O filme O Agente Secreto , com três indicações ao Globo de Ouro 2026, é um thriller político-dramático ambientado no Recife de 1977, em plena ditadura militar, centrado em Marcelo, professor universitário perseguido por assassinos de aluguel e envolvido numa rede de espionagem, vigilância estatal e refúgio de dissidentes. Ao tratar de circunstâncias relacionadas ao período ditatorial brasileiro e, por conseguinte, de seus desdobramentos atinentes à censura, ao controle absoluto e ao racismo, assim como à memória, ao trauma, à manipulação da verdade e à resistência, o longa oportuniza reflexões sobre como os nossos afetos foram - e são - explicitamente atravessados por esses episódios sócio-histórico-culturais decorrentes dos anos de chumbo. Nessa seara, com base na leitura aqui mobilizada de O Agente Secreto , bem como algumas conjunturas contemporâneas análogas ao final dos anos 70, à luz das seis paixões primitivas do filósofo francês René Descartes (1596-1650), ou seja, admiração, amor, ódio, desejo, alegria e tristeza, pode-se inferir como os nossos sentimentos estão invariavelmente circunscritos nos meandros sociais nos quais estamos, de maneira irremediável, imersos. Quase cinquenta anos transcorreram desde o tempo representado pela obra, e, ainda assim, a forma como nossas paixões emergem no presente indica que pouco progredimos como sujeitos sociopolíticos. Se adotarmos o bem comum como horizonte, em muitos aspectos, recuamos.
A começar pela primeira paixão cartesiana, ou seja, a admiração, trata-se do espanto e indignação frente ao que nos parece novo ou extraordinário. Esse sentimento, de algum modo, “suspende” a alma, fazendo-a fixar a atenção num dado objeto ou fenômeno. Nessa dimensão, Marcelo, sobejamente interpretado por Wagner Moura, por ter domínio e conhecimento tecnológico, está totalmente envolvido em uma patente científica que desencadeia a contenda com um poderoso e ímprobo industrial. Esse controle de fluxos de informação e vigilância, que em Descartes estaria ligada ao fascínio pela “maquinaria” do corpo, aqui se prolonga nas engrenagens políticas, dado que a película aborda situações permeadas por grampos, dossiês, arquivos secretos, escutas, silenciamentos, minutas etc. Em tempos presentes, na verdade, essas conjunturas se referem às decorrências fieis à normatividade política que, nos últimos tempos, tem governado nossa vida pública.
No mais, a produção do diretor Kleber Mendonça Filho, já laureada com 2 estatuetas no Festival de Cinema de Cannes este ano, inscreve o Cinema São Luiz e a própria cidade de Recife como objetos de espanto, não só nostálgico, mas, particularmente, político. A câmera de Mendonça, ao capturar fachadas, interiores, espaços públicos decrépitos, lendas urbanas e pistas visuais, transforma a cidade numa espécie de “corpo” a ser lido e admirado, mesmo quando impregnado de violência e decadência. Nada muito diferente dos tempos modernos, em especial, nas áreas periféricas.
Descartes concebe admiração como algo ambíguo, pois ao mesmo tempo que é necessária ao conhecimento, é perigosa se for mantida acriticamente. No filme, o espectador é conduzido de uma falsa admiração no que se refere ao fascínio superficial por um drama de espionagem a um espanto crítico. Dito de outra forma, a percepção de que o “segredo” não é apenas de um agente, mas de um país inteiro que normatizou a vigilância, a violência e a degradação com o terror de Estado. A admiração cartesiana se configura como porta de entrada para a consciência histórica relativa ao momento em que o olhar é capturado e obrigado a se debruçar sobre aquilo que, no Brasil, tantas vezes preferimos evitar o enfrentamento. Essas situações, muitas vezes inaceitáveis, são alocadas para a zona da amnésia, ao ignorarmos tantas injustiças sociais, como ainda acontece nos dias de hoje, mesmo depois de quase 50 anos do período retratado.
Já o amor, a segunda paixão de Descartes, é o que nos faz unir-nos de vontade às coisas que julgamos aceitáveis sócio e emocionalmente. No filme, essa união aparece precisamente onde o regime tenta produzir isolamento e medo. A própria produção define o abrigo onde Marcelo se esconde, junto a dissidentes e refugiados angolanos, como um espaço de proteção, cuidado, acolhimento e convivência em meio à perseguição. Nesse terreno, o amor se manifesta na paternidade de Marcelo por seu filho, que vive com os avós, na afeição comunitária que se forma entre exilados internos e refugiados africanos, tal e qual na figura de Dona Sebastiana, na pele de Tânia Maria, artesã descoberta por Kleber Mendonça Filho nas gravações de “Bacurau”, como eixo maternal e político.
