Opinião

Será que não vamos mais nos encontrar? 

Ainda que não nos safe das chagas do corpo e da alma, a amizade apregoada por Epicuro, nos auxilia a sobrelevá-las.

Francisco Estefogo
16/01/23 às 19h00

Para muito além dos recados e avisos, as mensagens eletrônicas veiculadas nos perenes celulares, especialmente, as de áudio, abarrotaram o espaço do nosso cotidiano de uma forma contundente e sem precedentes, em particular, com advento da pandemia. “Oi, Ivonete... meus pêsames ... desculpe me, mas não poderei ir ao velório do Eriberto, pois o Rinaldo está trabalhando longe e não tenho ninguém para deixar a Sandrinha ... e você sabe como é levar criança ao cemitério ...”, finaliza a técnica mensagem num tom, a rigor, de tristeza. “Pensei bem e acho que não rola mais ... espero que seja feliz”, outro exemplo de uma mensagem diminuta e lacônica que interrompe o relacionamento de anos, outrora permeado por juras de amor eterno. “Que você e sua família sejam abençoados nesta noite tão especial, e que o menino Jesus traga harmonia, paz, saúde e muita felicidade a vocês!”, pulula a mensagem depois de quase 10 anos de um silêncio sepulcral, circunscrita num hiato temporal sem o menor contato afetivo. Será que essas mensagens, muitas vezes enviadas principalmente por “consideração e respeito”, legitimam-se na sua essência em relação à união e à confraternização? “Food for thought”! Vale ressaltar que, embora esses valores sejam essenciais nas relações humanas, o mundo gira diariamente a partir da ação, da atividade e do movimento!

É indubitável que as mensagens eletrônicas vieram para facilitar a nossa vida enormemente. Livramo-nos de infernais horas parados no trânsito, bem como de despesas com locomoção e de outras naturezas referentes a ocorrências demoradas e burocráticas. Na contramão, agilizamos o envio de arquivos e a organização de encontros e eventos, encurtamos distâncias, dentre outras benesses da comodidade desse padrão corriqueiro de comunicação.

Na esteira dessa praticidade, somos também “dispensados”, para a alegria, a conveniência e a covardia de alguns, de ir, por exemplo, a funerais, e, ao estar ausentes nesses momentos tão dolorosos, deixar de dar o imperioso e necessário abraço aos amigos e familiares. Também nos “isentamos” dos indispensáveis encontros presenciais para, no reverso, conversar sobre a relação e, por conseguinte, trocar olhares e toques, e, quem sabe, mirar uma reconciliação. No mais, “não precisamos” mais ir às famigeradas confraternizações de final de ano, e outros tipos de festas, quando costumávamos nos abraçar e trocar atos de afeto. Juntos, celebrávamos a vida, as conquistas e o renascimento. Parece que, infelizmente, os gestos reais de carinho foram supridos por frias, convenientes e automáticas postagens.

A priori, frente aos exemplos supracitados, as mensagens eletrônicas, para alguns, dão absolutamente conta de tudo, já que, como alfineta Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano e professor da Universidade de Berlim, “o celular é um instrumento de dominação. Age como um rosário”. Será que o uso exacerbado dessas mensagens não coloca em xeque o adensamento semântico no que tange à pujante interação humana? Será que, então, não vamos mais nos encontrar pessoalmente?

No esteio dessas indagações, na icônica obra Sociedade do Cansaço, Byung-Chul Han nos faz refletir a partir da afirmação que “o mundo digital é pobre em alteridade e em sua resistência”. Enfatiza-se que alteridade, do latim alteritas, está relacionada ao pressuposto de que somos seres sociais e, portanto, dependentes dos outros e, sobretudo, da imprescindível interação física.  O pensador da Coreia do Sul, que se debruça sobre os distúrbios recorrentes na sociedade capitalista atual, complementa seu raciocínio acerca da frugalidade do cenário eletrônico ao apontar que “nos círculos virtuais, o ‘eu’ pode mover-se praticamente desprovido do ‘princípio da realidade’, que seria um princípio do outro e da resistência”. Apreende-se, dessa forma, que as mensagens eletrônicas, ininterruptas e céleres, organizam-se, de certa forma, na dimensão do mundo das fadas, paralela ao mundo real, onde, de fato, na vida-que-se-vive, as emoções humanas são experenciadas, reconfortadas, celebradas, sentidas, ressignificadas, aplaudidas e aclamadas.

