Opinião

Somos Corajosos o bastante?

Indiscutivelmente, estudos apontam que os menos abastados padecem mais neste período tenebroso da humanidade.

Francisco Estefogo
16/12/21 às 23h58

Carrão na garagem, carreira de sucesso, conta polpuda e centenas de seguidores nas redes sociais são, para alguns, os desejados ativos da sociedade moderna que, a priori, desenham no horizonte o caminho para o eldorado da pseudo felicidade e da plenitude. Será essa a expectativa da vida?? Talvez os millenials (e outros, claro!), geração nascida entre 1979 e 1995, não pensem assim (tomara!), pois, teoricamente, estão mais antenados num modo de ser e agir mais sustentável, mais pluricultural e multidiverso, menos ostentador, mais livre e ecologicamente mais consciente.

Independentemente dessas commodities contemporâneas, a pandemia escancarou as vulneralidades da civilização, sendo rico ou não, com ou sem carro, empregado ou desempregado, adepto ou não às redes sociais, para citar apenas alguns ambicionáveis rótulos e condições sociais da contemporaneidade. Indiscutivelmente, estudos apontam que os menos abastados padecem mais neste período tenebroso da humanidade. Infelizmente, muitos não têm como se proteger do patógeno devido às precárias condições de higiene e moradia, afora a insegurança alimentar.

Como nem a posse de bens, tampouco os lugares mais altos no pódio hierárquico do tecido social, nos furtam dos achaques idiossincráticos da humanidade, paira no ar, então, o questionamento sobre os escudos humanos que nos protegeriam das inevitáveis intempéries do existir.  Até porque acreditar que a felicidade plena e infinita (certamente, inexistente, em razão de as mazelas da vida, em tempos alternados, acometerem absolutamente todos!) se resume em meras posses e “likes” na internet, por exemplo, seria, além de uma ingenuidade polianesca, um delírio esquizofrênico.

Obviamente, acordamos todos os dias na busca da realização de projetos relacionados aos estudos, ao trabalho, à família e afins, objetivos, a priori, de satisfação e alegria. Possivelmente, a vida espera isso (também) da gente. No entanto, não podemos nos iludir com a cortina de fumaça inebriante dos artífices sedutores, como carros, celulares e status social, objetos de desejo do século XXI. Para além disso, é preciso ter coragem para encarar os infortúnios da natureza humana, e, assim, resistir e sobreviver os anátemas inerentes à vida.  O líder indígena, filósofo e ambientalista Ailton Krenak corrobora essa ideia ao dizer “nós temos que ter coragem de ser radicalmente vivos”.

Originária do latim coraticum, a palavra coragem está relacionada ao coração. Como para Platão (427 – 347 a.C) e Aristóteles (384 – 322 a.C), filósofos gregos, o coração é o núcleo das emoções, ter coragem significa agir com coração. Mais que um carrão último tipo, com, decerto, o intuito de atrair olhares, ou milhares de seguidores nas redes sociais, mirando os famigerados “likes”, é preciso ter a força advinda do coração para afrontar as artimanhas do mundo. Na magnânima obra Ética a Nicômaco, Aristóteles define a coragem com “o meio termo entre o medo e a temeridade”. Essa máxima diz respeito à força do coração que precisa estar em consonância com as condições do contexto. Usada em excesso, essa potência pode se tornar ira, raiva ou ódio. Por outro lado, sua privação implica no medo, na covardia e na angústia. Para os pensadores da Grécia antiga, a razão é a chave para a regulação das emoções.

Esse processo racional de ser e agir no mundo está vinculado ao conhecimento empírico e à experiência. A julgar pela pandemia que assola humanidade, evitar aglomerações, usar a máscara e tomar a vacina são atos de racionalidade, cientificamente comprovados. São celeiros, portanto, de coragem para resistir e superar este nefasto momento da história. O medo de morrer ou ficar doente, como afirma Aristóteles acima, será rechaçado com as armas que dispomos para facejar o inoclasta vírus.

Riobaldo, personagem do clássico e magistral Grande Sertão Veredas, de João Guimarães Rosa, ratifica esta reflexão filosófica concernente ao existir, quando diz, “o correr da vida embrulha tudo; a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”.

 

*Francisco Estefogo é pós-doutor em linguística aplicada e estudos da linguagem pela PUC-SP, diretor acadêmico da Cultura Inglesa Taubaté e professor do Programa de Mestrado em Linguística Aplicada da Unitau. É pesquisador do programa DIGITMED Hiperconectando Brasil, da PUC-SP, líder do GEPLE (Grupo de Estudos e Pesquisas em Linguagens Emancipatórias), vinculado à Unitau e graduando em filosofia pela Faculdade Dehoniana.

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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