Em termos cartesianos, o amor é aqui redistribuído, já que em vez de se dirigir ao poder (a pátria, a ordem, o “progresso” industrial), essa paixão se volta aos corpos vulneráveis, aos laços minoritarizados, aos “indesejáveis” do regime. Se Descartes estava preocupado em regular o amor para que não se tornasse apego cego, o filme desloca essa questão ao retratar uma sociedade estruturada pelo ódio de Estado, muito visto nos últimos anos em terras tupiniquins. O problema não é o excesso de amor, mas a sua escassez socialmente produzida. Amar, em O Agente Secreto , é desobedecer. Em tempos marcados pela adesão acrítica a figuras de poder, como se vive no horizonte temporal presente, o amor cartesiano revela-se cada vez mais rarefeito, sobretudo, quando a consciência se curva à cega obediência ideológica e à força dos mitos, como se diz por aí.
Em relação ao ódio, Descartes o concebe como movimento pelo qual a alma se afasta de algo que julga nocivo. Em princípio, não é necessariamente desfavorável, posto que pode ser racional rejeitar o que nos destrói. Na ficção cinematográfica, porém, o ódio aparece capturado pelo aparelho de Estado. O delegado Euclides, interpretado por Robério Diógenes, e seus auxiliares encarnam um ódio banal e burocrático: violência, humilhação e corrupção como rotina, pouco distinto do contexto atual. Os assassinos de aluguel que perseguem Marcelo materializam o ódio terceirizado, privatizado e transformado em serviço de aniquilamento. O drama de Mendonça mostra um Brasil em que o ódio de Estado se infiltra em policiais, empresários, generais, milícias e autoridades políticas. Ou seja, a permanência do que insiste em não passar.
Paradoxalmente, esse mesmo ódio também se torna combustível de resistência. Em termos cartesianos, essa paixão hostil poderia ser “reorientada”: o nojo dirigido ao terror de Estado acende o desejo de fuga, de justiça, de resistência e de desobediência. O diretor Kleber Mendonça Filho, em recentes entrevistas, associa a ditadura dos anos 1970 às derivas autoritárias recentes, insistindo que o país sofre de uma “amnésia autoimposta” em relação à violência que produziu. Em outras palavras, a realidade segue reproduzindo os mesmos padrões, uma vez que o ódio institucionalizado continua pelos dias de hoje, notadamente, nas redes sociais. Talvez uma política da memória poderia desarmar essa paixão maléfica e nos emancipar como sujeitos sociopolíticos que, a rigor, deveriam primar pelo bem comum.
No marco filosófico de Descartes, o desejo é a paixão temporal por excelência, visto que, voltada ao futuro, orienta esforços para conquistar algo que julgamos virtuoso. Em O Agente Secreto, o desejo se fragmenta no anseio de sobrevivência e evasão. Nesse sentido, Marcelo deseja basicamente não ser assassinado, pois quer fugir do país, escapar da rede de caçadores que sistematicamente o cercam e reencontrar o filho em segurança. O desejo aqui é minimalista e brutal, já que o protagonista perseguido quer viver o bastante para não ser reduzido a mais um corpo sem nome, como tantos outros. Outro desejo está imbuído na recuperação de histórias suprimidas, ao lado de Elza, mulher que documenta arquivos e testemunhos da época. Esse trabalho de registros antigos pode ser compreendido, sob a ótica cartesiana, como uma sede da alma de possuir cognitivamente um passado que o Estado tentou apagar. Ademais, o empresário corrupto e ambicioso que tenta se apropriar da patente de Marcelo manifesta o desejo de controlar o conhecimento técnico, típico do capitalismo, para lucrar muito, ainda que isso implique a destruição de quem o produziu (ou seja, “que se dane” o bem comum). Se Descartes queria que a razão governasse o desejo para evitar ilusões, o longa-metragem mostra um mundo em que o próprio governo ditador da época está tomado por um desejo delirante de controle total, bem como pela verdadeira paixão desregulada. Recentemente, no Brasil, testemunhamos o ressurgimento de um desejo prematuro das esferas governamentais de submeter o aparelho estatal a uma centralidade absoluta, como se todo o poder devesse convergir para um único ponto de comando.
A alegria, em Descartes, é o sentimento de uma perfeição ou aumento de potência em nós quando a nossa alma se percebe “repaginada”. Numa Recife vigiada, atravessada por delações e crimes, a alegria pode ser vista por meio de cenas de convívio no “bunker de afeição”, em que os risos, a comida, a música e as conversas recriam, por instantes, um mundo em que o medo não manda. Esse júbilo igualmente pode ser traduzido quando O Agente Secreto desvela o Cinema São Luiz como lugar de comunhão: uma plateia que respira junto, ri, se espanta, produzindo um corpo coletivo provisório. Em termos cartesianos, esse episódio é passível de compreensão como uma alegria compartilhada, isto é, um aumento de potência não de um sujeito isolado, mas de uma comunidade momentânea. A alegria, portanto, é uma forma de resistência sensível. Desse modo, a alegria não anula a tragédia, mas a impede de ser o único clima afetivo possível.
