitos de produtividade, carreiras idealizadas, rankings e performatividades. A partir desse encadeamento racional, o amanhã deixa de ser horizonte aberto e converte-se em planilha repleta de indicadores. A promessa de realização futura acaba sendo a justificativa para a exploração presente. 

Nessa dimensão temporal, Hannah Arendt (1906-1975), filósofa alemã, ao distinguir labor, trabalho e ação, ensina-nos que quando reduzimos o futuro à lógica do trabalho, ou a reles fabricação de resultados, esquecemos que a ação, como início imprevisível de natalidade, é o que verdadeiramente inaugura o novo. Portanto, o porvir não é extensão linear do presente, posto que emerge da pluralidade e da imprevisibilidade das relações humanas. Dessa forma, regulamentar demais o amanhã é sufocar as potencialidades do inesperado e, no avesso, intensificar os estados de ansiedade.

Os riscos da existência excessivamente voltada ao ordenamento do porvir são profundos e multifacetados. Quando o futuro se converte em exigência moral permanente, instala-se uma espécie de ansiedade crônica, como se a vida fosse um exame contínuo cujo resultado será sempre avaliado no amanhã. Nesse movimento, o presente passa a ser esvaziado de densidade existencial e vivido apenas como preparação, como um ensaio interminável para um momento supostamente mais pleno que ainda virá, ou seja, o “verdadeiro viver” que permanece sempre deslocado no horizonte. Ao mesmo tempo, quando instaura a desumanização produtivista, esse regime tende a reduzir a complexidade da experiência humana a métricas de desempenho e finalidades mensuráveis, com profundas doses de ansiedade, nas quais o valor da vida passa a ser medido pela eficiência com que se cumpre um roteiro previamente traçado e, claro, com resultados esperados. Tal postura também nos torna cegos diante da contingência radical da existência, visto que podemos esquecer que o curso da vida pode ser interrompido ou transformado abruptamente por acontecimentos imprevisíveis, dissolvendo a ilusão de controle que sustenta nossos planejamentos. E, talvez de forma ainda mais silenciosa, perdem-se as vivências da alegria simples decorrente do singelo instante vivido. Quando as expectativas futuras ocupam todo o campo da atenção, as experiências presentes deixam de ser saboreadas em sua plenitude, e a vida, em vez de ser vivida, passa a ser continuamente adiada.

Assim, talvez seja possível viver bem sem controlar excessivamente o porvir. Possivelmente, cultivar a consciência da finitude como intensificação do presente pode ser um ponto a ser considerado. Em termos aristotélicos, significa exercitar a prudência, isto é, agir bem hoje, independentemente das promessas futuras. Ademais, distinguir planejamento de apego igualmente parece ser uma postura equilibrada diante do vir-a-ser, pois planejar é um exercício racional legítimo; já apegar-se ao plano como se fosse destino cravado é mera ilusão. Afora essas ponderações, é preciso reconectar-se às relações concretas. Como lembraria Arendt, é na ação compartilhada que o mundo comum se constitui. Logo, a felicidade não está no futuro abstrato, mas na qualidade dos encontros da presença vivida. Nesse esteio, é patente reconhecer que o inesperado não é inimigo, mas a dimensão constitutiva da existência. A vista disso, a abertura ao imprevisível pode ser fonte de criatividade, expansão, tal e qual contenção da ansiedade.

Talvez viver mais sereno frente às dúvidas dos superdimensionados porvires signifique deslocar o eixo do controle para a confiança, da regulação rígida para a responsabilidade situada, assim como da obsessão pelo amanhã para o cultivo atento do hoje. Como lembraria Espinosa (1632-1677), influente filósofo racionalista holandês de origem judaico-portuguesa, oposto a negar a realidade com suas incertezas, a sabedoria da vida consiste em compreendê-la e habitá-la tal como ela se apresenta, com suas potências e fragilidades. Ou ainda, na seara do estoicismo, devemos alinhar nossos anseios e vontades ao desejo maior da força cósmica que rege tudo, dado que nadar contra esse princípio universal é se afogar na infelicidade. 

Em qualquer circunstância, o porvir continuará sendo um grande e incognoscível mistério. Mas o modo como vivenciamos o presente pode transformar a incerteza em intensidade, bem como a fragilidade em consciência lúcida, além de encontrar, na atenção prudente ao agora, um remédio para os picos de ansiedade produzidos pela obsessão com o que ainda não aconteceu. Longe do contrato com o amanhã, a vida é acontecimento no aqui e agora. Dadas suas idiossincrasias, é apenas assim que ela pode – e deveria -, de fato, ser vivida.

Francisco Estefogo é professor da Universidade de Taubaté (UNITAU) e membro titular da Academia Taubateana de Letras (ATL)

**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

Francisco Estefogo
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