Epicuro (341-270 a.C.), filósofo grego, entende que o sábio é aquele que domina os seus desejos, pois se livra das perturbações e inquietações por meio do gozo dos prazeres da vida. Uma das maneiras de enfrentar essas inerentes mazelas da existência humana é pela amizade, regulada, primordialmente, pela sabedoria. “De todas as coisas que a sabedoria nos oferece para a felicidade da vida, a maior é a amizade", nos acalenta Epicuro.

Ainda que não nos safe das chagas do corpo e da alma, a amizade apregoada por Epicuro, nos auxilia a sobrelevá-las. Desse modo, a proposta epicurista é uma relação de intersecção, contato, equilíbrio e dedicação. Por ser um elo inteligente, é moderado por um trabalho conjunto onde os envolvidos mutuamente colhem frutos. “Não age como amigo nem quem em toda ocasião procura tirar proveito, nem quem nunca entra em contato; aquele negocia a retribuição de seus favores; este se priva de boa expectativa para o futuro”, adverte o pensador da Grécia.

À custa das indefectíveis mensagens eletrônicas, muitas vezes já prontas, às vezes puros clichês, para apenas imprimirem um ato de, para alguns, como já mencionado, “consideração e respeito”, talvez Epicuro teria que filosofar diferentemente acerca da amizade do mundo contemporâneo. É improtelável salientar que a palavra “AÇÃO” compõe a tal “consideração”, que, na visão de muitos, pode ser ratificada por uma vaga e efêmera mensagem. Mais que isso, é preciso agir.

Provavelmente, pela ótica epicurista, mais que uma mensagem breve, copiada, repetitiva e de lugar-comum, em particular, em momentos tão imperecíveis como a morte de um ente querido ou a desavença de uma relação, uma profunda e corajosa atitude de ternura e amizade é o elemento basilar que robustece essa conexão para os funestos acontecimentos que inexoravelmente estão por vir. Decerto, ao invés do tão esperado encontro, o breve envio de uma mensagem pode nos furtar daquele que nos faz pensar e que partilha seu modo de ser e agir, singularmente, sua presença, sua aparência, seu cheiro, sua energia, sua pele, suas alegrias e tristezas, seu riso e lágrimas. O envio de mensagens feito pela mera e superficial estima, quando não por obrigação, principalmente nas datas festivas, exige esforço e ônus, o oposto da afinidade eletiva entre lídimos amigos e entes queridos.

Possivelmente, o conceito de amizade de Epicuro deva ser repensado em virtude da moderna, incessante e lépida maneira eletrônica de interagir com o outro. Ou então, é preciso trazer à baila que episódios humanos, como a morte, a celebração, as conquistas, dentre outros fenômenos, vão muito além de uma parca, superficial e, pior ainda, “encaminhada” e obrigada mensagem eletrônica, enviada apenas por “consideração”. Nessas circunstâncias delicadas, a acarinhada e ardorosa ação de amizade dos encontros presenciais faz toda a diferença.

Por mais que a insensatez da correria do dia a dia nos inunda, com o trabalho e outros afazeres domésticos, rotineiras desculpas das mais estapafúrdias nas tais mensagens, Nietzsche (1844-1900), filósofo alemão, oportuniza a reflexão sobre a genuinidade, o encantamento e a magia dos encontros e, destarte, do fomento da sua potência terapêutica e de resistência. Assevera o pensador: “sempre necessitei mais urgentemente, para minha cura e restauração própria, foi a crença de não ser de tal modo solitário, de não ver assim solitariamente – uma mágica intuição de semelhança e afinidade de olhar e desejo, um repousar na confiança da amizade, uma cegueira a dois sem interrogação nem suspeita, uma fruição de primeiros planos, de superfícies, do que é próximo e perto, de tudo o que tem cor, pele e aparência”.

* Francisco Estefogo é pós-doutor em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela PUC-SP.  Membro titular da Academia Taubateana de Letras (ATL), Diretor acadêmico da Cultura Inglesa Taubaté e professor do Programa de Mestrado em Linguística Aplicada da Universidade de Taubaté (Unitau). No momento, é pós-doutorando em filosofia na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e na PUC-SP.

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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