Por fim, a tristeza cartesiana é a sensação de diminuição da nossa pseudo perfeição. Em outros termos, consiste na paixão que acompanha a perda, o dano e o mal sofrido. O Agente Secreto é constantemente inscrito em tristezas estruturais, tais como a precoce morte da esposa de Marcelo; a experiência de perseguição constante, que corrói o cotidiano e os laços; a paisagem urbana marcada por decadência, violência e corpos descartáveis; o sentimento de que o país inteiro é um grande arquivo de dores não elaboradas. Novamente, a discussão de Kleber Mendonça sobre a “amnésia política” do Brasil é decisiva ao associar o período da ditadura à recente ofensiva autoritária, insistindo que o país tende a “perdoar” seus algozes sem fazer o trabalho de memória e justiça. No quadro sociopolítico vigente, à medida que se renovam as tentativas de anistiar aqueles que puseram à prova a resistência da democracia brasileira, assiste-se ao movimento inquietante de normalizar a própria ameaça que nos emudeceu e assolou entre 1964 e 1985.
Portanto, para além de ser apenas psicológica, a tristeza do filme é igualmente histórica, pois ressoa com a atual — e alarmante — movimentação do parlamento nacional em propor anistias e perdões a agentes que atentaram contra a própria democracia, reiterando um padrão crônico de esquecimento institucionalizado. Afora a fragilidade da cultura política brasileira, tal dinâmica revela uma predisposição histórica a tratar rupturas autoritárias como episódios superáveis por decreto, e não como afrontas que exigem responsabilidade, reparação, sensatez e elaboração coletiva. Destarte, a melancolia do premiado suspense emerge como sintoma de um país que, ao se recusar a confrontar seus fantasmas, meramente repete-os. No viés cartesiano, a tristeza nos informa que algo nos diminui. O risco, para Descartes, é que ela se torne hábito e nos reduza à inércia. Em O Agente Secreto , porém, a tristeza é precisamente o afeto que pode impedir a anestesia e, principalmente a partir da resistência da coletividade, a admiração, o amor e o desejo são paixões que podem impulsionar mudanças. A narrativa fílmica parece anunciar que enquanto ainda dói, ainda há chance de não repetir o ódio e a tristeza, para, então, prospectar mais momentos de alegrias assentados no bem comum.
Apreende-se, assim, que enquanto Descartes queria governar as paixões pelo entendimento, Kleber Mendonça Filho mostra como, em um país como o Brasil, as paixões são também governadas pela história, pela ditadura, pela colonialidade, pelo capitalismo dependente, pelas democracias frágeis e, o abismo que engole os demais males, pelo narcisismo político partidário. O Agente Secreto, pelas lentes de Descartes, evoca paixões que nos permitem perceber que não há alma pura fora dos meandros sociopolíticos, dado que cada admiração, cada amor, cada ódio, cada desejo, cada alegria e cada tristeza é também um efeito e um diagnóstico de nossas formas de organizar o poder, a memória e a violência.
Se a “amnésia autoimposta”, conforme pontua Kleber Macedo, continuar moldando nossa relação com o passado, 2026 poderá demonstrar, uma vez mais, que a história brasileira não se abre ao novo, tampouco se emancipou. Haja vista o que dias atrás ocorreu na Câmara dos Deputados, torna-se evidente que a sociedade brasileira ainda não consolidou um ethos político crítico que possa sustentar a democracia para além de suas aparências e interesses particulares. A tentativa (ainda bem, frustrada!) de preservação de mandatos de alguns parlamentares, um deles já condenado pelo Supremo Tribunal Federal, não é apenas um desvio procedimental, mas a manifestação de um absurdo ético que expõe a fragilidade de nossa consciência republicana. O poder sustenta o poder, mesmo quando a justiça o interpela, e nisso se revela nossa persistente imaturidade sociopolítica. Tal gesto, em vez de potencializar o pacto democrático em prol do bem comum da sociedade, repete padrões que já deveriam ter sido superados. Essa operação sinaliza que nossa trajetória pública parece mais afeita a círculos de repetição, em relação a projetos autocentrados, do que a movimentos efetivos de transformação, com vistas ao bem comum.
À luz do pleito nacional que se avizinha, a odisseia sociopolítica brasileira pode novamente colapsar em seu próprio movimento circular, ao reiterar trajetórias e repetir lapsos que tornam visível nossa frágil, superficial e claudicante formação sociopolítica. A considerar a vergonhosa legislação em defesa de privilégios individuais e partidários, o hiato que se estabelece entre o que vivemos hoje, para nós brasileiros, e o santo graal do bem comum na pólis, como há séculos já apregoava Aristóteles (384 - 322 a.C.), filósofo grego, não deveríamos esperar muito de 2026.
