Opinião

Seria esta pandemia a 11ª praga (Egípicia) dos tempos modernos?

Só no Brasil são mais de 300 mil mortos, ou seja, quase 10% dos vitimados no mundo.

Francisco Estefogo*
11/04/21 às 14h46

Muito já se especulou sobre a gênese do coronavírus que varre o planeta há mais de 1 ano. Só no Brasil são mais de 300 mil mortos, ou seja, quase 10% dos vitimados no mundo. Normalmente desprovidas de provas cabais, ou fundamentos científicos consistentes, as verborrágicas e incendiárias redes sociais, sempre elas, são campos férteis para o florescimento de ideias estapafúrdias.

Já se propalaram, para citar apenas alguns episódios, confabulações conspiratórias acerca do fato de o vírus ter sido criado intencionalmente em laboratório, por questões de poderio geopolítico. Não se furtaram também de atribuir a existência do lépido patógeno a um tipo de arma biológica produzida por cientistas chineses e americanos.

Numa perspectiva mais conservadora e religiosa, sob o peso da culpa ou do pecado, vergam também razões divinas como justificativas para a eclosão da extemporânea pandemia. São mais de 2.900.000 óbitos no planeta. Vale lembrar que, na Idade Média, a peste bubônica dizimou entre 75 e 200 milhões de vidas. A cólera, epidemia global de 1817, ceifou milhares de pessoas. Em 1918, já em pleno século XX, a gripe espanhola abateu entre 40 e 50 milhões de seres humanos. Dessa forma, é racional afirmar que a COVID-19 não será a primeira, tampouco a última intempérie que a humanidade terá que afrontar.  Por mais herege que possa parecer, imbuído de princípios racionalistas, Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716), filósofo alemão, afirmaria com veemência que a implacável chaga do começo do século XXI, assim como as citadas anteriormente, é compatível com a justiça divina.

O pensador, que também foi matemático, músico e físico, dentre outras atividades, se esmeraria no termo “teodiceia”, elaborado a partir das raízes gregas teo, “Deus”, e dikê, “justiça”, para fundamentar que o mal é coadunável com a alçada deífica. É no mínimo surreal conceber a essência de um acontecimento nefasto, como esta pandemia, articulada com as forças onipotentes vindas dos céus. A teodiceia se pauta na premissa de que as leis da natureza, principalmente no que dizem respeito à física, à química e à biologia, engendradas por energias divinas, constituem o mundo do jeito que é, não podendo ser diferente. É a partir desse argumento que os pressupostos filosóficos leibnizianos conciliam a crença da divindade justa com infortúnios inerentes ao planeta, tais como as guerras, a fome, a miséria, os terremotos, as doenças, dentre outras inexoráveis mazelas decorrentes da maneira como o mundo foi formado.

Dessa forma, para Leibniz, o devastador flagelo dos tempos modernos não se embasaria em motivos punitivos, tampouco em pragas despejadas na humanidade, como se possa acreditar. Trata-se simplesmente de uma consequência derivada de uma ação realizada com elementos disponíveis no mundo (no caso da COVID-19, comprovadamente, humana). Entende-se, assim, que somos responsáveis por quase tudo que vivemos. Essa responsabilidade humana, no que tange à definição do destino, é um deleite para os filósofos existencialistas. Pautado em Heidegger (1889-1976), Sartre (1905-1980) formulou a concepção filosófica existencialista alinhada com a existência material e concreta da nossa vida. Nessa seara, somos definidos a partir da maneira como vivemos. Por conseguinte, tornamo-nos responsáveis pela maneira como escolhemos conduzir a nossa vida, já que a condição de nossa existência é infalivelmente oriunda dos nossos atos.

Esse processo de construção e responsabilidade pelas nossas atividades e suas consequências somente se encerra com a morte. Enquanto nos resta algum tempo neste mundo, regido pelas idiossincrasias da química, física e biologia, e dado a inevitabilidade dos acontecimentos “naturais” pela forma como o mundo foi criado, está em nossas mãos optar por ações que propiciem uma vida mais digna, humana, solidária, racional, divertida e, claro, como intencionava Aristóteles com as suas imprescindíveis elucubrações filosóficas atemporais, feliz.

Foto: (arquivo pessoal)

*   Francisco Estefogo é pós-doutor em linguística aplicada e estudos da linguagem pela PUC-SP. Diretor acadêmico da Cultura Inglesa Taubaté (SP) e professor do Programa de Mestrado em Linguística Aplicada da Unitau. Pesquisador do programa Digitmed Hiperconectando Brasil, da PUC-SP, líder do Geple (Grupo de Estudos e Pesquisas em Linguagens Emancipatórias), vinculado à Unitau e graduando em filosofia pela Faculdade Dehoniana

 RECOMENDADO PARA VOCÊ
 EM DESTAQUE AGORA
VEJA TODOS OS DESTAQUES
 ÚLTIMAS EM OPINIÃO
Franquia:
Araçatuba SP
Franqueado:
Connect Jornalismo Digital LTDA
48.486.487/0001-90
Editor responsável:
Lazaro Silva Júnior MTB 48158
lazaro.junior@ata.hojemais.com.br
Todos os direitos reservados © 1999 - 2026 - Grupo Agitta de Comunicação.