Opinião

Somos reféns do desempenho desenfreado?

No mundo moderno capitalista, a métrica da felicidade normalmente se consolida por meio do bem-estar oriundo da materialidade, do sucesso profissional,

Francisco Estefogo
17/01/22 às 20h00

O sentido da vida é uma indagação que transita nas discussões filosóficas há séculos. A busca da felicidade pode ser uma das respostas. Os filósofos gregos Platão (427-347 a.C.) e Aristóteles (384-322 a.C.) talvez responderiam à questão levantada com o termo “eudaimonia”, ou seja, "o estado de ser habitado por um bom daemon, um bom gênio". Ou simplesmente se refeririam à realização e ao bem-estar. Outros, possivelmente, diriam “amar e ser amado”.

Ainda em relação à felicidade, no esteio da razão, Kant (1724-1804), um dos principais filósofos da era moderna, diria que  “ninguém me pode constranger a ser feliz à sua maneira, mas a cada um é permitido buscar a sua felicidade pela via que lhe parecer boa, contanto que não cause danos à liberdade dos outros”. Nessa mesma toada da sensatez, Luc Ferry, filósofo, escritor, professor e ex-ministro da Educação na França, afirma que a felicidade não existe, pois há momentos de alegria e não um estado permanente de satisfação. Assim, a destemperada busca pela felicidade, porventura, não tem nexo, principalmente na sociedade contemporânea que prima pelo desempenho voltado, na maioria das vezes, para o triunfo material.

No mundo moderno capitalista, a métrica da felicidade normalmente se consolida por meio do bem-estar oriundo da materialidade, do sucesso profissional, do estilo de vida, do número de seguidores, da notoriedade etc. Para tanto, tornamo-nos reféns de uma dinâmica que nos impõe um árduo desempenho direcionado para o estudo, o trabalho e a conquista de bens, pois a materialidade desperta o desejo e alimenta o (ludibriador) ego.

Frente a essa dinâmica exaustiva e controlada do hodierno estilo de vida, Byung-Chul Han, professor de filosofia e estudos culturais da Universidade de Berlim, na irreparável obra “Sociedade do Cansaço”, discute os impactos deletérios, na mente e no corpo, decorrentes da busca imperativa e obsessiva do melhor desempenho, já que somos multitarefas e estamos sempre conectados. Han, pautado na lépida forma de viver e no indefectível envidamento de fazer e ser bom em tudo (de preferência para se conquistar algo material), também elaborou o conceito a “Sociedade do Desempenho”. Trata-se, em linhas gerais, da constante (auto)cobrança para sermos rápidos e eficientes, mas que, por sermos humanos falíveis, nos aturde na nefasta depressão, ansiedade, inveja e sensação de fracasso.

Inspirado pelo conceito do espírito livre, Nietzsche (1844 – 1900), filósofo alemão, no magnânimo livro “Humano, Demasiado Humano” já conjecturava o caótico cenário causado pelo desenfreado desempenho: “por falta de repouso nossa civilização caminha para a barbárie. Em nenhuma outra época os ativos, isto é, os inquietos, valeram tanto. Assim, pertence às correções necessárias a serem tomadas quanto ao caráter da humanidade fortalecer em grande medida o elemento contemplativo”.

Para nos ajudar a repensar o nosso papel na sociedade do desempenho e da materialidade, Heráclito de Éfeso (540 - 470 a.C.), filósofo pré-socrático da Ásia Menor, nos acalenta com as seguintes palavras, "se a felicidade estivesse nos prazeres do corpo, diríamos: felizes os bois quando encontram ervilhas para comer”. Em referência ao pensamento de Ferry, acima descrito, como nós, os bois vivem o efêmero momento de alegria. Depois acaba, como (quase) tudo nesta vida.

Um sentimento que pode nos alijar da condição de sermos reféns de todo o peso, angústia, opressão, cobrança e dor que o mundo moderno impõe é, segundo o dramaturgo grego Sófocles (497 – 406 a.C), o amor. O outro é a liberdade. A vida sem amor e oprimida não tem sentido. Nossa finalidade como ser humano é amar e ser livre. Mais que a carreira e o seu desdobramento refletido, às vezes, em bens materiais, o amor e a liberdade podem dar razão à vida. É preciso também desempenho pela busca de reaprender a dar e receber amor, bem como de lutar pela liberdade. Germinar o amor e a liberdade é um ato de resistência na sociedade do desempenho, da competitividade, da materialidade, do cansaço, do controle e do egoísmo.

Francisco Estefogo é pós-doutor em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela PUC-SP. Diretor acadêmico da Cultura Inglesa Taubaté e professor do Programa de Mestrado em Linguística Aplicada da Universidade de Taubaté (UNITAU). Líder do Grupo de Estudos e Pesquisas em Linguagens Emancipatórias (GEPLE- UNITAU). Um dos líderes do Grupo de Estudos Agentes Pesquisadores e Promotores de Reflexão da Cultura Inglesa sobre Ensino-Aprendizagem (A.PR.E.CI.E – FACULDADE CULTURA INGLESA). Pesquisador do programa DIGITMED Hiperconectando Brasil, da PUC-SP. No momento, é pós-doutorando em filosofia na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP).

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veiculo de comunicação

 RECOMENDADO PARA VOCÊ
 EM DESTAQUE AGORA
VEJA TODOS OS DESTAQUES
 ÚLTIMAS EM OPINIÃO
Franquia:
Araçatuba SP
Franqueado:
Connect Empresa Jornalística e Editora LTDA
32.184.870-0001/54
Editor responsável:
Aline Galcino - MTB: 43087/SP
aline.galcino@ata.hojemais.com.br
Todos os direitos reservados © 1999 - 2022 - Grupo Agitta de Comunicação.